
Quem já enfrentou uma viagem de muitas horas conhece a sensação. Dor nos ouvidos durante a aterrissagem, pernas inchadas, olhos ressecados, dificuldade para dormir e um cansaço que permanece mesmo depois do desembarque fazem parte da rotina de milhões de passageiros em voos de longa duração. Embora esses sintomas sejam comuns, especialistas alertam que eles são resultado de mudanças fisiológicas provocadas pelas condições dentro da aeronave e, em alguns casos, podem representar riscos à saúde.
Mesmo com cabines pressurizadas, o organismo precisa lidar com alterações de pressão atmosférica, baixa umidade do ar, menor disponibilidade de oxigênio, longos períodos sentado e, nas viagens internacionais, mudanças bruscas de fuso horário. A combinação desses fatores interfere na circulação sanguínea, na respiração, na digestão e até no relógio biológico.
Segundo médicos do Hospital Sírio-Libanês, medidas simples adotadas antes e durante a viagem ajudam a reduzir boa parte desses efeitos e tornam o deslocamento mais confortável.
Alterações de pressão provocam dor nos ouvidos
Um dos desconfortos mais frequentes acontece durante a decolagem e, principalmente, na aterrissagem. A diferença de pressão entre o ambiente externo e o ouvido médio exige que a tuba auditiva faça a compensação para equilibrar a pressão interna.
Quando o passageiro está gripado, com rinite, sinusite ou alergias respiratórias, esse mecanismo pode não funcionar adequadamente, provocando dor intensa, sensação de ouvido tampado e redução temporária da audição.
“É importante viajar com as vias nasais desobstruídas para facilitar a equalização da pressão”, explica o otorrinolaringologista Oswaldo Lércio Cruz, do Hospital Sírio-Libanês.
Durante o voo, ações simples como mascar chiclete, bocejar, engolir saliva ou beber água ajudam nesse processo. Em alguns casos, o uso de medicamentos descongestionantes ou antialérgicos pode ser indicado por um médico antes do embarque.
Permanecer sentado aumenta o risco de trombose
A permanência prolongada na mesma posição reduz a circulação sanguínea nas pernas e favorece a formação de coágulos nas veias profundas. A condição, conhecida como trombose venosa profunda, merece atenção principalmente em viagens superiores a quatro horas.
Se o coágulo migrar até os pulmões, pode provocar uma embolia pulmonar, considerada uma complicação grave.
O risco é maior entre idosos, gestantes, pessoas com obesidade, histórico de trombose, varizes ou doenças que afetam a circulação.
“Para reduzir o risco, é importante manter uma boa hidratação, evitar o consumo de bebidas alcoólicas, movimentar as pernas com exercícios de flexão e extensão dos tornozelos e das panturrilhas e, sempre que possível, levantar e caminhar a cada uma ou duas horas. Em alguns casos, o uso de meias de compressão também pode ser indicado”, afirma o cirurgião vascular André Echaime Vallentsits Estenssoro.
Os especialistas ressaltam que medicamentos anticoagulantes não devem ser utilizados preventivamente sem orientação médica.
Ar seco resseca pele, olhos e vias respiratórias
A umidade dentro de uma aeronave costuma ficar entre 10% e 20%, índices muito inferiores aos encontrados na maioria dos ambientes terrestres. Esse ar seco favorece o ressecamento da pele, dos olhos, da garganta e das mucosas do nariz.
Além do desconforto, a baixa umidade reduz parte da capacidade natural de proteção do sistema respiratório.
“Quando as mucosas ficam ressecadas, elas perdem eficiência na defesa contra vírus e bactérias”, explica o pneumologista Elie Fiss.
A recomendação é reforçar a hidratação antes, durante e após o voo. Passageiros que usam lentes de contato podem sentir mais irritação ocular, sendo indicado o uso de colírios lubrificantes quando recomendados por um especialista.
Pessoas com doenças respiratórias crônicas, como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), também devem manter o tratamento habitual durante a viagem, já que a menor concentração de oxigênio dentro da cabine pode favorecer crises.
Jet lag interfere no relógio biológico
Nas viagens internacionais, outro efeito bastante conhecido é o jet lag. O problema aparece quando o organismo continua funcionando de acordo com o horário do local de origem, enquanto o destino segue outro ciclo de luz e escuridão.
O resultado pode ser insônia durante a noite, sonolência ao longo do dia, dificuldade de concentração, irritabilidade, fadiga e alterações no apetite.
“Quando a gente muda bruscamente de fuso horário, o nosso relógio interno fica dessincronizado com o horário local”, explica o neurologista e especialista em sono Lucio Huebra.
Para reduzir esses efeitos, especialistas recomendam ajustar gradualmente os horários de dormir alguns dias antes da viagem, além de buscar exposição à luz natural logo após a chegada ao destino, estratégia que facilita a adaptação do organismo.
Digestão também fica mais lenta durante o voo
As alterações de pressão e a permanência prolongada sentado também afetam o funcionamento do sistema digestivo. Muitas pessoas relatam sensação de estômago pesado, gases, distensão abdominal e digestão lenta durante viagens longas.
Segundo a nutricionista Daniela Castanho, refeições leves costumam ser melhor toleradas durante os voos.
“Refeições leves costumam ser melhor toleradas durante os voos.”
A orientação é priorizar frutas, carnes magras, preparações menos gordurosas e reduzir alimentos que favorecem a formação de gases. O consumo adequado de água também contribui para o funcionamento do organismo ao longo da viagem.
Pequenos hábitos fazem diferença durante a viagem
Especialistas afirmam que grande parte dos desconfortos pode ser reduzida com medidas simples. Levantar regularmente para caminhar pelo corredor, movimentar tornozelos e panturrilhas enquanto permanece sentado, beber água com frequência, evitar excesso de bebidas alcoólicas e escolher refeições leves estão entre as principais recomendações.
Também é indicado viajar com roupas confortáveis, evitar permanecer muitas horas com as pernas cruzadas e respeitar o tratamento de doenças crônicas já existentes.
Embora a maioria dos sintomas desapareça poucas horas após o desembarque, dores intensas nas pernas, falta de ar, inchaço persistente ou dor no peito após a viagem exigem avaliação médica imediata, pois podem indicar complicações relacionadas à circulação.







