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Marco Lessa, empresário do cacau na Bahia (Divulgação)

Em um período de profundas transformações na economia brasileira e de crise na produção de cacau, o empresário baiano Marco Lessa identificou uma oportunidade para transformar a cadeia produtiva do fruto. Nascido em Guanambi, no sertão da Bahia, e criado profissionalmente em Ilhéus, no sul do estado, Lessa tornou-se um dos nomes ligados à valorização do cacau e do chocolate brasileiros.

A trajetória começou ainda na adolescência, quando teve contato com a produção cacaueira de Ilhéus. Formado na área de publicidade, Lessa teve experiências que contribuíram para aproximá-lo ainda mais do universo do cacau, entre elas uma passagem por Gramado, conhecida pela tradição na produção de chocolates, e a participação na produção da novela Renascer, da Rede Globo, em 1993, ambientada em fazendas cacaueiras da Bahia.

Do cacau ao chocolate

No final dos anos 1990, Lessa criou a MVU Empreendimentos, empresa voltada à realização de eventos e negócios. O objetivo era contribuir para a recuperação e valorização de uma cadeia produtiva que ainda enfrentava os impactos da vassoura-de-bruxa, praga que havia provocado uma forte queda na produção de cacau no sul da Bahia.

Em 2009, surgiu o Chocolat Festival, em Ilhéus. A primeira edição teve apenas 13 estandes, mas marcou o início de um projeto que cresceria nos anos seguintes.

Atualmente, o evento é apresentado como o maior festival do segmento na América Latina, com 49 edições realizadas no Brasil e no exterior, reunindo centenas de marcas e expositores, além de produtores, chocolateiros, chefs, pesquisadores e consumidores.

O trabalho de Lessa também foi reconhecido pela Revista Agroworld, que o incluiu por três vezes na lista dos 100 empresários mais influentes do agronegócio brasileiro.

Origem Week amplia atuação

A atuação do empresário foi além do chocolate. Com o Origem Week, Lessa passou a trabalhar também com produtos da agricultura familiar e com a valorização das regiões produtoras.

O projeto já realizou quatro edições na Bahia e chegou a outros mercados, como Brasília e Altamira, além de iniciativas internacionais em Portugal e na Bélgica.

“O cacau deixou de ser coadjuvante. O número de produtores de chocolate da mais alta qualidade só cresce e se fortalece no cenário mundial”, afirma Lessa.

Segundo o empresário, a proposta é utilizar os eventos para apresentar ao mercado internacional produtos brasileiros de origem e estimular novos negócios.

Internacionalização e turismo

A estratégia inclui a realização de missões internacionais voltadas à promoção do cacau e do chocolate brasileiros, com participação de produtores, fabricantes, chefs, especialistas e representantes do poder público.

Uma das iniciativas mais recentes ocorreu em Paris, durante o Salon du Chocolat 2025, quando o Brasil participou como País de Honra. Lessa liderou a delegação brasileira, formada por produtores, fabricantes e autoridades.

Segundo a organização, as tratativas comerciais realizadas durante a missão resultaram em 5 milhões de euros em potenciais negócios. Para 2026, a MVU prevê novas ações na Europa e na América.

Cacau como experiência turística

A estratégia de internacionalização também se conecta ao turismo gastronômico e de negócios. Projetos ligados à cadeia do cacau ajudam a promover destinos como a Estrada do Chocolate, na Costa do Cacau, na Bahia, e a Rota Transamazônica, no Vale do Xingu, no Pará.

Os roteiros permitem aos visitantes conhecer fazendas produtoras, acompanhar processos de cultivo e colheita e participar de experiências de degustação e produção de chocolate.

A proposta aproxima turismo, gastronomia e agricultura familiar, gerando oportunidades para comunidades que dependem da produção rural e do turismo de experiência.

Bahia ganha espaço no mercado de chocolates finos

A Bahia ocupa posição de destaque na produção brasileira de cacau e vem ampliando sua participação no beneficiamento do produto. Além da produção da amêndoa, o estado passou a desenvolver uma cadeia diversificada de derivados, como chocolate, manteiga de cacau, cacau em pó, nibs e mel, além de aplicações nos setores cosmético e farmacêutico.

O avanço do modelo bean-to-bar, que acompanha o processo do grão à barra, também impulsionou o surgimento de novas marcas de chocolate fino no estado.

Nesse cenário, eventos como o Chocolat Festival e o Origem Week passaram a funcionar como plataformas de promoção, negócios e intercâmbio, contribuindo para apresentar ao mercado nacional e internacional a produção brasileira e as iniciativas relacionadas à sustentabilidade, inovação e valorização da origem.

A trajetória de Marco Lessa está, assim, diretamente ligada à transformação da percepção sobre o cacau brasileiro: de uma commodity agrícola para um produto associado à gastronomia, à cultura, à sustentabilidade, aos negócios e ao turismo de experiência.