segundo turno
Plataforma reúne ofertas de transporte e hospedagem para brasileiros votarem no exterior (Reprodução/Redes sociais – Aprimorado com Gemni/IA)

RIO DE JANEIRO – Brasileiros que vivem no exterior e precisam percorrer centenas ou até milhares de quilômetros para chegar às urnas passaram a contar com uma plataforma criada para facilitar esse deslocamento. O Voto Lá Fora reúne ofertas de caronas e hospedagem para eleitores que precisam viajar até as cidades onde estão seus locais de votação no segundo turno das Eleições 2026.

A iniciativa foi criada de forma voluntária pelo engenheiro de computação Pedro Morel Rosa, que mora em Paris há seis anos e arca com os custos do projeto independente. Segundo ele, a ideia surgiu depois de observar as dificuldades enfrentadas por brasileiros que precisaram viajar para votar no primeiro turno. Desde o lançamento, colaboradores passaram a ajudar principalmente com revisão jurídica e divulgação do projeto que não conta com partido, campanha, candidato e nem empresa por trás.

“Vi pessoas que moram longe das cidades com local de votação comprando passagens de ida e volta para o mesmo dia, muitas vezes caras, encarando trajetos de três horas e, na chegada, filas que podiam durar de duas a três horas. Ao mesmo tempo, descobri que a abstenção dos brasileiros no exterior foi de 62,7% no primeiro turno, contra 21% no país como um todo. Foi aí que pensei que dava para ajudar a resolver pelo menos a parte prática do problema”, explica Pedro.

Voto Lá Fora conecta eleitores a caronas e hospedagem

O funcionamento da plataforma foi pensado para reduzir a quantidade de informações exigidas dos usuários, sendo necessário apenas o Whatsapp e uma mensagem curta para solicitar vaga. Quem precisa de ajuda escolhe o país e a cidade onde vota e consulta as caronas e os locais para dormir disponíveis. Quando não existe uma oferta para determinada cidade, o eleitor pode solicitar uma notificação por e-mail.

Já quem deseja ajudar precisa publicar uma oferta, informando os dados da carona ou da hospedagem. A plataforma também permite que quem oferece auxílio acompanhe os pedidos recebidos e decida se aceita ou não cada solicitação. O contato entre os usuários ocorre diretamente depois da confirmação. “O site só põe as pessoas em contato. O que é combinado acontece diretamente entre elas”, ressalta Pedro.

A proposta foi criada como uma alternativa aos grupos locais de brasileiros nas redes sociais que Pedro reconhece que “são absolutamente válidos, mas são iniciativas de cada cidade, e a intensidade varia muito de um lugar para outro.” Para ele, a força de uma plataforma é centralizar uma mesma solução que funciona em qualquer lugar: o site cobre todos os locais de votação do TSE no exterior e organiza as ofertas pelo que importa no dia, a cidade onde a pessoa vota.

“Além de ajudar, centralizar tem outro efeito: torna visível que existe, sim, uma mobilização coletiva de brasileiros no exterior para que quem quer votar consiga votar. Quando alguém entra no site e vê centenas de ofertas em dezenas de países, percebe que não está sozinho nesse esforço.”

A privacidade também aparece como uma das justificativas para o modelo. “Num grupo, o telefone de cada um fica exposto para centenas de pessoas. No site, o telefone de quem oferece nunca é pedido, e o WhatsApp de quem pede só aparece para a pessoa que confirmou a vaga”, explica.

Brasileiros percorrem centenas de quilômetros para votar

A distância entre a residência e o local de votação está entre os principais obstáculos enfrentados por brasileiros que vivem no exterior. “Para uma mãe que cria sozinha três filhos em Toulouse, a quase 600 km de Paris, por exemplo, a logística é imensa. Encontrar um lugar onde se sinta à vontade para ficar um ou dois dias antes, e ter tempo de organizar com alguém de confiança quem cuida das crianças, pode ser a diferença entre votar ou não”, conta.

Segundo ele, fora do Brasil existem apenas 164 locais de votação em 102 países e o cenário faz com que alguns eleitores precisem percorrer grandes distâncias para chegar à cidade onde estão habilitados a votar. As próprias ofertas de carona cadastradas no Voto Lá Fora ajudam a dimensionar esses deslocamentos.

Entre os trajetos mais longos estão Denver–Chicago e Denver–Houston, nos Estados Unidos, com cerca de 1.400 quilômetros em linha reta. Seattle–São Francisco supera 1.000 quilômetros, enquanto Montpellier–Paris e Toulouse–Paris chegam a quase 600 quilômetros. “Em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália, há eleitores a milhares de quilômetros do local de votação mais próximo”, aponta Pedro.

Até o momento dos dados fornecidos pelo projeto, quase 800 pessoas já haviam utilizado o site para oferecer ou pedir ajuda. Cerca de 690 ofereceram auxílio e aproximadamente 100 fizeram pedidos. Ao todo, eram mais de 700 ofertas, sendo 214 caronas, com 614 lugares nos carros, e 503 lugares para dormir.

