
A Copa do Mundo acabou. Foram semanas acompanhando jogos, torcendo, comemorando, lamentando eliminações e nos surpreendendo com seleções que poucos imaginavam ver tão longe. Mas, enquanto o mundo discutia resultados, gols e favoritos, uma outra disputa acontecia paralelamente.: a disputa pela atenção.
Cada partida colocou um país diante de milhões de espectadores. E não apenas por meio de sua seleção.
As transmissões mostraram paisagens, cidades, bandeiras, músicas, costumes, gastronomia, histórias e culturas. Alguns países que, para muitos, eram praticamente desconhecidos passaram a despertar curiosidade. Outros reforçaram uma imagem já consolidada. Alguns surpreenderam pelo futebol; outros, pela paixão de sua torcida ou pela riqueza de sua identidade.
Para o turismo, talvez esse seja o maior legado de uma Copa do Mundo.
A competição dura algumas poucas semanas. Mas a oportunidade que ela cria pode durar anos, se aproveitada com estratégia e intencionalidade.
A edição de 2026 ampliou ainda mais esse potencial ao reunir, pela primeira vez, 48 seleções e 3 países sedes. Isso significou mais países em evidência, mais culturas apresentadas ao mundo e mais histórias capazes de despertar o interesse de futuros viajantes.
Afinal, quantas pessoas assistiram à Copa e, pela primeira vez, pesquisaram onde ficava Cabo Verde? Quantas passaram a olhar para Marrocos com outros olhos? Quantas descobriram destinos que jamais haviam considerado para uma próxima viagem?
No turismo, despertar a curiosidade é o primeiro passo para criar um desejo. Mas, a curiosidade, sozinha, não gera visitantes. Ela abre uma janela de oportunidade.
Uma janela para apresentar um destino, fortalecer sua imagem, contar sua história e mostrar que existe muito mais a ser vivido do que aquilo que apareceu em alguns minutos de uma partida ou de uma reportagem. E essa talvez seja uma reflexão importante para todo o setor.
Quando pensamos na Copa do Mundo, normalmente associamos seus impactos aos países-sede. E faz sentido.
Grandes eventos esportivos se consolidaram como um dos mais importantes motivadores de viagens da atualidade. Para milhões de pessoas, acompanhar uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, uma final esportiva ou um grande festival deixou de ser apenas assistir a um evento: tornou-se a oportunidade de viver uma experiência única.
Quem embarca para uma Copa dificilmente faz apenas o trajeto entre o hotel e o estádio. Aproveita para conhecer o destino, outras cidades próximas, experimentar a gastronomia local, visitar atrativos, estender a permanência, incluir novos destinos no roteiro e transformar uma viagem motivada pelo esporte em uma experiência completa de turismo.
Isso explica por que tantos países disputam o direito de sediar grandes eventos internacionais. Além da projeção global, eles movimentam hotéis, restaurantes, transportes, atrativos, comércio e toda a cadeia produtiva do turismo, gerando impactos econômicos que vão muito além dos dias de competição.
Basta observar o que acontece agora. A Copa de 2026 mal terminou e milhões de pessoas ao redor do mundo já começam a sonhar, pesquisar e fazer planos para a próxima edição.
Essa antecipação mostra que, para muitos viajantes, a Copa não é apenas um campeonato. Ela é um projeto de viagem. Uma experiência pela qual vale a pena economizar, planejar com antecedência e construir um roteiro que ficará na memória por toda a vida.
A próxima Copa do Mundo, em 2030, já nasce com essa expectativa. Portugal, Espanha e Marrocos serão os países-sede, enquanto Uruguai, Argentina e Paraguai receberão partidas comemorativas de abertura em celebração ao centenário do torneio.
Mas podemos também olhar para uma outra parte da oportunidade. O legado não vem apenas de quem viaja para acompanhar os jogos. Pode estar em quem assistiu de casa. Na pessoa que viu uma paisagem pela televisão, ouviu falar de um destino pela primeira vez, pesquisou mais sobre aquele país e, meses ou anos depois, decidiu incluí-lo em seus planos de viagem.
