
O turismo de experiência deixou de ser tendência para se tornar o eixo central da nova economia do setor. Em 2025, o segmento movimentou US$ 271 bilhões globalmente, com crescimento anual composto de 8% entre 2023 e 2029, o dobro da taxa do turismo em geral, que avança 5% ao ano, segundo relatório global The Outlook for Travel Experiences 2019–2029. No Brasil, o número de reservas de experiências turísticas cresceu 8,9% em 2025 em relação a 2024, com o faturamento do segmento avançando 29,2% no mesmo período, de acordo com levantamento do Paytour. O viajante moderno não busca apenas destinos. Ele compra histórias, conexões e memórias e está disposto a pagar por isso.
Em paralelo, 2026 é o Ano da Cultura Brasil-China, iniciativa coordenada pela Casa Civil, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores que reforça os laços bilaterais entre os dois países. Não é coincidência que o interesse de brasileiros pela China tenha registrado alta de até 200% em 2025, com buscas por voos para Hong Kong subindo 205%, para Pequim 188% e para Xangai 121%, segundo levantamento do Kayak. Na Decolar, a procura por passagens Brasil-China cresceu 85% no segundo semestre de 2025. A Booking.com registrou alta de 229% nas pesquisas de hospedagem feitas por brasileiros para o país.
A base de viajantes ainda é pequena: cerca de 12 mil brasileiros foram à China em 2024, número inferior ao registrado antes da pandemia, de pouco mais de 20 mil em 2019. Mas a projeção é que esse volume dobre até 2027, segundo dados oficiais citados pela agência Mundo Ásia Tours. Um fator que acelerou o interesse: desde junho de 2025, brasileiros estão isentos de visto para estadias de até 30 dias na China com fins turísticos. A medida estava prevista para vigorar até maio de 2026, mas pode ser prorrogada. Vale conferir com agências especializadas antes de comprar a passagem!
Dentro desse cenário, um tipo específico de experiência tem chamado atenção em vídeos nas redes sociais, especialmente os da brasileira e criadora de conteúdo Letícia de Lima Pavim, 25. A vivência em questão são os acampamentos de kung fu no Distrito de Shaolin, em Dengfeng, na província de Henan, o berço das artes marciais chinesas. É lá que fica o Templo Shaolin, o mais famoso do mundo, e onde funcionam dezenas de escolas que recebem estrangeiros ao longo do ano. Letícia foi uma das Laowai 老外 (gringas) que fez essa tour em abril de 2026, após seis meses de preparação física intensa.
O acampamento Shaolin Kung Fu Master Camp (Shi Miao Hai)
O acampamento que Letícia frequentou é operado pelo Mestre Shi Miao Hai, sob a escola Zhang Qian Kung Fu School, e fica no Distrito de Dengfeng, região de Shaolin, na província de Henan. O modelo é totalmente imersivo: três treinos diários, três refeições por dia e acomodação incluídos no pacote, de segunda a sábado, com tarde de quarta e tarde de sábado livres. O domingo é o único dia completamente livre.
A grade de treinos, de acordo com a brochura oficial do campo, é a seguinte:
- Treino 1 das 6h às 7h;
- Treino 2 das 9h às 11h;
- Treino 3 das 14h30 às 17h
Já pela rotina relatada por Letícia, sabemos alguns detalhes mais específicos:
- O check-in na fila começa às 6h, com corridas ao redor do campo (cerca de 1,5 km em cinco voltas);
- Seguido por uma série de exercícios antes do café da manhã, servido às 7h;
- O almoço é às 11h e o jantar às 17h.
- Às 21h40, todos se reúnem em fila para encerrar o dia.
Os treinos abrangem diferentes disciplinas, como:
- Kung fu tradicional de mãos livres (barehanded taolu)
- Formas com armas (weapon taolu)
- Sanda (combate)
- Boxe
- Shaolin ginna (técnicas de imobilização)
- Qigong
- Meditação
- Taiji quan
- Técnicas de defesa pessoal
Alimentação é simples e repetida: No café da manhã, uma sopa com brotos, ovo e pão; No almoço e jantar, arroz, frango, tofu, acelga e outros vegetais. É funcional, saborosa, mas não é gastronômica.
Hospedagem padrão é em dormitório compartilhado com beliches, colchão estilo chinês, travesseiro e cobertor, com quartos separados para mulheres. Há ar-condicionado reversível, banheiro, chuveiro e pia. Para quem prefere mais privacidade, é possível pagar um valor adicional e ficar em quarto duplo no hotel do próprio acampamento, com camas melhores.
