
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu nesta terça-feira (18) as operações de voos panorâmicos de quatro empresas que atuavam no Rio de Janeiro, depois de uma sequência de acidentes com helicópteros que deixou 13 mortos na cidade somente em 2026. Entre as empresas atingidas está a Voo Rio Panorâmicos (VRP), responsável pelo helicóptero que caiu na região da Vista Chinesa, no início de agosto, matando três turistas colombianas e o piloto.
A decisão foi anunciada pelo diretor-presidente da Anac, Tiago Chagas Faierstein, ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere. Segundo a agência, nove empresas e 18 aeronaves foram fiscalizadas nesta etapa. Quatro empresas tiveram as operações suspensas e nove helicópteros foram impedidos de realizar os voos panorâmicos.
Além da VRP, estão na lista de empresas suspensas a Broad Fly, a Nobre Turismo e a Mr. Top Fly.
A fiscalização apontou problemas relacionados ao gerenciamento operacional, à manutenção das aeronaves e aos registros dos voos. A Anac também investiga a possibilidade de alterações ou omissões em diários de bordo, incluindo registros que poderiam não contabilizar integralmente o tempo de determinadas operações panorâmicas.
Fiscalização deve alcançar todas as empresas
A medida faz parte de uma fiscalização ampliada sobre o setor de voos turísticos de helicóptero no Rio. De acordo com a Anac, atualmente existem 12 empresas autorizadas para esse tipo de operação na cidade.
Nesta primeira etapa, nove foram fiscalizadas. As outras três ainda deverão passar por inspeção.
Durante o anúncio, Faierstein afirmou que o número de irregularidades encontrado é considerado preocupante pela agência e disse que novas ações de fiscalização serão realizadas até que todas as empresas sejam verificadas.
A Anac também informou que pretende ampliar as inspeções para empresas de táxi aéreo e organizações responsáveis pela manutenção das aeronaves.
O objetivo da fiscalização é verificar se os operadores estão cumprindo as exigências estabelecidas para a realização dos voos, incluindo procedimentos operacionais, manutenção e documentação.
Cinco empresas perdem acesso ao heliponto da Lagoa
Outra medida anunciada envolve o principal ponto utilizado para operações turísticas na Zona Sul do Rio.
Cinco empresas foram impedidas pela Prefeitura do Rio de utilizar o heliponto da Lagoa. A lista inclui Be Faster Serviços Aéreos, Bal Harbour Holding Patrimonial, Nobre Turismo Aéreo, Infinity Serviços Aéreos e Voo Rio Panorâmicos.
Segundo a prefeitura, essas empresas possuíam termos de compromisso que permitiam o pouso no local, mas esses documentos não significavam autorização para realizar voos panorâmicos.
Com as novas restrições, a Helisul passa a ser a única empresa autorizada a realizar voos panorâmicos a partir do heliponto da Lagoa, de acordo com as informações divulgadas pela prefeitura.
A administração municipal também alertou para a existência de operações que podem ocorrer de forma irregular a partir de outros hangares ou helipontos.
O consumidor que pretende contratar um passeio de helicóptero pode consultar se a empresa possui autorização para realizar esse tipo de atividade.
Número de helicópteros cresce 29% no Rio
A operação de voos turísticos ocorre em um cenário de expansão da aviação de helicópteros no Rio de Janeiro.
Dados da Associação Brasileira de Aviação Geral mostram que a cidade passou de 247 helicópteros em 2023 para 319 em 2026. O aumento representa 72 aeronaves em três anos, crescimento de aproximadamente 29%.
O volume de voos panorâmicos também avançou. Segundo dados apresentados pelo Ministério Público Federal, cerca de 25 mil operações desse tipo foram realizadas no Rio em 2025. A média corresponde a aproximadamente 2 mil voos por mês, ou 68 por dia.
O crescimento da atividade chamou a atenção das autoridades principalmente por causa dos acidentes registrados ao longo deste ano.
Rio registra 13 mortes em acidentes com helicópteros em 2026
O acidente da Vista Chinesa não foi o único envolvendo helicópteros no Rio em 2026. Em agosto, a queda de uma aeronave na região do Alto da Boa Vista matou quatro pessoas. A bordo estavam três turistas colombianas e o piloto.
Dois meses antes, em junho, dois helicópteros colidiram no ar na região do Recreio dos Bandeirantes. O acidente provocou a morte de seis pessoas.
Em janeiro, outro helicóptero caiu em Guaratiba, na Zona Oeste, deixando três mortos. Somados, os três acidentes resultaram em 13 mortes.
As ocorrências aumentaram a pressão sobre a fiscalização das operações aéreas na cidade, especialmente nos voos realizados próximos a áreas turísticas, praias, montanhas e pontos de grande circulação.
MPF pede corredor aéreo sobre o mar
Além da fiscalização da Anac e das medidas adotadas pela Prefeitura do Rio, o Ministério Público Federal solicitou que os voos panorâmicos realizados na cidade sejam concentrados em um corredor aéreo sobre o mar. A proposta prevê a utilização de uma rota já existente entre a Barra da Tijuca e o Arpoador.
A iniciativa busca restringir a circulação dessas aeronaves sobre áreas urbanas e regiões de grande concentração de pessoas. O pedido foi apresentado após os acidentes registrados ao longo de 2026.
Até o momento, a proposta do MPF não foi incorporada como uma nova regra geral para todos os voos panorâmicos da cidade.
Levantamento aponta voos abaixo da altitude mínima
Outro dado que entrou no radar das autoridades envolve a altitude de operação dos helicópteros.
Um levantamento da Aeronáutica utilizado em uma investigação do Ministério Público Federal identificou que 28% das aeronaves que operaram no Aeroporto de Jacarepaguá entre outubro de 2025 e abril de 2026 passaram abaixo de 500 pés, o equivalente a aproximadamente 150 metros.
Os helicópteros representaram 65% dos casos de descumprimento identificados no levantamento.
A altitude mínima de 150 metros é exigida em determinadas áreas para aeronaves que pousam ou decolam de Jacarepaguá, inclusive nos trechos em que precisam cruzar as avenidas das Américas e Abelardo Bueno.
A regra também está relacionada ao controle do ruído provocado pelas operações aéreas sobre as áreas residenciais.
Fiscalização passa a ser permanente
Com a suspensão das quatro empresas e de nove aeronaves, a Anac sinaliza uma ampliação das medidas de controle sobre os voos panorâmicos no Rio.
A agência ainda deverá fiscalizar as três empresas que não foram incluídas na primeira etapa e poderá adotar novas medidas conforme os resultados das inspeções.
O cenário também coloca sob análise o crescimento do setor na cidade. Com mais aeronaves, milhares de voos turísticos por ano e uma sequência de acidentes fatais, a atividade passou a ser acompanhada de forma mais próxima por órgãos de aviação, Prefeitura e Ministério Público Federal.
As investigações sobre os acidentes continuam separadamente, enquanto a Anac concentra parte das ações na verificação das condições das empresas, aeronaves, manutenção e documentação utilizada nas operações.
A suspensão determinada nesta semana permanece até que as empresas cumpram as exigências estabelecidas pela autoridade de aviação civil.







