ENTRE EMBARQUES E ABRAÇOS
*Natália Strucchi
No setor de turismo — dinâmico, exigente e profundamente conectado a experiências humanas — ser mulher já implica lidar com desafios próprios. Quando a maternidade entra nessa equação, a jornada ganha novas camadas de complexidade.
Em homenagem ao Dia das Mães é importante olharmos com mais atenção para profissionais que equilibram agendas intensas, deslocamentos frequentes e a responsabilidade de cuidar de uma família, muitas vezes sem a rede de apoio ideal.
Vou confessar uma coisa: eu já embarquei com o coração apertado, com lágrimas nos olhos, deixando uma filha pequena em casa e tentando manter a serenidade que o trabalho exige. Já perdi datas importantes, aniversários, momentos que não voltam — e que ficam marcados de um jeito silencioso. No jornalismo especializado em turismo, enquanto ajudamos outras pessoas a realizarem sonhos e mantemos o trade informado, muitas vezes precisamos administrar as nossas próprias ausências.
Essa sensação de sobrecarga e necessidade constante de equilíbrio não é individual. Ela reflete uma realidade vivida por muitas mulheres que atuam no turismo e em outras áreas ligadas à hospitalidade.
Segundo uma pesquisa da Belvera Partners, as mulheres representam 54% da força de trabalho na indústria de viagens e hospitalidade, mas ocupam apenas 33% dos assentos em conselhos de administração. Ou seja, embora sejamos maioria na operação, ainda enfrentamos barreiras significativas para alcançar posições de liderança. Essa discrepância revela um mercado que depende fortemente do trabalho feminino, mas ainda não oferece igualdade plena de oportunidades.
A percepção dessa desigualdade também é clara entre nós. De acordo com o levantamento, 63% das mulheres afirmam que o gênero influenciou sua trajetória profissional, enquanto apenas 32% dos homens reconhecem esse impacto. Isso mostra o quanto, muitas vezes, seguimos precisando provar — mais, sempre mais — nossa competência, nossa entrega e nossa capacidade de conciliar tudo.
Quando se fala em maternidade, o impacto se torna ainda mais evidente. Muitas de nós precisam tomar decisões difíceis: 22% afirmam ter adiado a maternidade por questões econômicas ou pressão profissional. Eu mesma já me vi fazendo contas, reorganizando sonhos, tentando encaixar o tempo da vida pessoal no ritmo acelerado da carreira.
Além disso, a divisão de responsabilidades dentro de casa ainda está longe do ideal. Apenas 14% das mulheres relatam ter parceiros que assumem os cuidados com os filhos. Na prática, isso significa jornadas duplas — ou triplas — e escolhas difíceis no dia a dia. No turismo, isso pode significar dizer “não” para uma viagem, uma promoção ou uma oportunidade importante.
Ainda assim, ser mãe e profissional do setor turístico também transforma. A maternidade me ensinou a ser mais resiliente, mais empática, mais eficiente — a fazer muito com pouco tempo, a valorizar cada encontro e a dar ainda mais sentido ao que faço. Viajar deixou de ser apenas deslocamento: virou também saudade, aprendizado e, acima de tudo, propósito.
Porque, no fim das contas, entre embarques e abraços, a gente segue.
Segue equilibrando mundos, construindo caminhos e mostrando, todos os dias, que é possível — mesmo quando não é fácil, afinal, ser mãe é a melhor coisa do mundo!
*Natália Strucchi é diretora de Redação do M&E, pós-graduada em Turismo e Hotelaria e, o mais importante, mãe da Alice, uma linda menina de 10 anos.






