Rabdomiólise
Rachel Apa participou da Maratona de Nova York para arrecadar fundos para pesquisas sobre Parkinson (Reprodução/hollis kolmansberger/nyt)

A morte da norte-americana Rachel Apa, de 24 anos, durante a Maratona de Nova York, nos Estados Unidos, no domingo (1º), reacende o alerta sobre os riscos de atividades físicas de esforço intenso, inclusive durante viagens e experiências turísticas. A corredora participava de sua primeira prova de 42 quilômetros quando passou mal e desmaiou no Central Park, a pouco mais de um quilômetro da linha de chegada.

Segundo informações divulgadas pelo The New York Times, o pai da jovem informou que a causa da morte foi rabdomiólise, uma condição caracterizada pela destruição de fibras musculares e pela liberação de substâncias na corrente sanguínea. O episódio chama a atenção para os cuidados necessários durante maratonas, caminhadas, trilhas, passeios de bicicleta e outras atividades que exigem esforço físico prolongado.

A prática de atividades ao ar livre e de experiências que envolvem contato com a natureza faz parte da programação de muitos destinos turísticos. Trilhas em parques nacionais, escaladas, trekking, ciclismo, corridas, caminhadas em regiões montanhosas e passeios que exigem longos períodos de deslocamento estão entre as opções disponíveis para viajantes. Embora essas experiências não sejam perigosas por si só, a intensidade do exercício, o tempo de exposição ao esforço, as condições climáticas e o preparo físico precisam ser considerados antes da realização dos passeios.

A rabdomiólise pode atingir pessoas de diferentes idades e níveis de condicionamento físico, inclusive indivíduos jovens e saudáveis. O risco aumenta quando os músculos são submetidos a um esforço muito superior à capacidade do organismo, principalmente quando há exposição ao calor, desidratação ou ausência de preparação física adequada.

Como o esforço físico pode afetar turistas durante viagens

Os músculos são formados por fibras musculares, estruturas responsáveis pela contração e pelo relaxamento que permitem os movimentos do corpo. Essas células armazenam substâncias importantes para seu funcionamento, como a mioglobina, proteína que armazena oxigênio, além de potássio e creatina quinase (CK), enzima relacionada ao metabolismo muscular. Durante a prática de exercícios, pequenas lesões nas fibras musculares podem acontecer.

Em condições habituais, o organismo consegue reparar esses danos, que também fazem parte do processo de adaptação muscular. Entretanto, quando a agressão é excessiva, pode ocorrer o rompimento de um número elevado de fibras, provocando a liberação de seu conteúdo na corrente sanguínea. Esse processo caracteriza a rabdomiólise. Entre as substâncias liberadas está a mioglobina, que, em grandes quantidades, pode sobrecarregar os rins e comprometer seu funcionamento.

O quadro também pode ocorrer em consequência de acidentes, pancadas, compressão muscular, imobilização prolongada, infecções e exposição ao calor excessivo. No turismo, a atenção precisa considerar principalmente atividades que exigem esforço prolongado ou para as quais o visitante não está fisicamente preparado.

Uma trilha com muitas horas de caminhada, por exemplo, pode representar uma sobrecarga para alguém que não costuma praticar exercícios. O mesmo vale para passeios de bicicleta em percursos extensos, escaladas e atividades esportivas realizadas em destinos com temperaturas elevadas. Isso não significa que seja necessário evitar essas experiências, mas que o planejamento deve considerar as características do percurso e os limites individuais.

Quais os sintomas da rabdomiólise

Os principais sinais da rabdomiólise incluem dores musculares intensas, fraqueza, cãibras e inchaço. Outro sintoma que merece atenção é a alteração na coloração da urina, que pode ficar escura, semelhante a chá-preto ou refrigerante de cola. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), os sintomas podem aparecer horas ou até dias depois da lesão muscular. Além disso, nem todas as pessoas apresentam os mesmos sinais, e a ausência de urina escura não descarta a possibilidade da condição.

A dificuldade está no fato de que algumas manifestações podem ser confundidas com o cansaço habitual após uma atividade física, desidratação ou exaustão provocada pelo calor. Por isso, dores desproporcionais ao esforço realizado, fraqueza acentuada e inchaço muscular não devem ser considerados consequências normais de um passeio ou treinamento. O nefrologista Eduardo Freitas Hatanaka, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, explica que a gravidade depende da extensão da lesão muscular e das consequências para o organismo.

A rabdomiólise nem sempre apresenta evolução grave, mas pode provocar complicações que exigem atendimento hospitalar. Uma das principais preocupações envolve os rins, responsáveis por filtrar o sangue e eliminar resíduos pela urina. Quando há destruição intensa das fibras musculares, a quantidade de mioglobina liberada pode sobrecarregar esses órgãos e provocar lesão renal aguda, condição caracterizada pela perda repentina da capacidade de filtragem dos rins.

Outro risco está relacionado à liberação de grandes quantidades de potássio na corrente sanguínea. O desequilíbrio pode interferir na atividade elétrica do coração e provocar alterações nos batimentos cardíacos. “Nos casos mais graves, pode haver necessidade de diálise e risco de morte”, alerta Hatanaka. A possibilidade de complicações reforça a importância de reconhecer os sinais e procurar atendimento médico. A avaliação não deve ser adiada até o retorno da viagem ou o encerramento de um roteiro turístico.

