
O avanço da primavera aumenta as temperaturas e favorece a ocorrência de chuvas típicas da estação. Neste ano, porém, o cenário também conta com a influência do El Niño, fenômeno climático que altera a circulação atmosférica e contribui para a chegada de frentes frias a regiões mais ao norte do país. A combinação entre calor e umidade cria condições para a formação de temporais, como o que atingiu o Rio de Janeiro na madrugada de 5 para 6 de novembro.
Apesar da possibilidade de tempestades, a capacidade de antecipar os impactos e informar a população ainda é limitada. O principal recurso para esse tipo de monitoramento é o nowcasting, sistema de previsão de curtíssimo prazo que permite identificar a localização e o horário aproximado de fenômenos severos.
Com a ferramenta, seria possível indicar quais bairros têm maior probabilidade de registrar temporais entre 30 minutos e uma hora antes da ocorrência. No entanto, o Rio de Janeiro, assim como outras regiões brasileiras, não conta com uma estrutura completa para esse tipo de previsão.
A tempestade registrada na madrugada de quinta-feira (6) exemplifica o problema. Embora já existisse uma previsão geral de possibilidade de temporais, a população não recebeu um aviso específico sobre os volumes de chuva que poderiam ser registrados. O alerta da Defesa Civil chegou quando a precipitação já era intensa.
Em estações do sistema Alerta Rio, na Zona Sudoeste da cidade, foram registrados acumulados superiores a 70 milímetros. A estação Barra/Riocentro, por exemplo, contabilizou 73,6 milímetros em 24 horas. Segundo dados do Climatempo, mais de 3.400 raios atingiram a cidade durante o episódio.
Nowcasting depende de equipamentos e profissionais especializados
O meteorologista Ernani Nascimento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), referência no Brasil em estudos sobre tempestades severas, destaca que a possibilidade de eventos extremos exige atenção especial durante o atual episódio de El Niño. Para ele, o país possui conhecimento científico e parte da infraestrutura necessária, mas ainda precisa ampliar as equipes e integrar os sistemas de monitoramento.
O especialista explica que existem diferentes níveis de antecedência para a previsão de tempestades. Em escala estadual, é possível antecipar a possibilidade de um evento com até 24 horas. Para uma cidade, o prazo pode variar entre três e quatro horas. Já a identificação mais precisa do local e do horário de ocorrência depende de uma previsão de curtíssimo prazo. “É possível prever uma tempestade com 24 horas de antecedência em nível de estado e de três a quatro horas para uma cidade. Já saber exatamente onde ela vai cair e em que horário é possível com, no máximo, uma hora de antecedência. Isso depende de um nowcasting eficiente, coisa que não temos”, afirma Nascimento.
O meteorologista observa que os estados das regiões Sudeste e Sul possuem quantidade suficiente de radares meteorológicos para contribuir com o monitoramento. Entretanto, a presença desses equipamentos, isoladamente, não garante uma previsão eficiente. Também são necessárias equipes maiores, profissionais com treinamento específico e redes de estações meteorológicas capazes de transmitir informações em intervalos curtos.
Nascimento compara a estrutura brasileira à dos Estados Unidos, onde as estações são organizadas em redes estaduais. Nesse modelo, a distância entre os equipamentos não deve ultrapassar 30 quilômetros, e os dados precisam ser transmitidos a cada dez ou, no máximo, 15 minutos.
No Brasil, a frequência de atualização representa uma dificuldade. As estações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), segundo o pesquisador, enviam informações apenas uma vez por hora, intervalo que pode ser insuficiente para acompanhar a evolução de tempestades isoladas. “A rede do Inmet consegue detectar, por exemplo, frentes frias, mas não pega tempestades isoladas”, explica.
Outro recurso necessário é a radiossondagem, realizada com balões atmosféricos que coletam informações sobre as condições da atmosfera em diferentes altitudes. Esses dados permitem analisar o perfil da massa de ar e avaliar as características que uma tempestade pode apresentar, incluindo a possibilidade de chuva intensa, granizo ou tornados. No Rio de Janeiro, o sistema de radiossondagem do Aeroporto Internacional do Galeão voltou a funcionar depois de um período de interrupção. Em Porto Alegre, por outro lado, o equipamento permanece sem operação desde 2024.
