
SÃO PAULO – De São Paulo à Paraíba, passando por Minas Gerais, Bahia, Goiás e Distrito Federal, novas regiões brasileiras estão entrando no mapa da produção de vinhos e, com elas, surge também uma oportunidade para o turismo. A expansão da vitivinicultura para áreas fora dos tradicionais polos do Sul do país vem impulsionando a criação de rotas e experiências que conectam vinícolas, gastronomia, hospedagem e outros serviços locais.
Para Christian Burgos, da Inner Group, o movimento é especialmente relevante para pequenos produtores. Segundo ele, as propriedades brasileiras produtoras de vinho têm, em média, menos de três hectares e muitas são familiares, o que torna o turismo de experiência uma alternativa importante para ampliar a sustentabilidade dos negócios.
“As propriedades brasileiras produtoras de vinho têm, em média, menos de três hectares. São propriedades familiares que não têm viabilidade econômica se não incorporarem o turismo de experiências dentro dessa vivência e criarem rotas para que as pessoas possam acessar o turismo do vinho, mas também o turismo do café, o turismo dos queijos e o turismo gastronômico como um todo”, afirmou.
O potencial desse movimento foi um dos temas discutidos no 1º Fórum de Enoturismo e Gastronomia das Américas, realizado nesta quinta-feira (13), em São Paulo. O encontro reuniu representantes do setor público, iniciativa privada, produtores e agentes do turismo para discutir como transformar produtos de origem em experiências capazes de gerar novos fluxos de visitantes e desenvolvimento regional.
Para Daniel Nepomuceno, da ONU Turismo, a expansão do enoturismo já sinaliza o surgimento de novos destinos no país. “Os números foram espetaculares. A gente viu nascer um novo tipo de destinos no Brasil como um todo”, afirmou.
A realização do fórum começou a ser articulada há pouco mais de dois meses, a partir de conversas entre Nepomuceno e Burgos sobre o potencial do vinho como indutor do desenvolvimento turístico de macroregiões. Com apoio do Ministério do Turismo e da Prefeitura de São Paulo, a iniciativa busca avançar para além do debate sobre o vinho e estruturar uma agenda que também contemple produtos como café, cacau e queijos.
A proposta é conectar diferentes elos da cadeia — dos produtores aos operadores e gestores públicos — e, a partir dessa articulação, transformar experiências que já existem em produtos turísticos comercializáveis.
“A nossa ideia aqui é, pela primeira vez, conseguir conectar no Brasil a iniciativa privada, que faz as coisas acontecerem, com o poder público, que está disposto a ajudar a fazer as coisas acontecerem”, afirmou Burgos.
Nova geografia do vinho
A transformação da vitivinicultura brasileira tem relação direta com o avanço de técnicas de cultivo que permitiram levar a produção para áreas até então pouco associadas ao vinho. Entre elas está a chamada poda invertida, que alterou o calendário de produção das uvas e ampliou as possibilidades de cultivo em diferentes regiões.
“O que está acontecendo agora é que houve uma mudança na técnica de produção de vinhos no Brasil, conhecida como poda invertida. Essa técnica permitiu levar a produção de vinho para lugares que antes não imaginávamos”, explicou Burgos.
São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Goiás, Paraíba e o Distrito Federal já aparecem nesse novo cenário, ainda que em diferentes estágios de desenvolvimento. Enquanto algumas regiões começam a estruturar suas primeiras experiências, outras já avançam na criação de roteiros e na oferta de serviços voltados aos visitantes.
O Vale dos Vinhedos e a Serra Gaúcha seguem como principal referência nacional. Segundo Burgos, o roteiro, desenvolvido há cerca de duas décadas, tornou-se um modelo para outras regiões interessadas em transformar a produção vitivinícola em atração turística.
“Hoje temos um roteiro absolutamente consolidado, que é o do Vale dos Vinhedos e da Serra Gaúcha. Esse roteiro começou há cerca de 20 anos e serviu de modelo de desenvolvimento para outros destinos”, afirmou.
Entre os novos polos, Burgos cita a região da Chapada, próxima a Brasília. O destino já possui uma estrutura hoteleira capaz de receber visitantes, mas ainda precisa ampliar a oferta para acompanhar o crescimento da demanda relacionada ao enoturismo. “Vemos estágios de desenvolvimento bastante diversos, mas tudo está acontecendo de forma muito rápida”, disse.