Além disso, o viajante ainda recebe:
- Certificado de participação
- Uniforme, tênis e tigela de alimentação ao chegar;
- Lavanderia ilimitada
- Lanchonete
- Wi-Fi e conexão a cabo
- Área de coworking/leitura.
- Ambiente isolado, voltado à concentração e prática
Preparo físico: Durante os dias completos, há sessões de exercícios físicos, corrida, técnicas de luta e prática repetitiva de movimentos. Cada dia pode somar cerca de seis horas de treinamento. A exigência física é alta, e relatos indicam que parte dos participantes precisa recorrer a tratamentos como acupuntura devido a dores ou lesões. Há também casos de desistência antes do término do programa. Por isso, é recomendado, pela própria Letícia em suas redes sociais, um preparo físico cuidadoso antes de embarcar nessa aventura.
Sobre a documentação: Para estadias de até 14 noites, brasileiros estão isentos de visto. Para permanências acima de 30 dias, é necessário o visto X2 (máximo de 180 dias). Nesse caso, o acampamento de Kung Fu emite uma Carta de Convite e Certificado de Acomodação. É possível entrar e sair do campus em qualquer data, não há datas fixas de início ou término.
Perfil do viajante: Os acampamentos de Kung Fu recebem estudantes de diferentes países, criando um ambiente multicultural. A faixa etária predominante varia entre 24 e 60 anos, mas alguns programas aceitam participantes a partir de 16 anos.
A comunicação é um ponto de atenção: Muitos instrutores de Kung Fu não falam inglês fluentemente, e o uso de aplicativos de tradução é comum no dia a dia. Entre os alunos, o inglês costuma ser o idioma principal de interação. Para brasileiros, a recomendação é ter conhecimento básico de inglês ou mandarim para facilitar a adaptação e poder engajar com os outros estrangeiros que participam da aventura.
Quanto custa o acampamento de Kung Fu? De acordo com a brochura oficial, os valores são cobrados em Yuan chinês (¥/CNY/RMB) e variam por duração. Os preços incluem treinos, refeições, hospedagem e certificado de participação. Confira a tabela abaixo:
| Duração | Preço (¥) |
|---|---|
| 1 semana | 3.500 ¥ |
| 2 semanas | 5.500 ¥ |
| 3 semanas | 7.500 ¥ |
| 4 semanas | 8.500 ¥ |
| 5 semanas | 10.500 ¥ |
| 6 semanas | 12.500 ¥ |
Não estão incluídos: passagem aérea, traslados, taxas de inscrição (400 ¥ para novos alunos) e documentação de visto. O pagamento de registro é feito com antecedência; o restante é pago na China, via AliPay, WeChat ou dinheiro em espécie.
Como usar dinheiro no país: A China é um país altamente digitalizado, então maioria dos pagamentos locais é feita via QR Code, pelos aplicativos Alipay e WeChat Pay. Para estrangeiros, o acesso a esses sistemas é possível, mas requer cadastro prévio com cartão internacional. Manter uma pequena reserva em yuan em espécie é recomendado para situações em que o QR Code não funciona ou em cidades com menos infraestrutura digital.
Como chegar ao acampamento Kung Fu

Aéreo do Brasil a Pequim: A Air China opera a única rota direta entre o Brasil e a China, com saída de São Paulo (GRU) com escala em Madri, chegando a Pequim. As passagens em classe econômica variam, em geral, entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, conforme dados da CNN Brasil.
Também há outras opções de voo, como:
- China Eastern Airlines: Possui acordo de codeshare com a LATAM, permitindo conexões para Xangai, Xianyang e Wenzhou via cidades europeias como Madri, Milão, Roma ou Londres.
- Ethiopian Airlines: Uma das opções mais competitivas em preço, com conexão em Adis Abeba, servindo diversos destinos na China como Cantão e Xangai.
- Emirates: Conexão em Dubai (DXB).
- Qatar Airways: Conexão em Doha (DOH).
- Turkish Airlines: Conexão em Istambul (IST).
- Air France / KLM: Conexões em Paris ou Amsterdã.
- Lufthansa: Conexões em Frankfurt ou Munique.
- British Airways: Conexão em Londres.
- Air Canada: Conexão em Toronto ou Vancouver (exige visto de trânsito canadense).
- American Airlines / United / Delta: Conexões nos EUA (exige visto americano).
Para quem já está na China, o aplicativo Trip.com (antiga Ctrip) é uma das ferramentas mais usadas para comprar passagens e trens domésticos.