Falhas na comunicação podem atrasar alertas à população
Além da disponibilidade de equipamentos e profissionais, a integração entre os órgãos responsáveis pelo monitoramento e pela emissão de alertas é considerada essencial. O processo envolve centros meteorológicos, órgãos de Defesa Civil e canais de comunicação com a população.
Nascimento aponta que a demora na transmissão das informações pode comprometer a utilidade de uma previsão, mesmo quando o fenômeno é identificado com antecedência. “Integração e comunicação são um gargalo crítico no país todo. Se um previsor detecta um temporal com meia hora de antecedência, esse alerta precisa ser dado pela Defesa Civil em instantes ou será em vão. Atualmente, perde-se muito tempo entre o momento em que a informação sai do centro meteorológico, passa pela Defesa Civil e chega à população”, adverte.
Como exemplo, o pesquisador menciona o tornado registrado em Chapecó, em Santa Catarina, na quarta-feira (4). Apesar de a cidade contar com uma estação meteorológica e de o aeroporto possuir um radar, a torre de controle autorizou um avião a realizar o procedimento de táxi enquanto a tempestade avançava na direção da aeronave.
A necessidade de aprimorar esses mecanismos estará entre os principais assuntos do I Simpósio Sul-Americano de Tempestades Severas, programado para ocorrer de 9 a 12 de novembro, no Inpe. O encontro reunirá especialistas em tempestades de diferentes países do continente, profissionais que atuam diretamente na previsão meteorológica, desenvolvedores de ferramentas e estudantes. O nowcasting será um dos destaques da programação, em razão da importância da previsão de curtíssimo prazo para reduzir os impactos de eventos extremos.
El Niño influencia a chegada de frentes frias ao Rio
Embora o fenômeno climático contribua para o cenário de instabilidade, o El Niño não foi a causa direta da tempestade que atingiu o Rio de Janeiro na madrugada de quinta-feira (6). A avaliação é de Marcelo Seluchi, meteorologista e coordenador de operações do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Segundo ele, o fenômeno tem favorecido a ocorrência de mais frentes frias no Sul do Brasil. Essas massas de ar encontram condições para avançar em direção ao Sudeste, aumentando a possibilidade de instabilidade atmosférica na região. “O El Niño tem gerado mais frentes frias no Sul do país, e elas têm encontrado condições favoráveis para avançar até o Rio. No caso específico do temporal da madrugada, ele foi provocado por uma instabilidade que se desprendeu da frente fria que ainda estava no Sul”, explica Seluchi.
A frente fria que atua na região Sul deve chegar ao Rio de Janeiro no fim de semana. A previsão é de mais chuva e redução das temperaturas, mas isso não significa necessariamente a ocorrência de novas tempestades. Seluchi também indica que o tempo deve permanecer chuvoso durante a primeira quinzena de novembro, com tendência de aumento do calor posteriormente.
O meteorologista relaciona o comportamento recente das chuvas a mudanças ambientais e climáticas observadas nas últimas décadas. Segundo ele, a alteração do uso do solo e o desmatamento contribuíram para a redução da umidade disponível na atmosfera, influenciando os padrões de precipitação. “O que acontece é que, já faz algumas décadas, as chuvas diminuíram por falta de umidade associada à mudança de uso do solo e ao desmatamento. Este ano, temos tido mais chuvas, impulsionadas um pouco pelo El Niño e pela atuação das frentes frias mais ao norte do que o normal. Nos anos anteriores havia calor, mas não umidade”, declara.
Nascimento ressalta que não existe um comportamento único para todos os episódios de El Niño. Embora o fenômeno provoque alterações na circulação atmosférica, seus efeitos variam conforme as condições de cada ocorrência. No atual episódio, as frentes frias não permanecem concentradas no Sul do país, situação que poderia favorecer grandes acumulados de chuva e inundações naquela região.
Em vez disso, têm sido observados episódios de tornados e granizo, além de maior disponibilidade de umidade na atmosfera. “Cada El Niño tem sua própria personalidade. Há muita umidade na atmosfera, mas ela não está concentrada. Temos que observar como esse El Niño vai se comportar. Por enquanto, ele está diferente dos anteriores”, destaca o meteorologista.
*Com informações de Extra.







