
MADRI – No terceiro dia da Fitur 2026, em Madri, a conversa entre o M&E com Marcelo Freixo têm um peso diferente. Não é apenas mais uma entrevista de balanço de resultados. É, simbolicamente, uma despedida. Pelo menos para mim, que já tive a honra e o prazer de entrevistar Marcelo inúmeras vezes nestes últimos três anos. Me lembrou perfeitamente da nossa primeira entrevistas juntos. Muita coisa mudou de lá para cá, mas desde o primeiro momento já sabia: Freixo irá mudar o cenário do Turismo no país.
No dia 31 de março, Marcelo deixa a presidência da Embratur para disputar uma vaga como deputado federal pelo Rio de Janeiro, encerrando um ciclo de três anos que transformou a imagem do nosso país no turismo internacional. O tom foi inevitavelmente nostálgico, mas também celebrativo, de quem olha para trás com orgulho e para frente com a certeza de que a pauta do turismo passou a ser parte definitiva de sua vida pública.
“Hoje eu sou uma pessoa convencida, ativa e militante da ideia de que turismo é economia. Turismo não é entretenimento, não é supérfluo. Turismo é geração de emprego, renda e desenvolvimento sustentável”, afirmou, em uma das frases mais fortes da entrevista.
Freixo deixou claro que chega ao fim da gestão diferente de como começou, em 2023. Naquele momento, ele próprio admite que ainda estava “entendendo o que era turismo”. Hoje, sai como um defensor convicto do setor como um dos motores do século XXI.
“Se eu pudesse falar com o Marcelo que chegou na Embratur, diria: estude, confie na equipe técnica e entenda que o turismo é um projeto econômico de país”, resumiu. Freixo agradeceu ainda um nome muito válido de ser relembrado como um dos seus principais ‘professores’ do Turismo: o saudoso Eduardo Sanovicz. “Eduardo foi um grande professor quando cheguei. Devo muito a ele e sei que onde ele estiver, ele está feliz com os resultados que conquistamos”. Resultados esses, que são muitos…
Um Brasil que cresce 10 vezes mais que o mundo
O dado que simboliza sua gestão é impressionante: o Brasil cresceu dez vezes mais que a média mundial em turismo. Enquanto Europa avançou cerca de 4%, África 8% e os Estados Unidos registraram queda, o desempenho brasileiro chamou a atenção global. Além disso, batemos o recorde de mais de 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025 – algo que 3 anos atrás parecia tão tão distante.
Para Freixo, isso não foi obra do acaso. Ele aponta três pilares principais:
1. Promoção profissional e inteligente
“O Brasil passou a se promover com estratégia. Hoje sabemos de que país vem o turista, qual Brasil ele quer ver, em que época compra, qual feira é mais estratégica”, explicou. Segundo ele, a diversidade brasileira é quase imbatível. “Tirando neve, o Brasil entrega tudo. Natureza, cultura, aventura, praias urbanas e isoladas, Amazônia, Pantanal, serra, chapada. Poucos países no mundo conseguem atender tantas demandas”.
Esse trabalho se materializou em um plano de marketing internacional enraizado nos estados.
“Já apresentamos o Plano Brasis para quase 20 estados, com estratégias específicas. Isso nunca tinha sido feito antes”.
2. Retomada diplomática do Brasil
“O Brasil voltou a ser respeitado no mundo. Voltou a ter papel diplomático. Um país ouvido internacionalmente é um país mais visitado”, disse Freixo. “Ninguém quer visitar um lugar que não respeita ou em que não confia”, afirmou.
3. Fortalecimento da malha aérea
A conectividade cresceu cerca de 16% em 2025, acima da média mundial. Mas ele reconhece que esse foi um dos maiores desafios da gestão. “Eu não imaginava o quanto a questão aérea era complexa. Envolve combustível, aeronaves, decisões globais. Não é simplesmente querer ter mais voos”.
O audiovisual como vitrine do Brasil
Um dos legados mais simbólicos da gestão foi a aproximação com o audiovisual. Muito antes das indicações recentes ao Oscar, Freixo já defendia que cinema e séries eram ferramentas poderosíssimas de promoção turística.
