
A crise financeira da Raízen, uma das principais empresas brasileiras dos setores de distribuição de combustíveis e bioenergia, vai além do mercado de ações. A companhia está em processo de recuperação extrajudicial, com uma dívida que envolve aproximadamente R$ 65 bilhões, e prepara mudanças na estrutura de seus negócios. O caso também interessa ao turismo, setor que depende diretamente do transporte rodoviário e da disponibilidade de combustíveis para movimentar passageiros e conectar destinos.
A discussão ganha visibilidade nesta terça-feira (3), quando as ações preferenciais da empresa passaram a ser negociadas na B3 sob o código RAIZ55, em substituição ao antigo RAIZ4. Durante o pregão, os papéis chegaram a registrar queda superior a 26%. Por volta das 13h15, recuavam 18,33%, cotados a R$ 24,50, segundo dados publicados pelo Valor Investe.
A alteração do código de negociação, porém, não representa uma mudança no preço dos combustíveis nem uma redução automática da capacidade de abastecimento. Segundo comunicado da companhia, a mudança estabelece um fator de cotação de 100 ações e lote-padrão também de 100 papéis. A quantidade de ações detida pelos investidores e seus direitos permanecem inalterados.
Por que a situação da Raízen interessa ao turismo?
A conexão está na cadeia de abastecimento de combustíveis. A Raízen atua em duas frentes principais: distribuição de combustíveis, com a marca Shell, e produção de açúcar, etanol e bioenergia.
No turismo, a distribuição de combustíveis tem relação direta com diferentes atividades. O transporte rodoviário de passageiros, as locadoras de veículos, os transfers, os passeios turísticos e os deslocamentos realizados pelos próprios visitantes dependem de uma cadeia que envolve produção, distribuição, armazenamento e comercialização de combustíveis.
O impacto econômico pode chegar às empresas de transporte quando ocorrem mudanças relevantes nos preços, nas condições de fornecimento ou nos custos operacionais. Isso não significa, entretanto, que a recuperação extrajudicial da Raízen já tenha provocado alterações nas tarifas de ônibus, nos preços das locações ou nos valores dos pacotes turísticos.
A relação é importante porque o combustível representa uma despesa operacional para empresas que trabalham com deslocamentos. Em períodos de alta nos preços, transportadoras e operadores podem enfrentar pressão sobre suas margens, especialmente quando não conseguem repassar imediatamente os custos aos passageiros.
Carro é o principal meio de transporte nas viagens brasileiras
A dimensão dessa relação aparece nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, o carro particular ou de empresa foi utilizado em 50,7% das viagens realizadas pelos brasileiros. O avião respondeu por 14,7%, enquanto o ônibus de linha representou 11,9% dos deslocamentos. Os números fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua: Turismo), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério do Turismo. Agência Gov
O peso do transporte rodoviário também aparece nos números da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). O sistema de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros realiza, em média, 3,2 milhões de viagens por ano e transporta mais de 100 milhões de passageiros. A estrutura reúne mais de 9,6 mil empresas autorizadas e uma frota superior a 30 mil veículos, segundo o levantamento TRIIP 2025. ANTT+1
Esses indicadores ajudam a dimensionar a importância da cadeia de combustíveis para a mobilidade turística. Uma alteração relevante nos custos de abastecimento pode afetar transportadoras, empresas de receptivo e operadores que dependem de veículos para atender visitantes.
Raízen está entre as principais distribuidoras do país
A participação da empresa no mercado ajuda a explicar por que sua situação financeira acompanha as discussões sobre energia e transporte. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) referentes a 2024, a Raízen respondeu por 14,98% das vendas nacionais de combustíveis, considerando o mercado de distribuição. O percentual ficou abaixo dos 16,4% registrados em 2023. Os dados foram divulgados pela Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), com base nas informações da agência reguladora. Fecombustíveis
A empresa também atua no segmento de combustíveis de aviação. Segundo o Anuário Brasileiro de Aviação Civil, a Raízen Combustíveis respondeu por 19,1% das vendas nacionais de querosene de aviação (QAV) em 2025, ficando atrás da Vibra Distribuidora, com 60,6%, e da Air BP, com 19,3%. Instituto Aviação
Esse dado amplia a conexão com o turismo, já que o querosene de aviação é um dos principais insumos utilizados pelas companhias aéreas. Entretanto, a participação da Raízen na distribuição não significa que uma eventual dificuldade financeira da companhia provoque automaticamente alterações no preço das passagens ou na oferta de voos.
Recuperação extrajudicial prevê separação dos negócios
O plano de recuperação extrajudicial da Raízen envolve aproximadamente R$ 64,7 bilhões em dívidas financeiras. O montante foi confirmado em informações divulgadas pela companhia e reportadas pela Reuters. A operação foi apresentada como a maior reestruturação extrajudicial já realizada no Brasil. UOL Notícias+1
O plano foi homologado pela Justiça de São Paulo em 30 de julho de 2026, após obter adesão de 81,6% dos créditos sujeitos à negociação, segundo a Opea, responsável pela administração de parte dos títulos envolvidos na operação. Opea
Uma das principais medidas previstas é a separação das atividades da companhia em duas empresas independentes. Uma ficará concentrada na distribuição de combustíveis, enquanto a outra reunirá os negócios de açúcar, etanol e bioenergia.
A proposta também prevê a substituição de parte das dívidas por novos instrumentos financeiros e a conversão de créditos em participação acionária. O objetivo é reorganizar a estrutura de capital e permitir a continuidade das operações.
Em outubro, os acionistas aprovaram medidas para implementar o plano de reestruturação. A operação também prevê um aumento de capital que pode variar entre R$ 3,5 bilhões e R$ 39,8 bilhões, conforme informações divulgadas pela Reuters.
Turismo brasileiro movimenta bilhões e depende da mobilidade
A discussão ocorre em um momento de expansão do mercado doméstico de viagens. De acordo com a PNAD Contínua: Turismo, do IBGE, o Brasil registrou 20,6 milhões de viagens nacionais com pernoite em 2024. Os deslocamentos movimentaram R$ 22,8 bilhões na economia, crescimento de 11,7% em relação ao ano anterior.
O gasto médio por viagem passou de R$ 1.706 em 2023 para R$ 1.843 em 2024, alta de 8%. Do total de viagens, 85,5% tiveram finalidade pessoal, e o lazer respondeu por 39,8% dos deslocamentos dessa categoria. Agência Gov
Com o carro representando mais da metade dos meios de transporte utilizados nas viagens nacionais, o comportamento dos custos de combustíveis merece atenção de empresas e destinos turísticos.
Para o viajante, o preço da gasolina e do etanol influencia o orçamento de quem percorre longas distâncias de carro. Para as empresas, o diesel e outros combustíveis fazem parte da estrutura de custos de ônibus, transfers e veículos utilizados em passeios.
A situação da Raízen, portanto, interessa ao turismo não pelo novo código de suas ações na bolsa, mas pelo tamanho da empresa na cadeia de energia brasileira e pela importância dos combustíveis para a mobilidade de passageiros.
Até o momento, não há indicação de que a recuperação extrajudicial tenha provocado desabastecimento ou reajustes generalizados nos preços dos combustíveis. O acompanhamento do processo e de seus efeitos sobre a distribuição será importante para entender possíveis reflexos sobre o transporte e a atividade turística no país.







