BRAHIC nasce de olho em R$ 13,6 bilhões em investimentos na hotelaria brasileira até 2030
Arturo García Rosa, fundador, BRAHIC, fundador e presidente, SAHIC, Eduardo Cavalieri, prefeito do RJ, e Sidney Levy, presidente da Invest.Rio (Gabriel Fernandes/Divulgação)

O Brasil passará a contar, a partir de 2027, com um fórum internacional voltado exclusivamente à atração de investimentos para hotelaria, turismo e mercado imobiliário. Apresentado oficialmente no Rio de Janeiro, o BRAHIC (Brazil Hospitality, Tourism & Real Estate Investment Forum) nasce com a proposta de conectar investidores nacionais e estrangeiros a projetos brasileiros em um momento em que o setor vive uma mudança no perfil dos aportes financeiros, marcada pela entrada de grandes fundos de investimento e pela retomada do desenvolvimento hoteleiro.

A primeira edição está marcada para os dias 15 e 16 de março de 2027, no Rio de Janeiro, resultado de uma parceria entre os organizadores do evento e a Invest.Rio. Na véspera do anúncio oficial, representantes da plataforma assinaram um acordo de cooperação com a agência de promoção de investimentos da Prefeitura do Rio para consolidar a realização do encontro na capital fluminense.

Idealizador do BRAHIC e fundador do SAHIC (South American Hotel & Tourism Investment Conference), Arturo García Rosa explicou que a decisão de criar um evento dedicado exclusivamente ao Brasil surgiu após anos acompanhando o amadurecimento do mercado nacional e o interesse crescente de investidores internacionais.

“O Brasil passa por um momento muito especial. É a maior economia da América Latina, apresenta crescimento e desperta interesse de investidores em um cenário geopolítico bastante diferente daquele observado em outras regiões do mundo. Entendemos que este era o momento adequado para aproximar as oportunidades brasileiras do capital internacional”, afirmou.

Segundo ele, o BRAHIC não foi concebido apenas como um congresso anual, mas como uma plataforma permanente de relacionamento entre investidores, empreendedores e governos.

“Nosso trabalho é oferecer uma ferramenta para a indústria. O sucesso dessa ferramenta acontece quando ela gera negócios. É isso que fazemos há 20 anos com o SAHIC e queremos reproduzir agora com foco total no Brasil”, disse.

A iniciativa amplia a estratégia desenvolvida pelo SAHIC, encontro que há duas décadas reúne investidores e empresas de diversos países da América Latina. Na avaliação dos organizadores, o tamanho da economia brasileira, o potencial de crescimento do turismo e o volume de oportunidades justificam a criação de uma plataforma exclusiva para o país.

Durante a coletiva, Arturo destacou que a intenção é trabalhar ao longo de todo o ano na identificação de projetos e investidores interessados em desenvolver negócios no Brasil, ampliando o relacionamento entre empresários locais, fundos internacionais, redes hoteleiras e incorporadoras.

Grandes fundos substituem condo-hotéis e mudam a forma de investir na hotelaria brasileira

Para Diogo Canteras, sócio-diretor da HotelInvest Canteras & Associados, a criação do BRAHIC coincide com uma das maiores transformações já registradas na estrutura de financiamento da hotelaria brasileira.

Durante décadas, explicou o executivo, grande parte dos empreendimentos era viabilizada pelo modelo conhecido como condo-hotel, no qual os quartos eram vendidos individualmente para pequenos investidores. Esse formato, segundo ele, perde espaço para operações envolvendo grandes investidores institucionais.

“Durante muito tempo, a principal fonte de funding dos projetos hoteleiros foi a venda das unidades para investidores individuais. Hoje esse modelo vem dando espaço para grandes investidores comprando ativos relevantes em todo o Brasil”, afirmou.

Canteras citou como exemplos o BTG Pactual, que vem ampliando sua presença no segmento, além do GIC, fundo de investimento de Singapura, e de operações envolvendo hotéis de alto padrão no país. Para ele, essa mudança aproxima a hotelaria brasileira do perfil de investimento observado nos principais mercados internacionais.

“A BRAHIC chega justamente para fazer a ligação entre essas oportunidades existentes no Brasil e o apetite dos investidores internacionais”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o momento também é favorecido pela recuperação dos indicadores da hotelaria brasileira. Depois de um longo período de absorção da oferta existente, diversos mercados voltaram a apresentar níveis consistentes de ocupação e rentabilidade, abrindo espaço tanto para novos empreendimentos quanto para aquisições e modernização de hotéis já em operação.

“Hoje existem oportunidades para construir novos hotéis, mas também para comprar ativos existentes, investir em retrofit e destravar valor em empreendimentos que podem voltar a ser altamente rentáveis”, destacou.

Outro dado apresentado durante a coletiva reforça esse cenário. Segundo o Panorama da Hotelaria Brasileira, elaborado pela HotelInvest, o país possui 178 projetos hoteleiros mapeados até 2030, que representam mais de R$ 13 bilhões em investimentos previstos. Para Canteras, embora o número seja expressivo, ele está distribuído ao longo dos próximos anos e acompanha o crescimento esperado da demanda por hospedagem.

Nordeste lidera oportunidades e branded residences entram no radar dos investidores

Embora o BRAHIC tenha como sede o Rio de Janeiro, os organizadores deixaram claro que a proposta é reunir projetos de todas as regiões brasileiras. Durante a coletiva, o Nordeste apareceu diversas vezes como um dos mercados mais promissores para novos investimentos, impulsionado pelo crescimento da demanda turística, pela rentabilidade dos resorts e pelo surgimento de empreendimentos imobiliários ligados à hotelaria.

