Cruzeiro
Passageiros que compraram cabines para morar no navio tiveram poucas horas para desembarcar no Camboja (Villa Vie Residences/Reprodução)

Cerca de 200 passageiros que pagaram para morar em um navio de cruzeiro durante uma viagem pelo mundo tiveram de desembarcar no Camboja após a suspensão das operações da empresa responsável pela embarcação. A Villa Vie Residences atribuiu a decisão ao aumento dos custos de combustível desde o início da guerra no Irã e informou que busca alternativas para manter o negócio.

O desembarque ocorreu no porto de Sihanoukville, no golfo da Tailândia. Segundo Long Dimanche, vice-governador da província de Preah Sihanouk, 203 passageiros e 156 tripulantes chegaram ao local em 23 de outubro, vindos da Tailândia. O navio deveria seguir para o Vietnã, mas os passageiros receberam cerca de sete horas para deixar a embarcação.

A ordem deixou pessoas que utilizavam o navio como residência sem moradia a bordo, longe de seus países de origem. Parte dos passageiros conseguiu embarcar em voos para outros destinos, enquanto outros permaneceram na cidade cambojana.

A Villa Vie afirmou que está trabalhando para organizar o desembarque e identificar opções temporárias de hospedagem. A empresa também informou que pretende buscar uma reestruturação financeira e novos recursos nos próximos 60 dias, mas ressaltou que não há garantia de que o processo terá sucesso.

Combustível pressiona operação

Em comunicado, a operadora afirmou que adotou medidas para reduzir o consumo de combustível desde o início do conflito no Oriente Médio, no fim de fevereiro. Entre as ações estavam a redução da velocidade do navio e a permanência por períodos maiores nos portos.

“Essas medidas não foram suficientes para compensar o aumento extraordinário dos custos de combustível, e não conseguimos continuar a suportar as perdas operacionais resultantes”, informou a empresa.

Segundo a Villa Vie, as despesas mensais com combustível por cabine passaram de uma média histórica de US$ 1.800 para uma estimativa entre US$ 6 mil e US$ 8 mil em algumas regiões da Ásia.

“A empresa não pode simplesmente transferir aumentos dessa dimensão para os residentes, e o déficit resultante colocou o atual modelo de operação sob pressão financeira insustentável”, acrescentou a companhia.

A empresa afirmou que pretende apoiar passageiros, tripulantes e funcionários durante o processo de reestruturação. A suspensão, porém, deixou incerto o futuro da viagem e dos contratos firmados com os residentes.

Navio oferecia moradia permanente

O Odyssey partiu de Belfast, na Irlanda do Norte, em outubro de 2024, para uma viagem contínua pelo mundo. O projeto previa uma jornada de três anos e meio, com escalas em diferentes países e a possibilidade de comprar ou alugar cabines para períodos de férias ou moradia permanente.

A embarcação tem capacidade para aproximadamente 650 residentes. Os preços anunciados para a compra de uma suíte com direito de ocupação durante o restante da vida útil do navio começavam em cerca de US$ 230 mil, segundo as informações divulgadas pela operadora.

Alguns passageiros venderam seus bens para financiar a mudança para o navio, transformando a viagem em sua principal residência. O modelo combinava deslocamentos internacionais com a permanência prolongada a bordo.

Construído em 1993, o Odyssey passou por diferentes operadores antes de ser comprado pela Villa Vie Residences, em 2023. O navio também ficou parado durante a pandemia de Covid-19, a partir de 2020, antes de ser preparado para o projeto residencial.

Passageiros relatam sequência de problemas

Randy Cassingham, passageiro do Odyssey e responsável pelo blog ResidentialCruising.com, descreveu a suspensão como resultado de uma “cascata de problemas”.

Em declarações à agência AFP, Cassingham afirmou que o navio não era uma embarcação de luxo, mas uma alternativa de moradia que parecia acessível até a empresa começar a pedir dinheiro adicional.

O passageiro também criticou a assistência oferecida aos residentes após a ordem de desembarque. A Villa Vie, por sua vez, declarou que está coordenando soluções temporárias para as pessoas afetadas.

A empresa não garantiu quando a viagem poderá ser retomada. O plano de reestruturação anunciado tem prazo de 60 dias, período em que a operadora pretende buscar recursos e avaliar alternativas para o funcionamento do negócio.

Camboja já recebeu outro cruzeiro em crise

O porto de Sihanoukville já havia recebido uma embarcação envolvida em uma crise internacional. Em fevereiro de 2020, o navio MS Westerdam foi autorizado a atracar no Camboja após ter sido recusado por outros cinco portos em meio às preocupações com a Covid-19.

Na ocasião, a embarcação transportava 1.455 passageiros. O então primeiro-ministro cambojano, Hun Sen, autorizou o desembarque por razões humanitárias, e o país organizou o retorno dos viajantes por via aérea.

No caso do Odyssey, a suspensão das operações está ligada à situação financeira da empresa e à alta dos custos de combustível. O destino dos passageiros e a continuidade do projeto residencial dependem agora das medidas que a Villa Vie Residences conseguir implementar.

*Com informações de euronews