Turistas são alvos de pistolas d’água em protestos contra o turismo em massa na Espanha
Manifestante com pistola de água participa de protesto contra o turismo excessivo em Barcelona, Espanha, no domingo (Pau Venteo/AP)

No último domingo (15), manifestações contra o turismo em excesso marcaram cidades do sul da Europa, incluindo Barcelona e a ilha espanhola de Mallorca, onde ativistas utilizaram pistolas d’água para “incomodar” turistas. O movimento reivindica uma revisão do modelo econômico local, apontando que a superlotação turística agrava a crise habitacional e ameaça a identidade das cidades.

Em Mallorca, cerca de 5 mil pessoas participaram da maior manifestação do dia, enquanto centenas protestaram em outras cidades espanholas, além de Veneza e Lisboa, como parte de uma ação coordenada contra o turismo massificado.

Em Barcelona, onde a população soma 1,7 milhão de habitantes, o funcionário administrativo Andreu Martinez, de 42 anos, explicou com certo humor a estratégia dos manifestantes. “As pistolas d’água servem para incomodar um pouco os turistas”, disse. Em 2024, a cidade recebeu 15,5 milhões de visitantes, atraídos por atrações como a Sagrada Família e a Rambla.

Martinez destaca que o aluguel residencial subiu mais de 30% nos últimos anos, pressionado pela expansão das locações de curta duração. Ele também observa a substituição do comércio tradicional por lojas focadas no público turístico, como redes de fast-food e lojas de souvenirs. “Nossas vidas, como moradores de longa data, estão chegando ao fim. Estamos sendo expulsos sistematicamente”, afirmou.

Durante o protesto em Barcelona, manifestantes utilizaram apitos, exibiram cartazes com frases como “Mais um turista, menos um morador” e colaram adesivos em catalão e inglês, muitos com desenhos de pistolas d’água, nas portas de hotéis. Houve momentos de tensão na entrada de um dos empreendimentos do destino, onde pistolas d’água foram disparadas contra funcionários, além de rojões e fumaça colorida. Um trabalhador reagiu cuspindo nos manifestantes antes de fechar a porta.

Entre os turistas que passaram pelo local, o casal americano Wanda e Bill Dorozenski encarou a situação com bom humor. “Foi até refrescante, considerando o calor de 28°C”, comentou Wanda, acrescentando que entende a preocupação legítima dos moradores diante das mudanças na cidade.

O ‘boom’ do Airbnb

A insatisfação com plataformas de aluguel de curta duração, como Airbnb, está no centro das manifestações. Em 2024, a Espanha recebeu 94 milhões de turistas internacionais, e o crescimento das locações temporárias tem sido associado ao agravamento da crise habitacional. Em resposta, o governo espanhol ordenou a remoção de quase 66 mil anúncios que violavam normas locais, e a prefeitura de Barcelona anunciou a eliminação das 10 mil licenças para aluguel de curta duração até 2028.

O ministro espanhol do Consumidor, Pablo Bustinduy, afirmou que o turismo não pode comprometer o direito constitucional dos cidadãos à moradia e ao bem-estar. Já a indústria de aluguel temporário afirma estar sendo usada como bode expiatório para problemas estruturais não resolvidos.