Trem-bala de Pequim a Zhengzhou: Da Estação Zhengzhou East Railway Station (Zhengzhou Leste), é possível chegar de trem-bala a partir de Pequim em aproximadamente 3 horas. O custo relatado por Letícia foi de R$ 255 por trecho. A compra também pode ser feita pelo aplicativo Trip.com.
Didi de Zhengzhou ao acampamento: Do centro de Zhengzhou até o acampamento, a viagem leva aproximadamente 1h30 de carro. O custo relatado por Letícia foi de R$ 94.
O Didi é o equivalente chinês do Uber e funciona como principal meio de transporte por aplicativo no país. Para usar, é necessário ter número de telefone chinês ou um chip local, vale comprar um chip de viagem antes ou no aeroporto.
Se liga nessa checklist pré-partida:
- Avaliação médica prévia;
- Acompanhamento nutricional;
- Treinamento físico regular e com acompanhamento próprio para Kung Fu;
- Preparação mental para rotina intensa;
- Cursinho básico de mandarim ou inglês para conseguir se virar na China;
- Pesquisa e download de todos os apps necessários na sua viagem, para não se atrapalhar com o Grande Firewall da China ao chegar no país;
- Chip de telefone ou E-Sim chinês;
- Aéreo e transporte terrestre dentro do país;
- Cuidado com o uso de cartão internacional, alguns não são aceitos, pesquise bem qual será o melhor para o seu bolso;
- Seguro viagem com cobertura para atividades esportivas, evitando dor de cabeça em caso de lesões, sobrecarga física ou mental e necessidade de atendimento médico.
Outras escolas de Kung Fu

Quem quiser comparar opções antes de decidir, pode pesquisar outras escolas Kung Fu consolidadas na região e no país. A experiência de Letícia foi baseada em um modelo de imersão com mestre Shaolin, com estrutura organizada e foco em treinamento intensivo.
Entre as escolas e programas conhecidos estão:
- Shaolin Tagou Wushu School (Dengfeng, Henan) Uma das maiores escolas de artes marciais do mundo, com foco em treinos em grupo, sanda e combate. Indicada para quem busca ritmo intenso e treinamento coletivo. Custo mensal estimado em US$ 1.200.
- Song Mountain Shaolin Kung Fu School (Dengfeng, Henan) Localizada próxima ao Templo Shaolin, é autorizada pelo próprio templo para receber estudantes internacionais. Ensina técnicas tradicionais incluindo Iron Coat, Iron Palm e as 72 Habilidades Secretas do Shaolin. Custo mensal de referência em torno de US$ 590.
- Maling Shaolin Kung Fu Academy (Henan) Aberta a todas as idades e níveis, com currículo que vai do básico ao avançado, incluindo boxe e combate. Oferece acomodação compartilhada ou privada.
- Kunyu Mountain Shaolin Kung Fu School (Shandong) Localizada na cordilheira de Kunyu, berço do taoísmo, com ênfase em kung fu Shaolin tradicional, Wing Chun, Qigong, Tai Chi e Sanda. Ambiente natural e distante de centros urbanos.
- Qufu Shaolin Kung Fu School (Qufu, Shandong) Fundada em 2008 pelo Mestre Shi Yan Jia, da 34ª geração de monges guerreiros do Templo Shaolin. Tem intérpretes em sala de aula — indicada para quem busca mais suporte em inglês.
- Wudang Mountain Wushu School (Wudang, Hubei) Especializada em artes internas: Tai Chi, Bagua e Wudang Quan. Para quem prioriza bem-estar, meditação e o aspecto filosófico das artes marciais, em vez do combate. Custo mensal em torno de US$ 1.280.
Dicas de destinos para conhecer na região após o treino Kung Fu

O interesse por experiências, como as aulas de Kung Fu, na China abre oportunidades para operadores e agentes. Para quem prefere estruturar a viagem com apoio profissional, especialmente para combinar o acampamento com um roteiro turístico, algumas agências brasileiras têm experiência comprovada com a China. No Brasil, o tema ainda é nichado, mas há espaço para crescimento, especialmente com o aumento da busca por viagens de experiências. Confira abaixo alguns lugares interessantes que vale a pena pesquisar antes de ir:
Nos arredores do acampamento (Dengfeng, Henan)
- Templo Shaolin — O berço do kung fu e do Budismo Chan, fundado em 495 d.C. na encosta do Monte Shaoshi é Patrimônio da UNESCO desde 2010. O complexo inclui o Pátio Principal (Changzhu Courtyard), o Salão de Artes Marciais (com shows de kung fu realizados ao longo do dia, incluídos no ingresso), a Floresta de Pagodas, maior cemitério de pagodas da China com 252 estruturas funerárias de abades, e a área cênica Sanhuangzhai. O ingresso custa 80 ¥ e inclui o ônibus interno. O visitante também pode contratar aulas de kung fu no templo, cobradas por hora.