Ao responder uma pergunta sobre o potencial da região, Diogo Canteras afirmou que o mercado de lazer vive um momento diferente daquele observado há alguns anos. Segundo ele, a recuperação da ocupação e da rentabilidade abriu espaço para uma nova geração de projetos.

“O segmento de lazer está bastante maduro. Existem oportunidades muito fortes para novos empreendimentos, principalmente no Nordeste”, afirmou.

Como exemplo, o executivo citou o desempenho do Salinas Maragogi, em Alagoas, que opera com índices próximos de 90% de ocupação média anual, resultado que demonstra a força do turismo de lazer na região. Também mencionou projetos em desenvolvimento no litoral norte da Bahia, em Itacaré, Jericoacoara e no Polo Turístico Cabo Branco, na Paraíba, onde novos investimentos vêm sendo anunciados nos últimos anos.

“O turismo doméstico continua sendo o principal motor dos hotéis de lazer, mas o crescimento do visitante internacional fortalece ainda mais esse mercado”, explicou.

Outro segmento apontado como uma das principais apostas para os próximos anos foi o de branded residences, empreendimentos residenciais associados a marcas de hotelaria de luxo. Arturo García Rosa destacou que esse modelo cresce em diferentes mercados internacionais e começa a ganhar força também no Brasil.

Segundo ele, o consumidor deixou de buscar apenas um imóvel e passou a valorizar experiências, serviços e qualidade de vida, fatores que aproximam o mercado imobiliário da hotelaria.

“Cada vez mais o comprador procura algo diferente, uma forma distinta de viver. Essa integração entre hotéis e residências faz parte da evolução do mercado internacional e estará presente no BRAHIC”, afirmou.

Durante a coletiva, foi lembrado que São Paulo já ocupa a quarta posição mundial em projetos de branded residences, considerando empreendimentos entregues e em desenvolvimento. Rio de Janeiro, Balneário Camboriú e Goiânia também aparecem entre os mercados brasileiros que concentram investimentos nesse segmento, tendência que deverá ganhar espaço na programação do fórum.

Airbnb amplia demanda, mas concorrência segue concentrada nos hotéis econômicos

O avanço das plataformas de aluguel por temporada também foi tema da coletiva. Questionado sobre o impacto do Airbnb na hotelaria, Diogo Canteras afirmou que a plataforma não concorre de forma homogênea com todos os tipos de hospedagem.

Segundo ele, a concorrência é mais intensa entre imóveis anunciados na plataforma e hotéis econômicos ou supereconômicos, enquanto hotéis de categoria superior continuam oferecendo uma experiência diferente ao visitante.

“O Airbnb concorre principalmente com hotéis econômicos. Já hotéis de categoria média para cima oferecem outro tipo de experiência e sofrem muito menos essa concorrência”, explicou.

Ao mesmo tempo, Canteras destacou que a plataforma também teve papel importante na ampliação da demanda turística ao permitir que famílias encontrassem hospedagem com preços mais acessíveis.

“O Airbnb cria demanda. Ele trouxe para diversas cidades um turista que antes não conseguia viajar”, afirmou.

Na avaliação do executivo, o principal desafio está do lado do investidor que compra imóveis exclusivamente para locação por temporada.

“O principal cliente do Airbnb é o hóspede. Como a plataforma privilegia quem oferece o menor preço, ela acaba pressionando a rentabilidade de quem investe pensando apenas nesse modelo”, observou.

Retrofit, segurança e experiência também influenciam novos investimentos

Outro tema recorrente durante a coletiva foi o potencial de revitalização de ativos existentes. Em vez de concentrar os investimentos apenas em novos hotéis, Diogo Canteras afirmou que diversos empreendimentos tradicionais oferecem oportunidades para aquisição, retrofit e reposicionamento de mercado.

Segundo ele, bairros como Copacabana, Ipanema, Santa Teresa e outras regiões do Rio de Janeiro reúnem hotéis que podem recuperar competitividade após processos de modernização, agregando valor tanto ao investidor quanto ao destino turístico.

A discussão também abordou a influência da segurança pública sobre os investimentos. Para Canteras, a atividade turística depende de diversos fatores que vão além da infraestrutura hoteleira.

“O turismo é uma atividade transversal. O visitante avalia a cidade como um todo, desde a limpeza urbana até a segurança e a qualidade da experiência”, afirmou.

Arturo García Rosa reforçou esse entendimento ao afirmar que o turismo é construído por todos que participam da experiência do visitante.

“O turista não compra apenas uma passagem aérea ou um quarto de hotel. Ele compra uma experiência. Cada pessoa que faz parte desse destino também faz parte dessa experiência”, declarou.

Mercado em números

Os números reforçam o momento favorável do mercado brasileiro. Em 2025, o Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais, recorde histórico e alta de 37% em relação ao ano anterior, enquanto a receita gerada pelos visitantes estrangeiros alcançou US$ 7,86 bilhões.

No mercado interno, 96,7% das viagens realizadas pelos brasileiros acontecem dentro do próprio país, movimentando R$ 22,8 bilhões em gastos com viagens nacionais. Na hotelaria, o país ocupa o segundo maior pipeline da América Latina, com 133 projetos e 17.719 unidades em desenvolvimento, além de 178 novos hotéis previstos até 2030, que somam 26.302 quartos e cerca de R$ 13,6 bilhões em investimentos. Paralelamente, o mercado imobiliário de luxo também vive forte expansão, com R$ 52,2 bilhões em vendas em 2025, impulsionando segmentos como os branded residences, que aproximam hotelaria e mercado imobiliário de alto padrão.