
RIO DE JANEIRO – Com a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste domingo (8) e no domingo seguinte (15), os deslocamentos de candidatos para municípios diferentes daqueles onde residem colocam em evidência uma demanda ainda pouco explorada pelo mercado turístico brasileiro. Além de transporte e hospedagem, essas viagens movimentam restaurantes, serviços de mobilidade e o comércio local. Em entrevista exclusiva ao Mercado & Eventos, Milene Mostaro, professora do curso de Turismo da Celso Lisboa, analisa como os exames podem gerar fluxos econômicos, quais são as necessidades desses viajantes e por que a falta de recursos para o deslocamento também representa um desafio para o acesso à educação.
Para Mostaro, esse tipo de deslocamento precisa ganhar espaço nas discussões sobre mobilidade e planejamento turístico. “Quando um candidato precisa viajar para fazer uma prova, pode demandar transporte, hospedagem, alimentação e outros serviços no município de destino”, explica a professora.
O turismo educacional está relacionado a viagens motivadas pela aprendizagem, formação, intercâmbio de conhecimentos e experiências educacionais e os deslocamentos para realizar avaliações e processos seletivos apresentam uma motivação mais específica. “Mais do que tentar enquadrá-la automaticamente como turismo educacional, é importante compreender as viagens motivadas por exames e processos seletivos como uma possibilidade de análise das novas dinâmicas de mobilidade e consumo”, afirma Mostaro.
A professora também relaciona o crescimento dessa movimentação à expansão do Enem como método de seleção para universidades públicas. A partir de 2013, quando a grande maioria das instituições passou a adotar o exame como forma de ingresso, a realização da prova se consolidou como um fluxo observado em diferentes regiões do país. Para o turismo, a consequência é a necessidade de ampliar a compreensão sobre as motivações de viagem. “Mesmo que ainda não possamos inserir o deslocamento para o Enem em algumas categorias turísticas já estabelecidas, ele movimenta o fluxo de pessoas, a economia e muda a rotina dos participantes”, pontua.
O que os dados revelam sobre as viagens para o Enem e concursos

Como ainda não existem dados nacionais sistematizados que indiquem quantos participantes do Enem precisam sair de suas cidades para realizar o exame, o número de inscritos não pode ser utilizado diretamente como estimativa de turistas. Como referência da dimensão dessa operação, Mostaro menciona a edição de 2025, que registrou mais de 4,8 milhões de inscrições confirmadas, com aplicação das provas em 1.753 municípios brasileiros.
Por outro lado, uma pesquisa acadêmica publicada em 2023 na Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo apresenta informações sobre outro público: os candidatos a concursos públicos. O estudo Mercado das viagens para concursos públicos no Brasil: perfil e experiências de concurseiros, de Flávio Henrique Souza Lobato, entrevistou 500 pessoas que viajaram para participar de processos seletivos. Os resultados indicam que 91% dos participantes tinham entre 21 e 40 anos, 59,2% eram mulheres e 70,4% eram solteiros. Além disso, quase metade possuía ensino superior completo e 35,6% tinham pós-graduação.
A grande maioria (90,4%) dos entrevistados declararam que costumavam viajar sozinhos para realizar as provas e para escolha de hospedagem, os hotéis aparecem em primeiro lugar, mencionados por 76% dos participantes. Casas de parentes e amigos representam 43%, enquanto hostels correspondem a 26,4% e pousadas, a 24%. Os resultados ajudam a compreender as características de um mercado organizado em torno de datas específicas, com permanências relativamente curtas e necessidades relacionadas à proximidade dos locais de aplicação, ao descanso e à pontualidade.
Mostaro, entretanto, alerta que esses números não devem ser automaticamente aplicados aos estudantes do Enem e dos vestibulares. Enquanto um candidato adulto pode organizar a viagem individualmente, um estudante acompanhado pode exigir mais de uma diária, alimentação para diferentes pessoas e alternativas de transporte para o grupo familiar. “Um estudante acompanhado dos pais, por exemplo, pode representar uma composição de consumo diferente daquela de um candidato adulto que viaja sozinho”, observa.
Quanto essas viagens movimentam a economia local?
Entre os 500 entrevistados da pesquisa de Lobato, a despesa média declarada por viagem foi de R$ 884,32, considerando os valores da época do levantamento. O resultado corresponde à amostra pesquisada e não representa uma média nacional de todos os candidatos.
Mostaro informa que os participantes realizaram, em média, cinco viagens para prestar concursos, demonstrando como os gastos com transporte, hospedagem e alimentação podem se acumular ao longo do ano. “Esses deslocamentos não representam apenas um fluxo de pessoas, mas também uma oportunidade de geração de receita para os destinos”, destaca a professora.
Há aqueles que se deslocam exclusivamente para realizar a prova e retornam para casa, sem necessariamente utilizar serviços turísticos. Outros aproveitam a oportunidade para conhecer o destino, visitar atrativos e consumir serviços de lazer, podendo permanecer mais de 24 horas ou fazer visitas sem pernoite. Os impactos podem alcançar hotéis, pousadas, restaurantes, cafeterias, transportadoras, serviços de mobilidade e estabelecimentos comerciais.
Reconhecer essas diferenças, para Mostaro, permite que os destinos identifiquem demandas e organizem melhor a oferta de serviços. A professora considera que o mercado ainda explora pouco esse público, apesar da existência de uma demanda concreta. Entre as possibilidades estão pacotes que integrem transporte e hospedagem, condições específicas para estadias curtas, informações sobre os locais de prova e serviços adaptados aos horários dos exames.