Do vinho à economia local
Mais do que ampliar o número de visitantes nas vinícolas, a aposta é transformar a experiência em uma cadeia de consumo capaz de beneficiar diferentes negócios dos destinos.
Uma visita para degustar vinhos pode incluir hospedagem, restaurantes, transporte, comércio e outras atividades, fazendo com que parte relevante dos gastos do turista permaneça na região.
“O turismo do vinho costuma ser visto muito para dentro da vinícola, começando no vinhedo e terminando na taça. Mas ele se expande para a hospedagem, para a gastronomia local e para diversos outros serviços. O enoturismo é um grande indutor do desenvolvimento turístico regional”, destacou Burgos.
O efeito também pode se estender para depois da viagem. Ao conhecer a propriedade, o processo de produção e os rótulos, o visitante cria uma relação com o produto que pode resultar em novas compras quando retornar para casa.
Na avaliação de Burgos, essa conexão entre experiência e consumo é especialmente importante para os pequenos produtores, que passam a ter no turismo uma forma de diversificar receitas e ampliar a exposição de suas marcas.
Rotas começam a ganhar escala
O próximo passo é conectar essas experiências em roteiros capazes de integrar diferentes municípios, estados e até países. Nepomuceno citou uma iniciativa na região da Mantiqueira, envolvendo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de uma rota que parte do Sul do Brasil e avança pelo Uruguai até Buenos Aires.
Também estão no radar conexões entre destinos já consolidados, como Mendoza e Santiago, enquanto o modelo poderá ser aplicado futuramente ao turismo do café, com a participação de países como a Colômbia.
A proposta, porém, não se limita às rotas que já estão em estruturação. Nepomuceno defende que regiões produtoras localizadas em destinos turísticos também sejam incorporadas à estratégia, mesmo quando ainda não possuem uma rota formal. Ele cita como exemplos vinícolas na Chapada Diamantina, em Bananeiras, na Paraíba, e em Pedra Azul, no Espírito Santo.
A lógica é aproveitar destinos que já possuem demanda turística e acrescentar a vitivinicultura ao conjunto de experiências oferecidas. Dessa forma, a produção local passa a funcionar como um novo atrativo e pode estimular o visitante a permanecer mais tempo na região.
Brasil mira integração com mercados consolidados
A construção desse novo mapa também passa pelo intercâmbio com países que possuem maior experiência no segmento. Argentina, Chile e Uruguai são apontados como referências na estruturação de produtos e rotas de enoturismo, e a intenção é adaptar parte dessas experiências à realidade brasileira.
Burgos defende que a troca aconteça entre destinos em diferentes níveis de maturidade, permitindo que regiões mais estruturadas compartilhem soluções com aquelas que ainda estão dando os primeiros passos.
“Queremos promover uma troca de experiências entre rotas que estão mais evoluídas e outras que ainda estão em estágio embrionário. A ideia é compartilhar boas práticas, aquilo que deu certo para transformar as rotas da Argentina, do Uruguai, do Chile e também as rotas já estabelecidas no Brasil em referências que possam ser adaptadas às operações de turismo de cada região”, explicou.
Além da troca de experiências, a articulação entre países pode abrir espaço para roteiros internacionais que conectem diferentes territórios produtores e ampliem a circulação de turistas pela América do Sul.
Trade como elo entre produção e mercado
Para que essas experiências se transformem em produtos turísticos efetivamente comercializados, Nepomuceno considera fundamental a participação do trade. “O trade é fundamental porque o turismo, diferente de outras políticas, é do setor privado. E o que o trade abraça a gente consegue ter celeridade e mais garantia de sucesso”, afirmou.
A intenção é aproximar produtores, destinos, operadores e demais empresas da cadeia para identificar experiências com potencial comercial e ampliar sua divulgação. A partir do fórum, os organizadores também pretendem avançar na produção de guias e materiais de boas práticas que possam apoiar gestores e empreendedores na estruturação dos destinos.
Para Burgos, o vinho representa apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla. A mesma lógica pode ser aplicada a outros produtos de origem capazes de carregar consigo identidade, cultura e experiências. Café, cacau e queijos estão entre os produtos que podem seguir esse caminho, transformando características da produção local em novos atrativos turísticos.







