Mulheres
Campanha “Assédio não Decola”, lançada em aeroportos do Brasil, entra na sua segunda fase (Jonilton Lima/Mpor)

A presença feminina em setores historicamente dominados por homens começa a ganhar um novo capítulo no Brasil. O Ministério de Portos e Aeroportos vem intensificando ações que misturam reconhecimento de boas práticas e campanhas de conscientização para enfrentar desigualdades e violência contra mulheres em ambientes logísticos e de transporte.

A estratégia tem dois caminhos bem definidos. De um lado, incentivar empresas e autoridades portuárias a adotarem políticas mais inclusivas. Do outro, usar a visibilidade dos aeroportos para falar diretamente com milhões de passageiros que circulam todos os dias pelo país. O resultado começa a aparecer, ainda que de forma gradual.

Portos apostam em liderança feminina e metas concretas

Nos complexos portuários, a mudança passa por dentro das empresas. Um dos exemplos vem de Santos, onde um programa voltado à formação de lideranças abriu dezenas de vagas exclusivas para mulheres e reforçou políticas internas contra assédio e discriminação.

Em Santa Catarina, o Porto de Itapoá decidiu ir além do ambiente corporativo. Durante o Agosto Lilás, promoveu ações de conscientização sobre violência doméstica, levando informação para trabalhadores e comunidades do entorno.

A pressão por resultados também chegou na forma de metas. Empresas do setor logístico passaram a estabelecer percentuais mínimos de mulheres em cargos de liderança e indicadores de igualdade salarial, algo que antes raramente era monitorado de forma transparente.

No Ceará, o complexo do Pecém conquistou reconhecimento por políticas de equidade de gênero e criou mecanismos internos para acompanhar a paridade salarial. Já no Nordeste, o Porto de Suape organizou campanhas ao longo do ano com foco em diversidade, seguindo datas simbólicas do calendário nacional.

Outras companhias também entraram nesse movimento, com programas de inclusão, transparência salarial e políticas mais rígidas de apuração de denúncias.

Aeroportos viram palco de campanha contra violência

Se nos portos a mudança acontece mais nos bastidores, nos aeroportos ela ganha visibilidade. A nova fase da campanha “Assédio não decola, feminicídio também não” aposta justamente nisso: usar o fluxo intenso de passageiros para espalhar informação.

A ação inclui vídeos educativos, avisos em áreas de circulação e divulgação de canais de denúncia, como o Ligue 180. A ideia é simples, mas direta. Fazer com que o tema deixe de ser ignorado em espaços públicos e passe a ser reconhecido como um problema coletivo.

A campanha foi relançada em São Paulo e deve alcançar terminais em todo o país, ampliando o alcance da mensagem.

Mudança cultural ainda está em construção

Apesar dos avanços, o cenário ainda exige atenção. A presença feminina em cargos de liderança segue abaixo do ideal em muitos casos, e a cultura organizacional de setores tradicionais não muda de um dia para o outro.

Por isso, o foco em campanhas educativas caminha junto com políticas internas. Não basta apenas criar vagas ou metas, é preciso garantir um ambiente seguro para que essas mulheres permaneçam e cresçam dentro das empresas.

A secretária-executiva adjunta do ministério resume esse desafio ao destacar que é necessário ampliar o acesso das mulheres a espaços de decisão e garantir que suas vozes sejam ouvidas. Segundo ela, esse movimento impacta diretamente a forma como a sociedade enxerga o papel feminino.

Mais que infraestrutura, uma mudança de mentalidade

As ações mostram que modernizar portos e aeroportos não passa só por obras ou concessões. Existe uma transformação silenciosa acontecendo, que envolve cultura, comportamento e responsabilidade social.

Ao colocar o combate à violência e a promoção da igualdade no centro da agenda, o setor dá um passo importante para se tornar mais representativo e seguro.