- Monte Song (Songshan) — Uma das Cinco Montanhas Sagradas da China, com trilhas que conectam pontos históricos como o Segundo Templo Patriarca, acessível pelo teleférico Songyang (60 ¥ ida e volta). O pico mais alto atinge 1.512 metros. Indicado para quem quer combinar trekking com turismo cultural numa mesma saída.
- Observatório Astronômico de Dengfeng (Gaocheng) — Construção do século XIII (Dinastia Yuan), inscrita na lista do Patrimônio da UNESCO como parte dos “Monumentos Históricos de Dengfeng”. É um dos observatórios astronômicos mais antigos preservados da China e foi usado para medir o tempo e os solstícios.
- Templo Zhongyue (Zhongyue Miao) — Um dos maiores templos taoístas da China, dedicado à divindade guardiã do Monte Song. O complexo tem mais de 400 estruturas espalhadas por uma área de 37 acres, com arquitetura que remonta à Dinastia Han. A entrada é acessível e o local costuma ter muito menos turistas do que o Templo Shaolin.
Luoyang, Henan (90 km de Dengfeng)
- Cidade Antiga de Luoyang (Luoyang Old Town) — Capital de 13 dinastias ao longo da história, Luoyang acumulou mais de 4.000 anos de história urbana e seu centro histórico preserva parte desse passado nas ruas e ruínas da Cidade Antiga. As lojas ao longo de todo o percurso são construídas no estilo arquitetônico das Dinastias Ming e Qing, e misturam comércios de artesanato, roupas, suprimentos tradicionais de pintura e caligrafia. Diferente de muitas ruas antigas da China que foram reconstruídas para o turismo, a West Avenue de Luoyang preserva uma aparência mais ordinária e menos polida. A visita é gratuita e funciona bem como encerramento do dia, especialmente à noite, quando as lanternas vermelhas e as barracas de comida tornam o espaço mais animado.
- Grutas de Longmen (Longmen Shiku) — Um dos quatro maiores conjuntos de arte rupestre budista da China e Patrimônio da UNESCO desde 2000. Ao longo de 1 km nas margens do Rio Yi, estão distribuídas mais de 2.300 grutas com cerca de 100 mil estátuas budistas, a maioria das Dinastias Wei do Norte e Tang. O destaque é a Gruta Fengxian, com o Buda Vairocana de 17 metros. Entrada é 90 ¥ e o tour noturno está disponível entre abril e outubro, com ingresso separado de 90 ¥.
- Templo do Cavalo Branco (Baima Si) — Considerado o primeiro templo budista construído na China, fundado em 68 d.C. pelo imperador Ming da Dinastia Han para abrigar monges indianos que chegaram com textos sagrados. O nome vem da lenda de que os manuscritos foram trazidos em lombos de cavalos brancos. O complexo preserva pagodas e salões originais.
- Museu de Arte Tang (Tang San Cai Museum) — Luoyang foi a capital durante grande parte da Dinastia Tang (618–907 d.C.) e guarda uma das maiores concentrações de cerâmica tricolor desse período. O museu é pequeno mas com acervo denso, voltado a quem tem interesse em arte e arqueologia chinesa.
Zhengzhou, Henan (1h30 do acampamento)
- Museu de Henan (Henan Bowuguan) — Um dos quatro maiores museus da China, com mais de 140 mil artefatos. O acervo cobre 5.000 anos de história da região do Rio Amarelo, com peças da Dinastia Shang (ossos oraculares), bronzes rituais, jade e instrumentos musicais de 2.400 anos. A entrada é gratuita para visitantes estrangeiros mediante apresentação de passaporte.
- Ruínas Shang (Yin Xu / Shang Dynasty Ruins) — O maior sítio arqueológico preservado da Dinastia Shang (séc. XVI–XI a.C.) e é patrimônio da UNESCO. Inclui muralhas de terra batida com mais de 3.000 anos, fornos de bronze e área de exposição com escavações abertas ao público.
- Área Cênica do Rio Amarelo (Huang He) — Vista panorâmica do Rio Amarelo e da planície de Loess, com acesso a barcos e trilhas. O Rio Amarelo é considerado o berço da civilização chinesa e o ponto de vista da área cênica é o mais acessível da região de Zhengzhou para quem quer vê-lo.
*Valores e cotação estão sujeitos à alteração.
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