
A Tailândia chega ao Marché du Film, realizado durante o Festival de Cannes 2026, usando “The White Lotus” como principal exemplo da estratégia do país para transformar incentivos ao audiovisual em retorno econômico, turístico e cultural. Segundo a diretora-geral do Departamento de Promoção do Comércio Internacional da Tailândia (DITP), Sunanta Kangvalkulkij, a “The White Lotus” da HBO gera aproximadamente US$ 36,5 milhões em gastos locais ao longo de 129 dias de filmagens no país.
A executiva informa ainda que a produção envolve cerca de mil profissionais tailandeses durante as gravações. Após a exibição da série The White Lotus, as reservas de viagens para a Tailândia registram aumento de aproximadamente 300%, enquanto as buscas online relacionadas ao país crescem cerca de 88%. “Essa é a direção correta que o governo decide apoiar”, declara Kangvalkulkij à Variety.
A terceira temporada de “The White Lotus” também marca a estreia como atriz da cantora Lisa Manobal, integrante tailandesa do grupo sul-coreano Blackpink. A participação da artista amplia o alcance cultural da produção e fortalece a conexão entre a “The White Lotus” e o país asiático.
The White Lotus Tailândia impulsiona turismo e indústria audiovisual
O governo tailandês aposta em incentivos financeiros para ampliar sua presença no mercado audiovisual internacional. O principal mecanismo é um rebate de 30% em dinheiro para produções estrangeiras. Segundo Kangvalkulkij, o benefício não possui teto de gastos nem exige testes culturais, o que significa que os projetos não precisam incorporar elementos da cultura tailandesa para receber o incentivo.
Nos últimos anos, a política atrai diferentes produções internacionais. Além de “The White Lotus”, a Tailândia recebe filmagens de títulos como “Jurassic World Rebirth”, “Alien: Earth” e do longa bollywoodiano “Dhurandhar”. Dados do ministério apontam que, entre janeiro e março de 2026, 162 filmes internacionais realizam gravações no país, gerando mais de US$ 36 milhões em investimentos externos.
Durante o Festival de Cannes, o DITP leva 15 empresas tailandesas ao mercado audiovisual sob o tema “Reimagining Thailand”. Segundo Kangvalkulkij, os dois primeiros dias do evento movimentam aproximadamente THB 500 milhões, cerca de US$ 15 milhões em acordos comerciais. A expectativa do departamento é alcançar cerca de THB 1,4 bilhão, equivalente a aproximadamente US$ 42 milhões, até o encerramento do festival.
Ao mesmo tempo em que amplia a atração de produções internacionais, o governo também investe no fortalecimento do conteúdo local. A Tailândia destina THB 220 milhões, cerca de US$ 6,7 milhões, para financiar 86 produções nacionais. “Nós trabalhamos de forma muito próxima entre a indústria tailandesa de filmagem e entretenimento e também as agências governamentais da Tailândia. Não é apenas o Ministério do Comércio”, relata Kangvalkulkij.
Entre os produtos audiovisuais locais que mais crescem estão as séries conhecidas como Boys’ Love (BL) e Girls’ Love (GL), focadas em romances LGBTQIA+. Durante o Thai Night Cannes, a vice-primeira-ministra Suphajee Suthumpun aborda o alcance internacional dessas produções. “Atualmente, a Tailândia produz mais de 55% de todo o conteúdo Boys’ Love da Ásia, alcançando públicos no Japão, América Latina, Europa e outros mercados”, afirma Suthumpun.
Segundo estimativas apresentadas no evento, o mercado de produções BL e GL deve ultrapassar THB 4,9 bilhões, mais de US$ 155 milhões, até o fim do ano passado. Kangvalkulkij acrescenta que o alcance internacional dessas produções deve continuar crescendo e informa que uma delegação tailandesa planeja visitar a América do Sul nas próximas semanas. A abertura do evento também conta com a participação da princesa tailandesa Ubolratana, que comenta a transformação criativa vivida pela indústria audiovisual do país. “Quanto mais profundamente uma obra está enraizada em seu próprio solo, mais genuína ela parece e mais longe ela consegue chegar”, declara a princesa.
O fortalecimento da indústria audiovisual tailandesa também passa pelo reconhecimento internacional conquistado nos últimos anos. Kangvalkulkij cita a Palma de Ouro recebida por Apichatpong Weerasethakul em 2010, com “Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives”, como um momento de mudança para o setor no país. Segundo ela, o prêmio demonstra que cineastas tailandeses conseguem apresentar sua criatividade ao mercado global.
Essa trajetória continua presente na edição deste ano do Festival de Cannes. Sompot Chidgasornpongse, colaborador de Apichatpong há mais de duas décadas, apresenta mundialmente o longa “9 Temples to Heaven” na mostra Directors’ Fortnight, com Apichatpong atuando como produtor do projeto. Outro exemplo citado é “How to Make Millions Before Grandma Dies”, lançado em 2024 e responsável por arrecadar mais de US$ 73 milhões em bilheteria mundial. Já em Cannes no ano passado, o filme “A Useful Ghost” conquista o principal prêmio da Critics’ Week.
Além da estratégia audiovisual, a Tailândia também busca ampliar relações econômicas internacionais. Em 2026, Tailândia e França celebram 170 anos de relações bilaterais. “A França pode ser nossa porta de entrada para a União Europeia”, aponta Kangvalkulkij. Ela acrescenta que a Tailândia retoma as negociações de livre comércio com a União Europeia e informa que os dois lados trabalham para concluir as tratativas até o fim deste ano.
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