Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
A família mantém a Casa da Glória (Divulgação:Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

Muito antes de Trancoso se transformar em um dos destinos turísticos mais conhecidos da Bahia, as cozinhas da vila já contavam histórias. Mulheres que viviam da pesca, da roça, de pequenos negócios e da própria produção doméstica transformaram ingredientes locais em comida, trabalho e, com o passar dos anos, em uma parte importante da identidade do destino. É dessa trajetória que nasce a Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso, roteiro que reúne seis restaurantes no Quadrado Histórico e conecta diferentes momentos da história gastronômica da vila.

Casa da Glória, Silvana e Cia, Ali Na Janete, O Cacau, Cantinho Doce e Casa Rabanete foram criados em diferentes períodos, entre 1982 e 2000, mas têm um ponto em comum: a participação decisiva de mulheres na construção dos negócios. Algumas começaram dentro de casa, outras em barracas improvisadas ou ainda preparando comida para moradores e os primeiros visitantes. O turismo cresceu, Trancoso ganhou projeção internacional e o perfil do Quadrado mudou, mas essas cozinhas permaneceram ligadas às receitas e aos ingredientes que ajudaram a formar a identidade local.

A proposta da rota é justamente olhar para Trancoso por esse outro ângulo. Em vez de apenas passar pelo Quadrado para conhecer a arquitetura, a igreja e o movimento turístico, o visitante encontra seis endereços que preservam histórias familiares e pratos associados à memória da comunidade. São moquecas, bobós, pescados, acarajé, tapiocas, cocadas, frutos do mar e receitas que ganharam novas apresentações sem perder a relação com suas origens.

Seis restaurantes, seis histórias de Trancoso

A rota não reúne restaurantes com uma única proposta gastronômica. Cada casa construiu seu próprio caminho e representa um período diferente da transformação de Trancoso. Há quem tenha começado vendendo comida em uma barraca, quem tenha aberto as portas da própria casa para receber viajantes e quem tenha transformado uma antiga pizzaria em uma referência de comida farta.

Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
Seis casas no Quadrado revelam como mulheres ajudaram a construir a gastronomia de Trancoso (Divulgação/Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

Casa da Glória nasceu quando Trancoso ainda era uma vila de pescadores

Fundada em 1987 por Maria da Glória e João Grande, a Casa da Glória guarda uma das histórias mais ligadas à antiga rotina de Trancoso. João trazia alimentos do mar e da roça, enquanto Dona Glória, cozinheira, parteira e mãe de 18 filhos, transformava esses ingredientes em refeições para a família e para quem começava a chegar à vila.

A casa acompanhou o crescimento do turismo e acabou se transformando em restaurante e pousada. Depois da morte de Dona Glória, em 2011, suas descendentes deram continuidade ao negócio e às receitas que marcaram a trajetória da família.

No cardápio, feijoada, bobó de camarão, caruru, pescados e cocadas mantêm essa ligação entre mar, terra e memória. A permanência dessas receitas ajuda a contar uma história anterior à consolidação de Trancoso como destino internacional.

Silvana e Cia começou dentro de casa

A história do Silvana e Cia começou ainda antes, em 1982. Silvana e José Vieira abriram o negócio dentro da própria residência, inicialmente com produtos simples, como pão caseiro, cocada, limonada e suco de maracujá.

A mudança veio com a chegada de viajantes e hippies a Trancoso. Silvana passou a preparar peixe frito, arroz, feijão, banana-da-terra e couve. Sem formação profissional em gastronomia, construiu uma cozinha baseada nas receitas familiares e nos ingredientes que encontrava na região.

Com o tempo, a casa ganhou novos pratos, mas manteve a base regional. Moquecas, bobó e peixe assado na folha de bananeira estão entre os preparos associados ao restaurante, que também utiliza ingredientes menos conhecidos fora da região, como biribiri, coentro-maranhão e fruta-pão.

A continuidade da história também está dentro da família. Filhos e netos participam hoje do negócio, mantendo uma trajetória que começou há mais de quatro décadas.

Ali Na Janete leva a cozinha de Janete para o Quadrado

Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
Janete Vieira Bonfim preserva no Ali Na Janete os sabores que contam a história de Trancoso (Divulgação/Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

Nativa de Trancoso, Janete Vieira Bonfim começou a cozinhar na praia, preparando moquecas, frutos do mar e receitas da culinária baiana. Em 2000, levou essa experiência para o Quadrado e criou o Ali Na Janete.

