
A entrada da Gol no mercado europeu poderia colocar a companhia brasileira em uma disputa direta com a TAP em uma das principais ligações aéreas entre Brasil e Portugal. Mas, ao apresentar sua primeira operação para Lisboa, a empresa adotou outro discurso. Em vez de tratar a companhia portuguesa apenas como concorrente, a Gol defendeu uma aproximação maior e afirmou que torce para que a TAP tenha um resultado positivo no processo de reprivatização conduzido pelo governo português.
“A gente está torcendo para a TAP nesse processo”, afirmou Mateus Pongeluppi, vice-presidente comercial da Gol, durante encontro com jornalistas em Lisboa.
A declaração ocorre justamente quando a Gol começa a operar sua primeira rota direta entre o Brasil e a Europa. O voo Lisboa-Rio de Janeiro é inaugurado nesta quarta-feira (16), com quatro frequências semanais inicialmente. A partir de 24 de novembro, a operação passa a cinco voos por semana. A companhia já admite, porém, que pretende chegar à frequência diária.
A nova rota coloca Gol e TAP frente a frente no corredor aéreo entre Lisboa e Rio, mas a empresa brasileira afirma que a estratégia não passa necessariamente por uma disputa direta pela mesma demanda. A ideia apresentada pelos executivos é ampliar a cooperação comercial entre as duas empresas.
Gol quer ampliar parceria com a TAP
A Gol e a TAP já mantêm um acordo de codeshare, mas atualmente o modelo é de mão única. Passageiros da companhia portuguesa podem comprar, por meio da TAP, trechos domésticos no Brasil operados pela Gol. Segundo Pongeluppi, a relação pode avançar para um modelo bilateral, permitindo que as duas empresas comercializem voos uma da outra.
“A gente está falando de codeshare two ways. As duas empresas se vendem e se distribuem”, explicou o executivo.
O modelo discutido não prevê, segundo a Gol, coordenação de preços ou de malha aérea. A proposta é permitir que o passageiro combine trechos das duas companhias em uma mesma jornada.
Um cliente poderia, por exemplo, viajar para o Brasil em um voo da TAP e seguir para outro destino brasileiro em uma aeronave da Gol. O movimento também funcionaria no sentido inverso, ampliando as possibilidades de conexão para passageiros transportados pela empresa brasileira.
A lógica apresentada pela companhia é de complementaridade entre as redes. Danillo Barbizan, diretor de vendas da Gol, afirmou que a parceria atual permite à TAP alcançar uma oferta maior de destinos no mercado brasileiro.
A aproximação também ajuda a explicar a declaração de Pongeluppi sobre a reprivatização da TAP. Embora a Gol tenha uma relação de mais de uma década com a Air France, a empresa brasileira afirma que decidiu fortalecer a relação com a companhia portuguesa neste momento.
Disputa pela TAP entra na fase final
A TAP está no centro de uma disputa entre dois grandes grupos europeus. Air France-KLM e Lufthansa apresentaram propostas para adquirir uma participação de 44,9% da companhia aérea portuguesa.
O governo de Portugal decidiu abrir uma nova rodada de negociações com os dois grupos. A decisão ocorreu após a análise das propostas apresentadas pelas concorrentes e mantém aberta a definição sobre quem ficará com a participação colocada à venda.
A operação faz parte da primeira etapa da reprivatização da TAP, que prevê a venda direta de uma participação de referência de até 44,9% do capital da companhia. A definição do comprador ainda está em aberto. As negociações com Air France-KLM e Lufthansa seguem antes da decisão final do governo português.
É nesse cenário que a Gol passa a defender publicamente uma aproximação maior com a TAP. “A TAP é muito grande, muito importante para o Brasil”, afirmou Pongeluppi.
A relação entre as empresas ganha ainda mais relevância porque a Gol acaba de entrar no mercado de voos diretos entre Brasil e Portugal. A companhia passa a disputar passageiros em uma rota na qual a TAP possui uma presença consolidada e uma extensa rede de conexões.
