
A partir de janeiro de 2027, companhias aéreas brasileiras serão obrigadas a misturar combustível sustentável de aviação (SAF) ao querosene fóssil nos voos domésticos, mas ainda não sabem como atender à exigência. A informação foi destacada por Raquel Argentino, líder de Sustentabilidade da Latam, durante o evento “Energia em Transição”, realizado em 14 de outubro.
Segundo Argentino, produtores de SAF questionam as empresas sobre garantias de compra, enquanto as companhias aéreas pedem detalhes sobre volumes, tipos e preços. “Parece um baile de adolescentes. Ninguém tira ninguém para dançar”, disse a executiva.
A lei brasileira prevê que a mistura inicial reduza em 1% as emissões dos voos domésticos, considerando o ciclo completo de produção do SAF, diferente da metodologia usada para etanol e biodiesel. Cada rota tecnológica e matéria-prima gera impactos distintos, o que afeta diretamente o volume necessário para cumprir a meta.
Marcelo Bernardes, superintendente de governança e meio ambiente da ANAC, afirmou que a agência é “agnóstica em tecnologias e matérias-primas” e que só importa a eficiência. No entanto, o mercado enfrenta oferta limitada e entraves geopolíticos, além de restrições internacionais sobre certas matérias-primas, como o milho.
Outro desafio é a certificação do SAF no Brasil, ainda incompatível com padrões internacionais. Bernardes alerta que aceitar premissas estrangeiras pode prejudicar a posição brasileira em negociações globais. Argentino prevê um “choque regulatório” se houver divergência entre SAF doméstico e internacional, com risco de custos mais altos e passagens mais caras.
O preço do SAF hoje é de três a cinco vezes o valor do querosene, representando 40% do custo das companhias. Sem escala internacional e condições para desenvolver a produção local, o Brasil pode se limitar a exportar matérias-primas, aumentando a dependência de importações e comprometendo a acessibilidade aérea.
Projetos como o da Acelen, que pretende produzir SAF a partir da palmeira macaúba, mostram potencial para reduzir emissões e desenvolver a cadeia interna. No entanto, especialistas alertam que avanços dependerão de incentivos fiscais, harmonização de certificações e expansão da oferta para viabilizar a transição energética no setor aéreo.