O restaurante passou a acompanhar uma fase completamente diferente do destino, já com Trancoso consolidado no mapa turístico nacional e internacional. Mesmo assim, a cozinha continuou ligada aos sabores de origem de Janete.

Camarão na moranga, bobó de camarão, pirão, farofa de dendê, aipim, leite de coco, pescados e frutos do mar formam a base do cardápio. A família também participa da continuidade da casa, com os filhos, entre eles Niele, e o genro envolvidos na trajetória do restaurante.

O Cacau mistura gastronomia, arte e referências baianas

Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
Dora e Julieta comandam O Cacau. (Divulgação:Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

Criado em 1999 por Dora Miranda e Julieta Lemos, O Cacau surgiu próximo à igreja histórica do Quadrado. Dora, baiana do Recôncavo e moradora de Trancoso desde os anos 1980, levou para o restaurante referências que vão além da comida.

A gastronomia da casa se aproxima da arte, da espiritualidade e da cultura baiana. O acarajé da Dora, o beiju com queijo e o camarão nativo com coco seco aparecem entre os pratos que representam essa proposta.

A própria escolha do endereço faz parte da história. Quando o restaurante foi criado, aquela região do Quadrado tinha menos movimento e havia dúvidas sobre o potencial comercial do local. A permanência do restaurante transformou aquela aposta em uma das referências da rota.

Posteriormente, Maria de Fátima, irmã de Dora, tornou-se sócia, reforçando a presença familiar no negócio. O espaço também reúne referências de arte sacra, orixás, música brasileira e jazz.

Cantinho Doce nasceu de uma barraca de São João

Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
Cássia mantém o Cantinho Doce vivo. (Divulgação:Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

A trajetória do Cantinho Doce começou em 1987, com a trancosense Cássia Vieira Borges. Antes de abrir o restaurante, ela mantinha uma farmácia no Quadrado e aproveitava as festas de São João para montar uma barraca de doces, caldos e comidas típicas.

A procura pelos produtos acabou levando à abertura do restaurante ao lado da farmácia. A história do estabelecimento acompanha um período em que o Quadrado tinha uma relação muito mais próxima com a vida cotidiana dos moradores.

A cozinha valoriza frutos do mar, tapioca, coco, banana e pimenta-de-cheiro. Entre os pratos mais conhecidos está o strogonoff de lagosta servido no abacaxi, que se tornou uma das marcas da casa.

A história de Cássia também ajuda a registrar a transformação do próprio Quadrado. O espaço que hoje recebe visitantes de diferentes partes do mundo já foi, segundo sua memória, uma extensão da vida cotidiana dos moradores de Trancoso.

Casa Rabanete mantém o tempero de Mainha

trancoso
Dona Glória Possa, conhecida como Mainha, como uma de suas principais referências (Divulgação/Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso)

A Casa Rabanete completa a rota com uma trajetória iniciada em 1993. Criado pela família no Quadrado, o restaurante tem Dona Glória Possa, conhecida como Mainha, como uma de suas principais referências.

A casa começou como pizzaria e, por volta de 2000, passou a trabalhar com o sistema self-service. A mudança ampliou o cardápio e consolidou a proposta de uma mesa farta, com pratos preparados diariamente.

Moquecas, peixes assados, carne do sol com purê de aipim, cocadas, bolos, compotas e a Coxinha de Mainha fazem parte desse repertório. A tradição chegou às novas gerações da família e também ultrapassou Trancoso, com presença em Arraial d’Ajuda e Porto Seguro.

Uma rota construída por mulheres

Trancoso tem uma rota gastronômica que conta a história da vila pelas receitas das matriarcas
Moquecas, bobós e frutos do mar fazem parte de um roteiro criado pelas matriarcas de Trancoso

O que conecta os seis restaurantes não é apenas a localização no Quadrado ou a presença de pratos da cozinha baiana. É a história de mulheres que participaram da construção de negócios familiares em diferentes momentos da formação turística de Trancoso.

As casas surgiram quando o distrito ainda tinha uma dinâmica muito diferente da atual e acompanharam a chegada de novos visitantes, hotéis, pousadas e investimentos. Algumas mudaram de formato, outras ampliaram os cardápios e todas precisaram acompanhar a transformação do destino.

A rota coloca essas mulheres no centro dessa narrativa. São histórias de cozinheiras que começaram em casa, na praia, em uma barraca de festa ou em pequenos negócios e que, ao longo dos anos, ajudaram a construir uma gastronomia reconhecida pelos próprios moradores e por quem chega a Trancoso.