
Almoçar, tomar um café ou comprar um salgado antes do embarque pode pesar, e muito, no bolso de quem passa por aeroportos brasileiros. Um levantamento do Mercado & Eventos, feito entre junho e julho, mostra os valores de alguns alimentos simples que podem ser fora da realidade da maioria dos passageiros, com variações de até 66% entre os terminais analisados. Embora algumas opções escondidas prometam economia, o cenário geral é de inflação persistente, baixa concorrência e margens de lucro esticadas ao limite.
O levantamento foi realizado nos aeroportos de Congonhas (SP), Santos Dumont (RJ), Confins (MG) e Joinville (SC). Os repórteres do M&E apuraram os valores praticados em cafeterias e lanchonetes de cada terminal, observando preços de produtos comuns, como: água, pão de queijo, salgados, café, refrigerante e chocolate.
Os números da alimentação nos aeroportos
- Uma água mineral 500 ml custa até R$ 12 em Congonhas e Confins, contra R$ 10 no Santos Dumont — variação de 20%.
- Um pão de queijo sai por R$ 10 em Congonhas e Santos Dumont, e R$ 9,90 em Confins — diferença simbólica de 1%.
- Um refrigerante lata 350 ml custa R$ 19,90 em Confins, R$ 14 em Congonhas e R$ 12 no Santos Dumont — variação de até 66%.
- Um cappuccino médio custa R$ 19 no Santos Dumont e R$ 13 em Confins — diferença de 46%.
- Um café expresso custa R$ 10 no Santos Dumont, mas chega a R$ 16 em Confins — variação de 60%.
- Mini coxinhas (4 unidades) custam R$ 15 em Congonhas, e croissant de presunto e queijo chega a R$ 15 no Santos Dumont.
- Um combo com hot dog e bebida sai por até R$ 38 em Congonhas. Outros combos com tapioca chegam a custar R$ 59 no mesmo aeroporto.
Esses valores revelam um ambiente comercial fechado, com pouca concorrência e uma lógica de consumo cativo. Passageiros com pressa ou restrição de circulação têm poucas opções além das grandes redes, que dominam os espaços mais visíveis dos terminais.
Comer sem estourar o orçamento ainda é possível

Apesar da realidade generalizada de preços inflacionados, há exceções que vêm ganhando a atenção de quem prefere fugir dos padrões. Dois restaurantes localizados fora do circuito comercial tradicional se destacam: o Bom Senso, no Aeroporto de Congonhas, e o Santa Luzia, em Congonhas e Guarulhos.
O Bom Senso funciona no segundo andar do saguão principal de Congonhas, escondido nos fundos de outro restaurante mais sofisticado. Frequentado por funcionários do aeroporto, o local serve comida por quilo a R$ 79,90, com pratos variados e sobremesas. É simples, mas entrega qualidade por um preço justo, ainda mais se comparado ao restaurante vizinho, que cobra R$ 129 no buffet.
O Santa Luzia, em Guarulhos, é uma opção mais discreta, quase secreta. Localizado nas docas do Terminal 2, o restaurante atende público geral, embora tenha sido criado para funcionários. Lá, uma marmitex custa R$ 28 e o café da manhã completo sai por R$ 31, menos da metade do preço cobrado na praça de alimentação do mesmo terminal. O acesso é menos intuitivo, mas os vídeos nas redes sociais explicando o “caminho escondido” viralizaram e transformaram o lugar em ponto de peregrinação dos viajantes econômicos.
Cenário econômico pressiona preços e amplia desigualdade
A escalada dos preços de alimentos em aeroportos não acontece no vácuo. O Brasil vive, em julho de 2025, um ambiente de inflação acumulada de alimentos de 7,33% nos últimos 12 meses, enquanto o índice geral (IPCA) está em 5,32%, segundo dados do IBGE. Os juros reais permanecem elevados e, embora o PIB tenha crescido 1,4% no primeiro trimestre, o poder de compra segue apertado para a maior parte da população.
Nesse contexto, o aeroporto (historicamente associado a luxo e conveniência) se torna símbolo de uma desigualdade crescente. A pouca concorrência nos espaços comerciais e os altos custos operacionais são frequentemente usados como justificativa pelas concessionárias. Mas os dados levantados revelam que a variação entre terminais similares é ampla e pouco justificada, sugerindo margem artificial de precificação.
Entre os itens com maior variação, o refrigerante em lata é o campeão: sai por R$ 12 no Santos Dumont e chega a R$ 19,90 em Confins, uma diferença de 66%. O cappuccino custa R$ 13 em Confins e R$ 19 no Santos Dumont, uma variação de 46%. Já o café expresso varia de R$ 10 a R$ 16, dependendo do terminal. São variações que, embora em valores absolutos pareçam pequenas, representam aumento significativo para itens de consumo rápido e recorrente.
Projeto de lei tenta coibir abusos e criar parâmetro
Para enfrentar o problema, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 3.102/2015, de autoria do deputado Luis Tibé (Avante-MG). A proposta altera o Código Brasileiro de Aeronáutica e obriga os aeroportos a coibir preços abusivos, especialmente os “significativamente superiores aos praticados em áreas próximas”.
“A medida visa proteger os consumidores de preços injustos, garantindo maior equidade nos preços cobrados”, afirma o texto de justificativa.
O projeto teve parecer apresentado em março de 2025 pelo relator Fausto Pinato (PP-SP) na Comissão de Constituição e Justiça. Um substitutivo foi protocolado para adaptar o texto à legislação atual, já que o artigo original foi revogado em 2022. A proposta está pronta para pauta na CCJC, mas ainda aguarda votação no plenário.
Enquanto isso, passageiros continuam fazendo contas, e, cada vez mais, buscando alternativas escondidas para escapar dos preços salgados nos terminais.