Como hotéis e destinos podem se preparar para receber os candidatos

A preparação dos estabelecimentos começa pelo reconhecimento das necessidades desse público que, diferentemente dos turistas que organizam uma viagem para aproveitar os atrativos de uma cidade, os candidatos possuem uma programação vinculada ao horário e ao endereço de realização da prova. Os meios de hospedagem, nesse cenário podem disponibilizar informações antecipadas sobre os locais de aplicação, orientar os hóspedes sobre os trajetos e oferecer condições adequadas para estadias curtas.
A possibilidade de servir o café da manhã em horários compatíveis com o exame também aparece entre as medidas sugeridas pela professora. Restaurantes podem organizar o atendimento nos horários de maior concentração de candidatos, enquanto empresas de transporte e serviços de mobilidade podem fornecer informações claras sobre os trajetos e o tempo necessário para chegar aos locais de prova.
A demanda não está concentrada apenas no Enem: vestibulares tradicionais, como Fuvest, Unicamp e Unesp, processos seletivos de universidades públicas e privadas, concursos públicos, exames da OAB e seleções para residências e formações profissionais também podem gerar deslocamentos ao longo do ano.
No caso dos vestibulares, há concentração de provas no segundo semestre, especialmente entre outubro e dezembro. Os concursos públicos, por sua vez, apresentam calendários mais distribuídos, de acordo com os editais de cada instituição. A professora considera que existe potencial para desenvolver um nicho de mercado em torno dessas viagens, mas pondera que a consolidação de um segmento turístico depende de mais pesquisas, identificação dos fluxos e organização de produtos especializados.
Custo das viagens pode dificultar o acesso à educação
Além das oportunidades econômicas, os deslocamentos para realizar exames evidenciam desigualdades de acesso à educação. Para estudantes que residem longe dos municípios de aplicação, os custos podem incluir passagens, hospedagem, alimentação, transporte local e despesas de acompanhantes. Para famílias com menor poder aquisitivo, essas despesas podem representar uma barreira importante à participação nos processos seletivos.
“Do ponto de vista do planejamento turístico, considero importante que as cidades acompanhem os calendários de grandes exames, vestibulares e concursos públicos, identificando os períodos de maior concentração de visitantes.” A articulação entre poder público e iniciativa privada também pode contribuir para organizar a oferta.
Um exemplo citado pela professora ocorreu em Minas Gerais, em 2024, quando o governo estadual anunciou o investimento de R$ 25 milhões para garantir transporte, hospedagem e alimentação a aproximadamente 36 mil estudantes da rede pública que precisariam realizar o Enem em municípios diferentes daqueles onde residiam.
Dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, indicam que aproximadamente 4 milhões de estudantes brasileiros precisavam se deslocar para estudar em outro município. Na graduação, o percentual de estudantes nessa situação chega a 27,3%, conforme os dados mencionados pela entrevistada.
Para a professora, a gratuidade do transporte público nos finais de semana também precisa integrar essa discussão. Ela recomenda a ampliação de programas de transporte gratuito ou subsidiado para candidatos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, além de apoio à hospedagem e à alimentação quando as distâncias exigirem pernoite.
Outra possibilidade é aprimorar a distribuição dos locais de aplicação das provas por meio de ferramentas de georreferenciamento. Mostaro defende que os governos estaduais e municipais, as instituições de ensino e operadores de transporte trabalhem em conjunto para identificar onde estão os candidatos e avaliar as condições de deslocamento entre os municípios de residência e os endereços dos exames. “Não podemos tratar essa questão apenas como uma responsabilidade individual do estudante ou de sua família”, argumenta.
Planejamento ajuda a reduzir despesas e evitar imprevistos
Para quem precisa viajar, a organização antecipada é uma das principais medidas para controlar os gastos. A recomendação é acompanhar os calendários dos exames, pesquisar diferentes opções de transporte, comparar tarifas e reservar a hospedagem, pensando na localização e preço da diária, assim que o local de aplicação estiver confirmado.
Uma hospedagem mais barata, mas distante do endereço da prova, pode gerar despesas adicionais com transporte e aumentar o risco de atrasos. Também é importante verificar as condições de segurança do entorno, os horários de entrada e saída e a disponibilidade de refeições. Sempre que possível, a chegada ao destino na véspera do exame reduz a dependência de trajetos longos no próprio dia da avaliação.
Na compra das passagens, a orientação é evitar conexões e horários muito apertados, além de conferir as regras de alteração e cancelamento. Conhecer previamente o percurso entre a hospedagem e o local da prova também ajuda a reduzir imprevistos. A organização coletiva pode ser outra alternativa quando candidatos partem da mesma região: o compartilhamento de despesas com transporte e hospedagem, quando viável, pode diminuir os custos individuais.
Entretanto, Mostaro ressalta que o planejamento não resolve sozinho as dificuldades financeiras. “Para determinados estudantes, mesmo uma viagem muito bem organizada pode continuar sendo financeiramente inviável”, pondera. A professora defende que o acesso à educação também seja analisado a partir das condições materiais necessárias para chegar ao local de realização de uma prova. Para ela, a gratuidade da inscrição não garante, por si só, que todos tenham condições de participar do processo seletivo.







