
O El Niño que deve ganhar força nos próximos meses não preocupa apenas quem acompanha a previsão do tempo. O fenômeno climático também pode interferir na operação da aviação, especialmente em regiões onde o aumento das tempestades ou das temperaturas alterar as condições encontradas pelas aeronaves. Entre os possíveis reflexos estão desvios de rota, espera para pouso, atrasos e cancelamentos, além de mudanças nos parâmetros de decolagem em locais submetidos a calor intenso.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), braço meteorológico da Organização das Nações Unidas (ONU), prevê que o El Niño continue se intensificando e alcance uma intensidade muito forte no fim de 2026. Os modelos indicam probabilidade próxima de 100% de permanência do fenômeno entre setembro e novembro e também entre dezembro e fevereiro de 2027.
Para quem viaja de avião, entretanto, o ponto central não está apenas na temperatura do Oceano Pacífico. O El Niño interfere na circulação da atmosfera e pode modificar os padrões de vento, chuva e tempestades em diferentes partes do planeta.
Alterações na atmosfera podem chegar às rotas dos aviões
O astrofísico e divulgador científico Sérgio Sacani, do canal Space Today, explica que uma mudança importante ocorre nos chamados jet streams, grandes corredores de vento encontrados em altitude e que influenciam a circulação atmosférica.
“Esses jet streams não estarão, digamos assim, na sua propriedade normal. Eles vão estar anômalos”, explica Sacani.
Segundo ele, alterações nesses corredores de vento podem contribuir para mudanças nas condições encontradas durante os voos.
“Qualquer anomalia que você tem, ou seja, você vai estar com esses jet streams desalinhados e você tem algo na atmosfera que está desalinhado, a gente dá um nome terrível, que é um nome que eu não gosto, que é a tal da turbulência”, afirma.
A turbulência, entretanto, não deve ser interpretada como uma consequência automática do El Niño em todos os voos. O fenômeno altera os padrões atmosféricos, mas os efeitos variam conforme a região, a intensidade das condições meteorológicas e a interação com outros sistemas.
A própria Organização Meteorológica Mundial ressalta que a intensidade do El Niño, isoladamente, não permite determinar exatamente o impacto que será registrado em uma cidade ou país. As condições dos oceanos Atlântico e Índico também podem reforçar ou enfraquecer os efeitos esperados.
Mesmo assim, a mudança no padrão das tempestades pode ter reflexos bastante concretos para quem está dentro de um avião.
Mais tempestades podem significar mais desvios
Uma das regiões que merece atenção é o Sul do Brasil. A previsão climática da OMM aponta maior probabilidade de chuva acima da média em partes do Sul e Sudeste da América do Sul durante os próximos meses.
Para a aviação, tempestades mais frequentes ou intensas representam uma necessidade maior de planejamento e acompanhamento meteorológico.
“Vai ter regiões do Brasil mais… vai ter lugar que vai ter mais tempestade”, diz Sacani.
Quando uma área de tempestade está posicionada sobre ou próxima de uma rota, o avião pode precisar alterar seu caminho para evitar o sistema meteorológico.
“Pode ter maior desvio de rota pra tentar contornar essas maiores tempestades”, explica.
Em situações de tráfego mais intenso ou condições meteorológicas adversas próximas ao aeroporto, também pode ser necessário aguardar antes do pouso.
“Pode ser que você tenha que ficar esperando, fazendo aquele circuito. Você fica esperando em cima do aeroporto pra pousar”, afirma.
O resultado para o passageiro pode aparecer no painel do aeroporto antes mesmo de qualquer problema ser percebido dentro da cabine: atraso no horário de chegada, mudança de rota ou, em situações mais severas, cancelamento.
“Então atrasos, cancelamentos, isso afeta a aviação e acaba afetando a nossa vida”, resume Sacani.
Calor intenso também interfere no desempenho do avião
O outro lado do El Niño pode ser menos perceptível para o passageiro, mas igualmente importante para a operação aérea. A previsão da OMM indica temperaturas acima da média em grande parte da América do Sul nos próximos meses, principalmente entre a linha do Equador e aproximadamente 30 graus de latitude sul.
