
Os conflitos geopolíticos no Oriente Médio estão ampliando os desafios para a aviação comercial, com ataques a aeroportos, restrições ao espaço aéreo e mudanças nas operações de companhias internacionais. A escalada das ameaças levou empresas a suspender voos, alterar trajetos e adiar novas rotas, enquanto autoridades e especialistas discutem como proteger a infraestrutura aeroportuária diante de ataques com mísseis e drones.
Um dos episódios mais graves ocorreu na Arábia Saudita, onde ataques atribuídos aos houthis do Iêmen, grupo apoiado pelo Irã, atingiram o Aeroporto Internacional King Khalid, em Riad. Segundo as informações divulgadas no relato original, pelo menos 13 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas após um projétil atingir os terminais. Outros ataques também foram realizados com drones.
O episódio evidenciou a vulnerabilidade de instalações que concentram milhares de passageiros, funcionários e aeronaves. Para Mark Zee, fundador da OpsGroup, organização independente de segurança da aviação, o setor enfrenta uma mudança de cenário, com a aviação civil passando a ser alvo direto de ataques em conflitos contemporâneos.
Historicamente, a segurança aeroportuária concentrou esforços em impedir o acesso não autorizado a terminais e aeronaves, e não necessariamente em proteger todo o espaço aéreo ao redor dessas instalações. Jeff Price, professor da Universidade Estadual Metropolitana de Denver e consultor de gestão aeroportuária, aponta que as novas ameaças exigem uma revisão das estratégias de proteção.
A utilização de drones torna o desafio ainda mais complexo. Segundo Gulnaz Ukassova, diretora de segurança da informação e análise da International SOS, existem mecanismos de defesa contra ameaças convencionais, como mísseis, mas a proteção contra drones continua sendo um problema sem solução integral, em razão da evolução constante da tecnologia.
Ataques afetam aeroportos e novos voos na Arábia Saudita
O Aeroporto Internacional King Khalid permaneceu fechado durante boa parte da semana após os ataques, e algumas companhias aéreas suspenderam suas operações por questões de segurança. A instabilidade também afetou compromissos empresariais no país, incluindo a participação de executivos do setor de petróleo em uma conferência de energia.
A Delta Air Lines foi uma das companhias impactadas. A empresa se preparava para inaugurar uma ligação direta entre Atlanta, nos Estados Unidos, e Riad, que seria, segundo a própria companhia, a primeira rota comercial direta entre os dois países operada por uma empresa aérea americana.
A estreia, entretanto, foi adiada após a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) emitir um alerta sobre os riscos de operar voos na Arábia Saudita ou sobrevoar o espaço aéreo do país. A Delta anunciou que a inauguração da rota seria transferida para março.
O adiamento representa um obstáculo para os planos sauditas de ampliar a conectividade internacional e impulsionar o turismo. O setor é uma das prioridades do programa Visão 2030, iniciativa que busca diversificar a economia do reino, reduzir a dependência do petróleo e atrair investimentos estrangeiros.
Antes da escalada das tensões, a aviação saudita apresentava crescimento expressivo. Dados da Cirium, empresa especializada em informações sobre o setor, indicavam que a oferta de assentos em voos no país em 2026 deveria superar em mais de 23% o volume registrado em 2023, embora o ritmo de expansão tenha diminuído nos meses mais recentes.
A recuperação, porém, dependerá também da disposição de passageiros e empresas para viajar em um ambiente de maior risco. Segundo Ukassova, companhias do setor de energia podem aceitar níveis mais elevados de exposição por precisarem acompanhar projetos presencialmente, enquanto organizações acadêmicas tendem a adotar uma postura mais cautelosa.
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Desvios de rotas aumentam custos das companhias aéreas
Os efeitos dos conflitos vão além dos aeroportos diretamente atingidos. O fechamento de áreas do espaço aéreo do Oriente Médio, especialmente sobre o Irã, obriga as companhias a reorganizar trajetos para evitar regiões consideradas perigosas. A australiana Qantas, por exemplo, alterou a rota entre Perth, na Austrália, e Londres para evitar o espaço aéreo iraniano. O desvio aumentou a duração da viagem e exigiu uma parada em Singapura para reabastecimento da aeronave.
A situação se soma às mudanças adotadas desde 2022, quando a invasão russa da Ucrânia levou companhias aéreas ocidentais a evitar o espaço aéreo da Rússia em determinadas operações. Com trajetos mais longos, as empresas precisam consumir mais combustível, reorganizar escalas e administrar o impacto sobre a utilização de aeronaves e tripulações.
Os custos adicionais se tornam ainda mais relevantes em um cenário de alta nos preços dos combustíveis, pressionados pelos próprios conflitos no Oriente Médio. Dependendo da duração das restrições, as mudanças podem afetar a rentabilidade das rotas e a oferta de voos entre diferentes continentes.
Segundo dados da OAG, empresa especializada em informações sobre aviação, o tráfego aéreo de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e Doha, no Catar, começou a se recuperar em relação aos primeiros dias da guerra, iniciada em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Apesar disso, os volumes ainda permaneciam abaixo dos registrados em 2025.
Em outubro, a oferta de assentos em voos em todo o Oriente Médio ficou 5,7% abaixo da registrada no mesmo mês do ano anterior, uma redução equivalente a 2,2 milhões de assentos, segundo a OAG. Os números refletem o impacto da instabilidade sobre a capacidade das companhias aéreas de manter suas operações na região.
Companhias mantêm cautela diante da instabilidade
Mesmo com a recuperação parcial de algumas operações, empresas aéreas continuam avaliando os riscos antes de retomar voos ou ampliar a oferta de assentos no Oriente Médio. A decisão depende tanto das condições de segurança quanto da possibilidade de manter trajetos viáveis e previsíveis.
O presidente-executivo da Finnair, Turkka Kuusisto, afirmou a jornalistas em Nova York que a companhia não pretende operar voos para Dubai ou Doha enquanto o cenário permanecer instável. Segundo ele, a empresa precisa aguardar a estabilização da situação antes de reconsiderar as operações.
A postura evidencia como os conflitos podem afetar o planejamento de longo prazo da aviação comercial, desde a abertura de novas rotas até a definição de frequências e escalas. Além dos impactos imediatos sobre passageiros e aeroportos, a instabilidade regional pressiona custos, reduz a oferta de assentos e dificulta a expansão da conectividade internacional.
Para o setor, o desafio será conciliar a retomada das operações com a segurança de passageiros e tripulações. Ao mesmo tempo, a disseminação de drones e a possibilidade de ataques contra infraestruturas civis reforçam a necessidade de atualizar os mecanismos de proteção aeroportuária diante de ameaças cada vez mais complexas.