Esse é um efeito menos imediato, mais difícil de medir, mas potencialmente muito duradouro.
E não vale apenas para os países-sede. Pode se estender para cada seleção que participa da Copa, que também carrega consigo uma oportunidade extraordinária de se apresentar ao mundo. Sua cultura, sua identidade, sua gastronomia, suas tradições e seus atrativos passam, ainda que por alguns instantes, a ocupar um espaço privilegiado na atenção global.
A pergunta é: esses países estão preparados para transformar essa visibilidade em uma estratégia de promoção turística?
Porque aparecer não basta. É preciso embarcar nessa oportunidade com intenção, planejamento e estratégia. Aproveitar o momento em que o destino está sendo descoberto para ampliar sua presença, fortalecer sua marca e desenvolver ações coordenadas que conversem tanto com o trade turístico quanto com o potencial viajante.
Campanhas de promoção, produção de conteúdo, relacionamento com operadores e agências, parcerias com companhias aéreas, ações com influenciadores, qualificação da oferta, roteiros que valorizem a identidade local, são alguns exemplos de iniciativas capazes de transformar um momento de grande exposição em uma oportunidade concreta de geração de fluxo turístico, campanhas capazes de transformar atenção em desejo e desejo em viagem.
Em outras palavras, trata-se de potencializar um interesse que já existe. A visibilidade abre a porta. A estratégia é o que convida o viajante a entrar.
Isso exige planejamento, ações coordenadas de promoção, que deve começar antes, e envolvimento do trade.
Grandes eventos não criam destinos, mas eles criam oportunidades para que os destinos sejam descobertos. Essa talvez seja uma das grandes oportunidades do turismo contemporâneo.
Vivemos uma era em que destinos disputam atenção antes mesmo de disputarem visitantes. E toda vez que um lugar ganha projeção internacional, nasce uma oportunidade de construir uma conexão emocional com milhões de pessoas.
A Copa do Mundo é uma das grandes vitrines globais para isso, mas certamente não é a única.
O mesmo acontece quando um destino se torna cenário de um filme ou de uma série de sucesso, recebe um grande festival de música, um evento cultural, esportivo ou gastronômico, ou protagoniza um momento capaz de despertar a curiosidade do mundo. (vale leitura do Olhar Braztoa 2026 com as principais tendências de viagens. Está tudo aqui)
São oportunidades diferentes, mas com um ponto em comum: todas têm o potencial de inspirar uma futura viagem.
A diferença está na capacidade de transformar esse instante de visibilidade em um relacionamento duradouro com o viajante.
Talvez, a pergunta não seja apenas quem ganhou a Copa do Mundo, mas quem ganhou com a Copa. Quem conseguiu transformar alguns minutos de atenção diante de milhões de espectadores em anos de oportunidades para o turismo.
A Copa de 2026 terminou. Mas a próxima já começou.
Milhões de pessoas ao redor do mundo já sonham, pesquisam, economizam e começam a planejar a viagem para 2030, alguns destinos já estão no radar e ganhando visibilidade. Ao mesmo tempo, outros grandes eventos esportivos, culturais, musicais e de entretenimento já ocupam o calendário dos próximos anos, movimentando pessoas, despertando curiosidade e colocando novos destinos sob os holofotes.
A oportunidade está lançada.
A pergunta é como cada destino pretende aproveitá-la. Como cada órgão de promoção, empresa, operadora, agência e parceiro do setor vai embarcar nessa onda de interesse para transformá-la em viagens, negócios e desenvolvimento para o turismo.
A capacidade de transformar um momento de exposição em um legado para o turismo depende de planejamento, estratégia e da atuação conjunta de todo o ecossistema.
Acredito que essa seja a verdadeira disputa que a Copa nos inspira a observar. Não apenas quem levantou a taça. Mas quem conseguiu transformar alguns minutos de atenção diante de milhões de pessoas em anos de oportunidades.
Essa é uma partida que começa antes do apito inicial e continua muito depois do apito final.







