
Um blog produzido com uso de inteligência artificial e publicado no site da empresa Tasmania Tours recomendou a visita a fontes termais inexistentes no norte da Tasmânia, levando turistas a se deslocarem até a suposta atração, gerando impactos para moradores e negócios locais.
Capturas de tela do conteúdo, posteriormente removido, mostram recomendações às chamadas “Fontes Termais” de Weldborough, descritas como área localizada nas florestas do nordeste da Tasmânia e apontada como ponto frequentado por caminhantes. Weldborough é uma localidade rural situada a cerca de 110 quilômetros da cidade de Launceston.
O proprietário da Australian Tours and Cruises, empresa sediada em Nova Gales do Sul e responsável pela Tasmania Tours, Scott Hennessey, afirmou à Australian Broadcasting Corporation (ABC) que houve falha no uso da inteligência artificial. Segundo ele, a empresa terceirizou a produção do material de marketing e, apesar de manter revisão das publicações, o conteúdo foi divulgado enquanto ele estava fora do país.
“Estamos tentando competir com os grandes”, disse Hennessy. “Parte disso é que você precisa manter seu conteúdo atualizado e novo o tempo todo.” Após a repercussão, a Australian Tours and Cruises informou que enfrentou críticas nas redes sociais e impacto na reputação comercial. “Não somos uma fraude”, continuou ele. “Somos um casal casado tentando fazer a coisa certa pelas pessoas… Somos legítimos, somos pessoas reais, empregamos equipe de vendas.”
A atração foi uma alucinação da IA

O caso também afetou estabelecimentos locais. A proprietária do Hotel Weldborough, Kristy Probert, relatou que passou a receber questionamentos sobre as fontes termais a partir de setembro. Segundo ela, o hotel registrou cerca de cinco ligações diárias e a chegada de dois a três visitantes por dia procurando a atração. “Estamos em um local muito remoto, então foi algo muito aleatório”, afirma.
Probert afirmou que o rio Weld, situado na região, possui águas frias e costuma ser frequentado por garimpeiros em busca de safira e estanho. Ela mencionou ainda a existência de uma sauna em uma cidade próxima como alternativa para visitantes. “Acho que você poderia pular no rio gelado depois de ter ido lá.”
Probert afirmou ter conversado com os responsáveis pela empresa e destacou a dificuldade de pequenos operadores em manter conteúdo atualizado. Segundo ela, Weldborough oferece atividades aos visitantes, mas não possui fontes termais. “É difícil manter tudo atualizado e relevante como uma pequena empresa”, disse ela. “Eles parecem pessoas adoráveis, e todos nós já cometemos erros. Acho que este foi bem engraçado.” E completa que há muitas atrações em Weldborough, “só não fontes termais”.
Especialistas apontam o crescimento do uso de inteligência artificial no planejamento de viagens. A professora de turismo da Southern Cross University, Anne Hardy, afirmou que cerca de 37% dos turistas utilizam IA para obter recomendações ou montar roteiros. “Os turistas confiam mais na IA do que em sites de avaliação”, disse ela, acrescentando que operadores turísticos empregam IA não apenas para blogs e materiais de marketing, mas para roteiros e custos.
Para ela, a IA pode ser extremamente útil, economizando tempo e, por fim, dinheiro. Porém, destacou que o uso da tecnologia pode gerar imprecisões, conhecidas como “alucinações”. Hardy afirmou que pesquisas indicam a presença de erros em 90% dos roteiros produzidos por IA. “Pergunte aos concierges e seus anfitriões para avaliar se os roteiros da IA são precisos, caso você opte por usá-los”, indica.
E alertou que atrações incorretas podem representar riscos, especialmente em áreas remotas, como trilhas na Tasmânia sem serviços ou cobertura de telefonia. “Testemunhei muitos casos em que a IA fez sugestões para caminhadas diárias que são muito imprecisas, variando desde a extensão da caminhada, seu nível de dificuldade ou condições climáticas”, disse Hardy.
*Com informações de Georgina Ralphs, CNN.
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