
A carga aérea começou 2026 em ritmo forte. Dados divulgados pela IATA mostram que a demanda global cresceu 11,2% em fevereiro na comparação anual, impulsionada pelo comércio internacional aquecido e pela antecipação de embarques antes do Ano Novo Lunar.
Isso significa mais mercadorias voando pelo mundo em menos tempo, um termômetro direto da economia global. O avanço foi ainda mais intenso nas operações internacionais, com alta de 11,6%. Do outro lado, a capacidade também cresceu, mas em ritmo menor, 8,5%, indicando um mercado mais apertado e com pressão sobre preços.
O diretor-geral da entidade, Willie Walsh, resumiu o momento com um misto de otimismo e cautela. “A demanda de carga aérea cresceu 11,2% em fevereiro. Mesmo considerando o impulso do período pré-Ano Novo Lunar, o crescimento foi robusto”, afirmou. Mas ele próprio colocou o pé no freio logo em seguida.
Segundo Walsh, o início de um novo conflito no Oriente Médio no fim do mês muda o cenário. “O aumento acentuado nos custos de combustível, a escassez em algumas regiões e interrupções em hubs importantes no Golfo são mudanças significativas”, disse. A leitura é direta: o setor está forte, mas o terreno não está estável.
Comércio global e indústria sustentam alta da carga aérea
O pano de fundo ajuda a explicar esse crescimento. O comércio global de mercadorias avançou 5,2% em janeiro, criando uma base sólida para a demanda logística. Ao mesmo tempo, indicadores industriais reforçam esse movimento.
O PMI global da manufatura chegou a 53,1 em fevereiro, acima da linha de expansão. Já os pedidos de exportação subiram para 51,4, no maior nível desde 2021. Na prática, fábricas estão produzindo mais e exportando mais, e isso inevitavelmente passa pelos aviões.
Mas nem tudo joga a favor. O combustível de aviação ficou 1,2% mais caro na comparação anual, e a diferença entre o preço do petróleo Brent e o querosene de aviação segue volátil. Essa equação pesa direto no custo das operações.
Ásia lidera crescimento e América Latina fica para trás
O desempenho varia bastante dependendo do mapa. A Ásia-Pacífico segue como protagonista, com crescimento de 13,6% na demanda. A região continua surfando o volume de exportações e a força industrial.
O Oriente Médio também chamou atenção, com alta de 16,5%, mesmo diante de tensões geopolíticas. Já a África registrou o maior salto, 21%, ainda que com menor participação no mercado global.
Na outra ponta, a América Latina teve o desempenho mais fraco: apenas 0,7% de crescimento. Um número que escancara a dificuldade da região em acompanhar o ritmo global.
América do Norte (9,4%) e Europa (6,9%) ficaram no meio do caminho, com expansão consistente, mas sem grandes saltos.
Rotas comerciais mostram onde está o dinheiro
Quando o assunto são corredores logísticos, alguns fluxos deixam claro para onde o mercado está olhando. A rota África-Ásia disparou, com crescimento de 61,9%, ainda que represente uma fatia pequena do total. Já os eixos tradicionais seguem dominando: Ásia-América do Norte responde por 23,4% do mercado, enquanto Europa-Ásia tem 21,5%.
Outros destaques incluem:
- Oriente Médio–Ásia: +24%
- Europa–América do Norte: +5,7%
- Dentro da Ásia: +9,1%
O dado mais interessante aqui não é só o crescimento, mas a consistência. Algumas dessas rotas acumulam mais de dois anos seguidos de expansão, o que indica uma mudança estrutural, não apenas um pico pontual.
O que esperar da carga aérea em 2026
O começo do ano entrega um recado: a carga aérea continua sendo uma das engrenagens mais sensíveis da economia global. Cresce rápido quando o mundo acelera, mas também sente qualquer turbulência quase imediatamente.
A combinação de demanda forte, capacidade mais limitada e custos pressionados pode levar a um cenário de fretes mais caros nos próximos meses. Ao mesmo tempo, o fator geopolítico entra com força na equação. Conflitos, rotas afetadas e combustível caro têm potencial de mudar completamente o jogo ao longo do ano.
A própria IATA reforça que o setor já provou ser resiliente em outras crises. Mas, desta vez, o desafio não está só na demanda, e sim na soma de variáveis que fogem do controle da indústria. Se 2026 começou acelerado, o restante do ano ainda promete ser imprevisível.