Primeiro voo da Gol para Portugal começa com quatro frequências
A nova ligação entre Lisboa e o Rio de Janeiro marca a entrada da Gol na Europa. O voo será operado entre o Aeroporto Humberto Delgado e o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio. A operação começa com quatro frequências semanais, às segundas, quartas, sextas e sábados. Segundo a empresa, a procura antecipada já representa cerca de 80% de ocupação nos voos vendidos desde o início da comercialização.
Em novembro, a companhia acrescentará uma quinta frequência semanal, às terças-feiras.
A meta, no entanto, é chegar ao voo diário. “Esse voo precisa ser diário o mais rápido possível”, afirmou Pongeluppi durante o encontro em Lisboa.
A companhia também avalia outras oportunidades em Portugal, embora o Rio de Janeiro seja o centro da estratégia internacional apresentada pela empresa.
A escolha do Galeão está relacionada à estrutura que a Gol possui no aeroporto. Segundo o executivo, a empresa concentra uma parcela relevante de sua operação no terminal carioca e pode utilizar a rede doméstica para alimentar a nova ligação europeia.
“Se eu sou grande e tenho infraestrutura abundante lá, uso a minha malha lá para acomodar aqui”, explicou Pongeluppi.
A estratégia permite à companhia conectar passageiros de diferentes cidades brasileiras ao novo voo para Lisboa por meio do Rio de Janeiro.
Aeroporto de Lisboa é um dos obstáculos para expansão
O crescimento da operação, porém, encontra uma limitação importante em Portugal. O Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, opera com restrições de capacidade e disponibilidade de slots.
A própria Gol reconhece que os horários escolhidos para a nova rota não foram necessariamente aqueles inicialmente solicitados pela companhia.
“Os horários do voo, por exemplo, não foram os horários que a gente pediu. Foram os horários que a gente conseguiu entrar. Não há slots”, afirmou o vice-presidente.
A limitação pode dificultar uma expansão mais rápida da operação. Mesmo assim, a Gol mantém a intenção de ampliar a presença em Portugal e utilizar o Rio como principal ponto de distribuição de passageiros para a Europa.
A estreia também acontece em um momento de expansão internacional da companhia, que já opera para diferentes destinos nas Américas. Lisboa representa, portanto, uma nova etapa da rede internacional da empresa, que passa a disputar diretamente o tráfego entre Brasil e Europa.
Concorrência no Atlântico não impede cooperação
Apesar da entrada da Gol em uma rota na qual a TAP possui forte presença, a companhia brasileira evita tratar a nova operação apenas como uma disputa por passageiros.
Pongeluppi afirmou que a possibilidade de cooperação entre as empresas pode ser mais relevante do que uma simples comparação entre resultados individuais.
“Fazendo isso juntos, a gente faz esse mercado crescer, dá mais oportunidades para os nossos clientes em conjunto?”, questionou o executivo.
A declaração resume a estratégia que a Gol pretende levar adiante com a TAP. A companhia brasileira passa a vender voos próprios para Lisboa, mas, ao mesmo tempo, pretende ampliar o acesso à rede doméstica brasileira para passageiros da empresa portuguesa e criar novas possibilidades de venda cruzada.
A relação ganha um componente adicional com a disputa pela reprivatização da TAP. A Gol mantém uma parceria histórica com a Air France, que está entre as duas concorrentes pela participação na companhia portuguesa. Ainda assim, a empresa afirma que, especificamente neste processo, optou por reforçar os laços com a TAP.
A Air France-KLM também mantém interesse na aquisição da participação da TAP, enquanto a Lufthansa segue na disputa pela fatia da companhia portuguesa.
Para a Gol, portanto, a nova operação para Lisboa não encerra uma relação comercial com a TAP. Pelo contrário. A companhia brasileira quer utilizar a chegada à Europa para ampliar a integração entre as duas redes, enquanto acompanha o processo de reprivatização da empresa portuguesa.
A primeira etapa dessa nova fase começa nesta quarta-feira, com o voo entre Lisboa e Rio. A próxima poderá ser a ampliação do codeshare para os dois sentidos e, caso haja disponibilidade no aeroporto português, o aumento da operação até chegar a uma frequência diária.