“44% dos norte-americanos viajam para destinos que viram em filmes ou séries. Na Ásia, é um em cada quatro. Isso não é detalhe, é estratégia de país”, afirmou.
Para ele, o audiovisual não precisa ser um ‘filme turístico’. “Basta remeter ao Brasil. Mostrar nossa cultura, nossa paisagem, nossa vibe. A cultura é o nosso maior diferencial”.
E completou: “Praia bonita o mundo inteiro tem. Natureza bonita o mundo inteiro tem. Mas Amazônia não tem. Pantanal não tem. E a nossa cultura, que está no povo, na música, na dança, no cinema, é única.”
Foi nesse ponto que ele voltou ao conceito que se tornou marca da sua gestão. “O Brasil tem um molho. Tem uma vibe. Tem alegria. Isso é produto turístico, e é um produto que o mundo quer consumir”, reforçou.
A maior conquista e os maiores desafios
Ao ser perguntado sobre a maior conquista, Freixo foi direto:
“São os números. O Brasil nunca bateu esses recordes. Agora, que lutem para bater de novo”, disse, rindo. E quem vem por aí, com certeza terá muitos números a bater e um trabalho de continuidade a ser feito.
Mas Marcelo fez questão de destacar outro ponto essencial. “Tem uma equipe funcionando. Isso é talvez tão importante quanto os números. Montar equipe em Brasília, fazer máquina pública funcionar, não é simples”. O Presidente se orgulha de ter montado um time técnico e engajado na Embratur – e compartilha muito do sucesso ao esforço conjunto da equipe.
Já os desafios foram claros:
• A complexidade da aviação internacional
• A dificuldade de fazer o Congresso e a política entenderem o turismo como economia
“A política ainda olha para o turismo como algo secundário, como lazer. Mas turismo é sobre quem recebe, não sobre quem viaja. É emprego, renda e desenvolvimento local”, reforçou.
A despedida: gratidão e legado
O momento mais emocionante da entrevista veio quando falamos de sua despedida da Embratur. Como recado para os leitores do M&E, Marcelo disse:
“Meu sentimento é de profundo agradecimento à equipe, que acreditou, teve paciência e construiu tudo isso junto comigo”.
E ao trade, que no início o recebeu com desconfiança, e hoje o tem como grande personalidade do setor. “Eles tinham razão de desconfiar. Eu era uma indicação política. Mas o trade teve grandeza: ouviu, se abriu, não bloqueou. Hoje, o reconhecimento é muito grande, e eu sou profundamente grato”.
Freixo reconhece que ganhou o coração do setor justamente por uma gestão marcada por técnica e resultados, não por polêmicas.
O próximo capítulo: Congresso Nacional
Sobre o futuro, ele é objetivo. “Sou candidato a deputado federal para ajudar o presidente Lula no Congresso. Eleger um Congresso melhor é um desafio da democracia brasileira”.
E deixa claro seu compromisso. “Vou entregar a Embratur até o fim de março com a melhor transição possível, com o melhor resultado possível. Depois disso, meu foco é o Rio de Janeiro e o Congresso”. E por falar em transição, Freixo gostaria de deixar a cadeira para alguém já familiarizada com o trabalho realizado nos últimos anos.
Quanto a um eventual convite para ministério do Turismo, respondeu com serenidade:
“Agora o debate é outro. Aquilo que o presidente Lula determinar, eu farei. Seja no Congresso, seja em qualquer missão que ele considere necessária”.
Um legado que permanece
Marcelo Freixo sai da Embratur deixando mais do que números recordes. Deixa uma mudança de mentalidade: a de que turismo é política pública estratégica, é economia, é imagem internacional, é cultura, é diplomacia, é desenvolvimento sustentável.
“A pauta do turismo nunca mais sairá da minha vida”, afirmou, quase como um juramento.
E talvez essa seja a maior herança de sua gestão: mostrar que o turismo não é um apêndice da política, mas um dos seus pilares mais poderosos.
O M&E viaja com apoio da Shift Mobilidade Corporativa e proteção GTA