Quais atividades turísticas exigem mais atenção

Atividades que demandam grande esforço muscular, principalmente quando realizadas por períodos prolongados, podem aumentar o risco de rabdomiólise. Entre elas estão maratonas, ultramaratonas, treinos de alta intensidade, musculação com cargas elevadas e exercícios funcionais com muitas repetições.

No turismo, a mesma atenção deve ser considerada em experiências que envolvem longos percursos ou esforço físico significativo, como:

  • Trekking e trilhas: caminhadas de longa duração, especialmente em terrenos acidentados, com subidas e descidas, podem exigir esforço muscular contínuo.
  • Escaladas e montanhismo: atividades que envolvem força, resistência e deslocamento em terrenos com diferentes níveis de dificuldade.
  • Ciclismo e mountain bike: percursos extensos, terrenos irregulares e subidas podem aumentar a demanda muscular.
  • Corridas e eventos esportivos: provas de rua, maratonas e competições realizadas durante viagens exigem preparação física anterior.
  • Passeios em destinos de clima quente: caminhadas, excursões e atividades ao ar livre podem representar uma sobrecarga adicional quando combinadas com temperaturas elevadas e exposição prolongada ao sol.

Segundo Hatanaka, não existe uma modalidade que seja necessariamente perigosa para todas as pessoas. O principal fator está na relação entre a intensidade e a duração do exercício e o condicionamento físico de quem participa. Um percurso que pode ser realizado sem dificuldades por uma pessoa habituada a caminhadas, por exemplo, pode representar uma sobrecarga para alguém sedentário ou sem experiência naquele tipo de atividade.

Como prevenir a rabdomiólise durante viagens

A prevenção começa antes da viagem, principalmente quando o roteiro inclui atividades que exigem resistência física. A preparação deve considerar a dificuldade dos percursos, a duração dos passeios, as condições climáticas e o condicionamento de cada participante.

O CDC recomenda aumentar gradualmente a intensidade das atividades físicas, manter uma hidratação adequada e adotar medidas para evitar o superaquecimento do organismo. A entidade também orienta a realização de pausas frequentes e a atenção aos sinais apresentados pelo corpo.

Entre os principais cuidados estão:

  • Preparação física: começar a treinar com antecedência e aumentar gradualmente a duração e a intensidade dos exercícios, especialmente antes de trilhas longas, escaladas e provas esportivas.
  • Hidratação: manter a ingestão adequada de líquidos antes, durante e depois das atividades, considerando a duração do exercício, a temperatura e as necessidades individuais.
  • Respeito aos limites físicos: não tentar acompanhar o ritmo de outros participantes quando ele ultrapassar a capacidade individual.
  • Pausas durante o percurso: programar intervalos para descanso, principalmente em atividades prolongadas e realizadas sob temperaturas elevadas.
  • Atenção ao clima: evitar, sempre que possível, os horários de maior calor e escolher períodos mais amenos para atividades ao ar livre.
  • Recuperação muscular: respeitar os intervalos entre atividades intensas e evitar retomar exercícios antes da recuperação adequada.

A orientação também vale para quem participa de excursões organizadas. Antes de contratar uma experiência, é importante verificar o nível de dificuldade, a duração estimada, as exigências físicas e a estrutura oferecida pela operadora, incluindo disponibilidade de água, pontos de descanso e suporte em situações de emergência.

Por que seguro viagem é importante em viagens de aventura?

Em viagens que incluem atividades de aventura, a contratação de um seguro viagem também deve fazer parte do planejamento. Trilhas, escaladas, trekking, ciclismo e outras experiências que exigem esforço físico podem envolver riscos de acidentes e problemas de saúde durante o percurso. Caso o viajante apresente sintomas de rabdomiólise ou outra complicação que necessite de atendimento médico, a assistência pode ser importante para orientar o acesso a hospitais, consultas e procedimentos de emergência, conforme as coberturas contratadas.

Antes de viajar, é necessário verificar se a apólice contempla especificamente atividades esportivas e de aventura previstas no roteiro, já que algumas modalidades podem ter restrições ou exigir coberturas adicionais. Também é importante conferir os limites de despesas médico-hospitalares, as condições para remoção e eventual transporte médico, além dos procedimentos para acionar a seguradora. Em destinos afastados de centros urbanos, onde o acesso a unidades de saúde pode exigir deslocamentos maiores, esses cuidados ganham ainda mais relevância.

O que fazer ao identificar os primeiros sintomas

Ao perceber dores musculares muito acima do esperado, fraqueza intensa ou inchaço durante ou depois de uma atividade, a recomendação é interromper imediatamente o exercício e procurar atendimento médico. A urina escura também deve ser considerada um sinal de alerta.

O diagnóstico é realizado principalmente por exames de sangue que verificam os níveis de creatina quinase (CK), enzima liberada quando as células musculares são danificadas. A avaliação médica também pode incluir exames para verificar a função renal e possíveis alterações nos eletrólitos.

O tratamento depende da gravidade do quadro. Em situações que exigem acompanhamento hospitalar, pode envolver hidratação intravenosa para auxiliar na circulação sanguínea dos rins e na eliminação das substâncias liberadas pelos músculos. Nos casos mais graves, pode ser necessária internação e diálise, procedimento que substitui temporariamente parte da função dos rins.

O CDC reforça que o atendimento precoce é importante para reduzir o risco de complicações. A entidade também destaca que os sintomas podem ser confundidos com desidratação e outros problemas relacionados ao calor, o que torna a avaliação profissional necessária.

*Com informações de Veja.