Por Vinicius Lummertz

O Brasil se aproxima de mais uma eleição geral, presidência, governos estaduais, Congresso e assembleias, e o turismo e viagens, uma das mais evidentes plataformas de desenvolvimento do país, segue fora do centro do debate. Isso não ocorre por falta de números ou de potencial, mas por ausência de organização política e de uma pauta nacional aguda. Se quiser deixar de ser coadjuvante, a dimensão econômica do turismo e viagens precisa dar um passo decisivo: construir uma união nacional das entidades do turismo, ad hoc, que seja, em torno de uma agenda comum, objetiva, assinada e levada ao processo eleitoral nacional e em todos os estados da federação.
Não se trata de criar mais uma entidade, mas de alinhar centenas de organizações já existentes, hotelaria, aviação, eventos, parques, gastronomia, cultura, operadores, destinos, em torno de uma proposta nacional de turismo e viagens, complementada por pautas estaduais. Democracias respondem a quem se organiza. Sem escala política, não há prioridade orçamentária, não há política pública consistente, não há transformação estrutural. Isso já aprendemos.
A mudança começa pela forma de enxergar o próprio “setor”, repito, uma dimensão econômica. O mundo já não fala apenas em turismo, mas em turismo e viagens, conceito consolidado pelo World Travel & Tourism Council para refletir uma economia de visitantes, uma visitors economy, que conecta cadeias produtivas inteiras. Não é um segmento isolado, mas uma dimensão econômica que articula transporte, hospedagem, comércio, alimentação, eventos, cultura, saúde, construção e produção local. Reduzi-lo a um nicho de serviços é ignorar a economia real.
O Brasil já tem escala. São cerca de 100 milhões de viagens domésticas por ano, mais de 9 milhões de visitantes internacionais e milhões de empregos diretos e indiretos distribuídos por todas as regiões. Cada viagem ativa uma cadeia que começa na passagem aérea e se espalha por hotéis, restaurantes, transporte local, comércio e serviços diversos. Em um momento em que a tecnologia e a inteligência artificial reorganizam o mercado de trabalho, turismo e viagens se destacam como uma das poucas agendas capazes de gerar emprego de forma descentralizada e inclusiva.
Ainda assim, o país cresce abaixo do seu potencial. As projeções do World Travel & Tourism Council indicam expansão relevante do turismo brasileiro na próxima década, mas em ritmo inferior ao da média global, puxada pela Ásia. Cresceremos à metade. Não por falta de ativos, mas por ausência de estratégia global.
Os maiores vetores de crescimento do turismo mundial estão ligados à natureza e à cultura. O Brasil reúne ambos em escala única. E, paradoxalmente, não construiu uma economia robusta de parques naturais, não estruturou acessos adequados, não organizou concessões em escala e não transformou esse patrimônio em política de desenvolvimento. O potencial existe. O programa, não.
A limitação começa na conectividade. Um país continental, sem um plano nacional de conectividade aérea e sem acesso rodoviário eficiente aos seus principais destinos, restringe seu próprio crescimento. Cidades sem voos regulares tornam-se periféricas; regiões sem acesso permanecem invisíveis. Onde há acesso, há fluxo. Onde há fluxo, há renda.
O ambiente de negócios agrava o problema. Investir em turismo e viagens no Brasil envolve burocracia, insegurança jurídica e baixa coordenação institucional. Projetos como resorts, marinas e equipamentos em parques naturais enfrentam barreiras que afastam capital. O crédito é escasso e desproporcional ao potencial do setor, especialmente quando comparado a outras áreas estratégicas da economia.
Apesar disso, o turismo segue fragmentado. Cada segmento defende suas pautas específicas, raramente se constrói uma agenda nacional integrada. Episódios como o PERSE mostraram a força do setor quando atua de forma coordenada, mas também evidenciaram que essa mobilização ainda é reativa, não estruturante. Com o PERSE, o turismo pagou menos impostos e investiu muito mais.
É por isso que o momento exige mais do que diagnósticos. Exige ação. Uma união nacional do turismo e viagens precisa apresentar ao país uma pauta concreta: conectividade aérea nacional e regional, acesso rodoviário aos destinos, desenvolvimento de parques naturais, políticas de crédito e incentivos, simplificação regulatória, segurança pública e integração entre União, estados e municípios. Uma agenda que dialogue com o futuro do trabalho e com a necessidade urgente de geração de renda.
As eleições são o espaço natural para essa construção. É quando o país define prioridades e escolhe caminhos. Deixar o turismo menor nesse debate é abrir mão de uma das poucas agendas capazes de combinar crescimento econômico, inclusão social e desenvolvimento regional.
O turismo e viagens não precisa pedir espaço. Precisa se organizar para ocupá-lo. Porque, no fim, a pergunta não é o que o Brasil pode fazer pelo turismo. É o que o turismo pode fazer pelo Brasil, e quanto tempo ainda vamos perder sem transformar essa resposta em política nacional.