As ofertas estavam distribuídas por 58 cidades de votação em 28 países. A plataforma também havia registrado 125 pedidos de vaga, dos quais 75 já tinham sido confirmados entre os usuários. Outras 154 pessoas haviam solicitado avisos por e-mail caso surgisse uma oferta para a cidade onde precisam votar. “A França é o país com mais ofertas e mais pedidos, seguida por Espanha, Portugal e Estados Unidos. Como os pedidos se combinam nos dias anteriores à eleição, a expectativa é que eles cresçam bastante nesta reta final”, observa.

De acordo com Pedro, quem procura ajuda está principalmente em regiões com menor concentração de brasileiros e longe das cidades com urnas. Na França, ele cita pedidos para Paris e Marselha vindos de cidades como Lyon, Toulouse, Bordeaux, Estrasburgo e Montpellier. Do outro lado, a maior parte das ofertas de hospedagem vem de brasileiros que vivem nas próprias cidades onde há votação. “São pessoas que moram nas cidades onde se vota e oferecem um sofá, um colchão ou um quarto para quem vem de longe. Só em Paris, são mais de cem lugares para dormir”, relata.

As caronas, entretanto, apresentam uma oferta menor, “porque exigem alguém saindo da mesma região, no mesmo dia e com lugar no carro”, esclarece. Paris é apontada como um dos pontos com maior dificuldade para atender à demanda. Apesar da quantidade de hospedagens, há menos opções de transporte para quem vem de outras cidades.

Plataforma estabelece regras para caronas e hospedagem

O Voto Lá Fora funciona como um mural aberto e não faz uma triagem prévia de cada usuário, em contrapartida, estabelece regras para os anúncios e mecanismos para denúncias. Conteúdos que descumprem as regras são retirados do ar e usuários que insistem nas violações podem ser banidos. A plataforma também utiliza mecanismos técnicos para limitar anúncios, pedidos e evitar ações automatizadas. “Ao publicar, a pessoa assume um compromisso explícito: não condicionar a vaga ao voto, não fazer propaganda e não pôr valores no anúncio”, informa Pedro.

Entre as medidas de proteção estão a exposição limitada de dados nos anúncios e o controle sobre a divulgação do WhatsApp. Quem oferece uma vaga também pode selecionar a opção de disponibilizá-la somente para mulheres. A plataforma é destinada a maiores de 18 anos e prevê a exclusão dos dados pessoais até 15 de novembro.

Em relação à segurança, o site não verifica identidade, carteira de motorista, seguro, veículo ou residência dos usuários. “Como o site só põe as pessoas em contato, a recomendação é conversar antes e combinar com cuidado”, alerta.

Voto Lá Fora não tem vínculo com partidos ou campanhas

A iniciativa passou por uma revisão jurídica com advogados que colaboraram voluntariamente. Entre as regras estão a proibição de conteúdo partidário, propaganda e qualquer exigência relacionada ao voto. “Não recebemos nenhuma oferta de partido ou de grupo político, e não aceitaríamos”, declara.

“A vaga nunca depende do voto. Ninguém precisa dizer em quem vota para usar o site. Os termos proíbem condicionar uma carona ou uma hospedagem a voto, partido, candidato ou posição política, e proíbem perguntar em quem a pessoa vota ou fazer propaganda no anúncio, na viagem ou na estadia.”

A plataforma também não organiza diretamente o transporte ou a hospedagem e não recebe ou repassa dinheiro. O objetivo da plataforma, para Pedro, está relacionado exclusivamente à possibilidade de facilitar a chegada dos eleitores às urnas. “O site só conecta pessoas. As caronas são só no carro do próprio motorista, entre particulares, e qualquer combinação, inclusive dividir despesas, é feita diretamente entre as pessoas”, esclarece Pedro.

O criador afirma que a experiência também mostrou uma disposição de brasileiros no exterior para ajudar outros eleitores. “Acho que quem mora fora sabe bem o que é se sentir longe e precisar de uma mão: na chegada a um país novo, numa mudança, numa dificuldade. Existe um sentimento forte de comunidade entre brasileiros no exterior, e ajudar outro brasileiro a votar é uma forma simples de devolver essa solidariedade”, avalia.

A mobilização também envolve brasileiros que não transferiram o título de eleitor para o exterior e, por isso, não votam fora do país. “Muitos gostariam de participar de alguma forma, e a plataforma dá justamente essa possibilidade: oferecendo uma carona ou um lugar para dormir, eles contribuem para que outras pessoas consigam votar no segundo turno”, acrescenta.

Pedro diz que a adesão superou sua expectativa inicial. Até o dia 25 de outubro, data do segundo turno, a meta é fazer com que as ofertas cheguem aos eleitores que precisam delas, principalmente nas cidades onde a quantidade de caronas ainda é pequena. “Se a plataforma ajudasse uma única pessoa a votar, já teria valido a pena. Ver centenas de ofertas aparecerem em poucos dias, em quase 30 países, foi muito emocionante”, conta.

“Ficaria muito feliz de ver a abstenção no exterior cair no segundo turno, mas é difícil medir o impacto real da plataforma. Muitas das pessoas que estão no site provavelmente dariam um jeito de votar de qualquer forma; a plataforma está facilitando a logística delas”, pondera.

Depois da eleição, o projeto prevê apagar os dados pessoais dos usuários até 15 de novembro. Pedro ainda não estabelece uma continuidade para a plataforma, mas afirma que a experiência pode influenciar novos projetos. “Foi o primeiro projeto que realizei na área de tecnologia cívica”, conclui.