"Achávamos que ser pai e ser gay não combinavam": a história de Tiago Pessoa e Paulo Tardivo que inspira milhões de famílias
Entre risadas e abraços, o casal compartilha os desafios da paternidade. (Acervo pessoal)

Durante anos, Tiago Pessoa e Paulo Tardivo esconderam um sonho até deles mesmos: a paternidade. Não porque não quisessem ser pais, mas porque cresceram acreditando que homens gays simplesmente não formavam famílias. O desejo foi guardado por muito tempo, até que as mudanças na sociedade abriram espaço para uma possibilidade que antes parecia inalcançável.

Hoje, sete anos depois da adoção, o sonho que parecia impossível é vivido diante de milhões de pessoas. Ao lado de Sara e Davi, Tiago Pessoa e Paulo Tardivo descobriram que, ao compartilhar a própria história, também ajudavam outras famílias. Nas redes sociais, onde dividem os desafios e as alegrias da paternidade, recebem diariamente mensagens de pessoas que passaram a enxergar a adoção e a diversidade por um novo olhar.

“O sonho sempre existiu, mas foi arquivado. Na nossa cabeça, ser pai e ser gay não combinavam. Só depois da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo percebemos que também poderíamos construir uma família”, contam.

Foi depois de sete anos de relacionamento que o casal decidiu iniciar o processo de adoção. A partir dali, começou uma jornada que mudaria a vida do casal para sempre. “O processo de adoção foi muito tranquilo. O sistema no Brasil tem muito cuidado com as crianças para que não haja erros que possam gerar novos traumas.”

Entre todas as etapas, uma permanece viva na memória dos dois. Antes de entrar oficialmente na fila, foi preciso definir o perfil das crianças que estariam dispostos a adotar. “Nesta ficha você responde se aceita crianças vivendo com HIV, com deficiência, vítimas de violência, qual a etnia, se os pais biológicos tiveram contato com drogas, entre outras situações. Dizer não para muitas dessas respostas parecia dizer não para uma criança que precisava de um lar. Isso nos marcou.”

O casal entrou na fila com o desejo de aumentar a família e foi chamado para conhecer Davi, que na época tinha apenas três meses de vida. No abrigo, descobriram que o bebê tinha uma irmã biológica, Sara, que também aguardava por uma família. A decisão foi adotar os dois irmãos, que desde então seguem crescendo juntos.

Quando finalmente conheceram Sara e Davi, viveram uma experiência bem diferente daquela retratada em filmes e novelas. “Não houve amor à primeira vista e isso precisa ficar claro, porque nem sempre acontece. O amor foi sendo construído diariamente nas visitas ao abrigo e nas brincadeiras. No início a gente só sentia medo do desafio que estava por vir. Mas, em poucos dias, percebe o amor avassalador que vai se criando.”

Diferenças que se completam

"Achávamos que ser pai e ser gay não combinavam": a história de Tiago Pessoa e Paulo Tardivo que inspira milhões de famílias
Tiago, Paulo, Sara e Davi, sete anos de uma família construída pelo amor. (Acervo pessoal)

Hoje, a família é formada por personalidades bastante diferentes. Tiago se define como um pai brincalhão e cheio de energia.”Sou um pai bem molecão, alegre, um baiano cheio de vida. Adoro dormir, não domino nada na cozinha e não gosto de perrengues.”

Já Paulo é quem faz a engrenagem da casa funcionar. “Sou paranaense, cozinheiro, pai para toda obra. Nunca fico parado, acordo cedo, resolvo as coisas da casa, falo muito e costumo colocar ordem.”

Sara, que vive a pré-adolescência, é mais reservada e apaixonada por k-pop e skincare. “Ela é tímida, doce, tem personalidade muito forte.”

Já Davi, aos sete anos, é descrito pelos pais como um menino impossível de passar despercebido. “É hiperativo, falante e muito carismático. Dobra todo mundo no papo e no carinho. É extremamente carinhoso e empático.”

Apesar das diferenças de personalidade, eles descobriram que enxergam a criação dos filhos da mesma maneira. “A gente achava que tínhamos estilos diferentes de paternidade. Hoje percebemos que somos apenas diferentes como pessoas, mas acreditamos na mesma forma de criar os filhos.”

O mundo depois dos filhos

A convivência com Sara e Davi transformou muito mais do que a rotina da casa. Mudou a forma como Tiago e Paulo enxergam as pessoas, as dificuldades e o próprio futuro. 

“Qualquer criança que esteja passando por uma dificuldade poderia ser nosso filho. Qualquer pai que esteja sofrendo por alguma situação poderia ser a gente. Somos definitivamente mais empáticos depois que nos tornamos pais.”

Com milhões de pessoas acompanhando a rotina da família, o casal faz questão de estabelecer limites para preservar a infância dos filhos. “As crianças têm aparecido cada vez menos e, por decisão conjunta, vão aparecer ainda menos. Elas entendem que o trabalho é nosso, não delas. A gente tenta preservá-las ao máximo.”

Entre as milhares de mensagens recebidas nas redes sociais, algumas emocionaram de forma especial. “Muitas mães contam que passaram a aceitar seus filhos gays depois que se tornaram nossas fãs. Para a gente, essa é uma das maiores contribuições que conseguimos dar. Nosso maior público são justamente essas mães.”

Ao falar sobre adoção, Tiago e Paulo também aproveitam para combater preconceitos que ainda cercam o tema. “Muitos dizem que o caráter é hereditário, e isso é infundado. O juízo moral é construído na criação e na educação.”

Outro mito que eles fazem questão de desconstruir é a ideia de que adotar seja um ato de caridade. “Adotamos para realizar o nosso desejo de sermos pais. Solidariedade é quando você faz algo pensando apenas no outro.”

A chegada de Sara e Davi também mudou a forma como o casal passou a enxergar o futuro. “Hoje temos medo de morrer e fazer falta para os nossos filhos. Aprendemos a economizar dinheiro para que nunca falte nada para eles. Eles nos trouxeram muitos ensinamentos.”

Para quem ainda sonha em adotar, mas tem receio de dar o primeiro passo, Tiago e Paulo deixam uma mensagem baseada na própria experiência. “Adotem. A paternidade tem desafios, independentemente da forma como você se torna pai. Existem muitas crianças esperando por um lar. A adoção transforma a vida para sempre. Foi a coisa mais extraordinária que já vivemos.”

O sonho que um dia ficou guardado por medo do preconceito hoje completa sete anos em forma de família. Ganhou nome, voz e rotina. Uma casa barulhenta, cheia de vida, com risadas, conversas, diferenças, desafios e aprendizados, como tantas outras.

Mais do que realizar o desejo de serem pais, Tiago e Paulo descobriram uma nova forma de enxergar o mundo. A história deles, ao lado de Sara e Davi, mostra que a adoção transforma a vida de todos que fazem parte dela. E a maior prova disso é justamente a família que construíram. Porque, no fim, uma família não é definida pela forma como nasce, mas pelo amor que escolhe permanecer todos os dias.