O problema para a aviação é que o ar quente é menos denso. Isso significa que, em determinadas condições, uma aeronave pode precisar de uma distância maior de pista para realizar a decolagem e operar com parâmetros diferentes daqueles utilizados em temperaturas mais amenas.
“O ar quente, obviamente, pra quem não sabe, ele é menos denso e isso torna o ar mais fino”, explica Sacani.
Segundo ele, a temperatura influencia diretamente a relação entre a aeronave, a atmosfera e o desempenho durante a decolagem.
“Voar e decolar num ar que está mais fino é mais difícil”, afirma.
O especialista ressalta ainda que a combinação entre temperatura e densidade do ar pode interferir na sustentação e no desempenho dos motores.
“Um ar mais quente, o mesmo avião diminui um pouco a sustentação”, diz.
Em situações específicas, isso pode levar as companhias aéreas a fazer ajustes no peso da aeronave.
“Às vezes ele tem que carregar menos peso. Menos peso quer dizer o quê? Menos passageiro, ou menos bagagem dentro do avião, ou menos combustível”, explica.
Esses procedimentos dependem das características de cada aeronave, do aeroporto, da pista, da temperatura, da altitude e de uma série de outros parâmetros operacionais. Não significa que um avião será automaticamente impedido de decolar porque o dia está quente.
El Niño não significa voar com menos segurança
Apesar dos possíveis impactos na operação, a intensificação do El Niño não representa, por si só, uma redução da segurança dos voos.
Esse é um dos pontos destacados por Sacani. A aviação trabalha justamente com a previsão e o acompanhamento das condições meteorológicas para definir as operações.
“Esses fatores aí, eles não diminuem de maneira alguma a segurança operacional do voo”, afirma.
O acompanhamento começa antes da decolagem e continua durante o voo. Informações meteorológicas ajudam as equipes a identificar áreas de tempestade, mudanças nos ventos e outras condições que podem exigir alterações no planejamento.
“Muito pelo contrário, porque a gente consegue prever”, explica Sacani.
Para o passageiro, isso significa que uma mudança de rota ou um atraso pode ser justamente o resultado de uma decisão operacional tomada para evitar uma condição meteorológica adversa.
“O piloto hoje, quando ele for voar aí numa situação de um El Niño muito forte, ele já sabe aonde que estão esses problemas. Então você consegue prever essas situações antes delas acontecerem”, afirma.
O que o passageiro pode esperar nos próximos meses
A previsão da OMM aponta que o El Niño deve continuar influenciando o clima durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul. A região do Pacífico Equatorial, principal referência para acompanhar o fenômeno, já apresenta aquecimento expressivo.
Na área conhecida como Niño 3.4, a temperatura da superfície do mar passou de uma anomalia de aproximadamente 0,9°C em maio para valores entre 2,2°C e 2,6°C nas medições realizadas entre o fim de julho e meados de agosto.
Abaixo da superfície, o cenário também chama atenção. Em algumas áreas do Pacífico, a água chegou a registrar mais de 8°C acima da média durante julho e o início de agosto.
Os modelos indicam que a anomalia média da região Niño 3.4 pode chegar a aproximadamente 3,6°C entre setembro e novembro, com o pico do fenômeno previsto entre novembro e dezembro.
Para a aviação, porém, não existe uma relação simples em que determinado número de graus no Pacífico corresponda automaticamente a determinado número de atrasos ou turbulências.
O que existe é uma cadeia de efeitos atmosféricos. O aquecimento do oceano altera a circulação da atmosfera, essa circulação influencia os padrões de vento, chuva e temperatura e essas condições, dependendo da região, podem chegar à operação dos aeroportos e das aeronaves.
Por isso, nos próximos meses, quem pretende viajar de avião deve acompanhar não apenas o preço da passagem, mas também as condições meteorológicas do destino e das regiões atravessadas pela rota.







