25 anos depois: como o 11 de Setembro mudou a segurança e a forma de viajar de avião
Especialista explica como diferentes ameaças criaram as barreiras presentes nos aeroportos hoje (IA/M&E)

Passar pelo raio-X, colocar a bagagem na esteira, esvaziar os bolsos, retirar objetos metálicos, separar líquidos e atravessar uma sequência de equipamentos de inspeção. Para quem embarca em um avião em 2026, tudo isso faz parte de uma rotina quase automática. Há 25 anos, porém, boa parte dessa experiência não fazia parte do cotidiano com o mesmo nível de rigor. Os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, provocaram uma profunda transformação na segurança da aviação mundial e mudaram também a relação do passageiro com o aeroporto e com a própria aeronave.

A mudança mais simbólica aconteceu dentro do avião. A cabine de pilotagem, que antes podia ser visitada por passageiros em determinadas situações, passou a ser tratada como uma área de acesso extremamente restrito. Portas reforçadas, procedimentos específicos e protocolos de segurança transformaram um espaço que, para muitos viajantes, fazia parte da curiosidade sobre a aviação em uma das áreas mais protegidas da aeronave.

“Esta tragédia foi um divisor de águas para a aviação, porque os níveis de segurança tiveram que ser aumentados. Até hoje, sem sombra de dúvida, a experiência no aeroporto continua sendo influenciada por esse fato”, afirma Alexandre Faro, coordenador do curso de Aviação da Universidade Anhembi Morumbi, integrante da Ânima Educação.

A cabine que deixou de fazer parte da experiência

Antes dos ataques, visitar a cabine de comando não era algo incomum em determinadas situações. Crianças, familiares de tripulantes e passageiros interessados em aviação podiam, dependendo da companhia e das circunstâncias, conhecer o espaço onde os pilotos trabalhavam.

Essa relação mudou completamente depois que quatro aviões comerciais foram sequestrados e utilizados nos ataques de 11 de setembro.

“Antes do 11 de setembro, a cabine de pilotagem fazia parte de algo relacionado à experiência do voo. Era muito comum que crianças visitassem o local e pessoas aficionadas pela aviação fossem até lá e tirassem fotos”, lembra Faro.

A partir daquele momento, o acesso aos comandos da aeronave passou a ser tratado sob uma lógica completamente diferente.

“A cabine passou a ser algo inviolável”, afirma o especialista.

O reforço das portas da cabine e o controle sobre quem pode entrar no local se tornaram algumas das medidas mais visíveis desse novo cenário. O objetivo era impedir que uma pessoa não autorizada pudesse assumir o controle da aeronave. Mas a transformação da segurança aérea não terminou em 2001.

Segurança passou a responder a novas ameaças

Nos anos seguintes, outros episódios fizeram com que aeroportos e companhias aéreas acrescentassem novas barreiras aos procedimentos de embarque.

Em 2002, uma tentativa de utilizar explosivos escondidos em calçados levou a uma atenção maior sobre os sapatos durante as inspeções de segurança em aeroportos. A medida se tornou mais um elemento da rotina de passageiros em diferentes países.

Em 2006, outro episódio provocou uma mudança que permanece especialmente conhecida por quem viaja com frequência. A descoberta de um plano envolvendo explosivos líquidos em aeronaves levou ao endurecimento das regras para líquidos transportados na bagagem de mão.

É por isso que a experiência atual de passar pela segurança não pode ser explicada apenas por uma única medida adotada depois do 11 de Setembro. O sistema foi sendo construído e ampliado conforme surgiam novas ameaças.

“Isso vai acontecer ao longo da história da aviação. É uma coisa viva e constante, porque as ameaças nunca estarão totalmente identificadas. Na medida em que há evolução da tecnologia, também pode haver evolução nas formas de ataque e de terrorismo”, explica Faro.

O resultado é um modelo de segurança que combina procedimentos visíveis ao passageiro com mecanismos que acontecem longe dos olhos de quem está viajando.

Quatro camadas acompanham o passageiro

Segundo o especialista, a segurança da aviação pode ser entendida a partir de quatro grandes frentes: a triagem dos passageiros, o controle das bagagens, o monitoramento das áreas operacionais dos aeroportos e o acompanhamento das aeronaves.

A primeira começa antes mesmo do embarque, com identificação, inspeção e controle de acesso às áreas restritas. É nessa etapa que o passageiro encontra alguns dos procedimentos mais conhecidos, como scanners, detectores e inspeção de objetos.

A segunda camada está relacionada às bagagens. As malas despachadas são vinculadas aos passageiros e passam por processos de controle antes de serem encaminhadas para a aeronave. Quando algum elemento considerado suspeito é identificado, a bagagem pode ser retirada do fluxo normal e submetida a uma verificação adicional.

Existe ainda uma camada menos percebida por quem viaja: o controle das áreas operacionais dos aeroportos.

O chamado “lado ar”, que reúne regiões como pátios e áreas próximas às aeronaves, possui acesso controlado. O passageiro que observa um avião sendo preparado para a decolagem normalmente não vê a quantidade de procedimentos necessários para que pessoas, equipamentos e veículos possam circular nessas áreas.

A quarta frente acompanha a aeronave durante a operação. Informações operacionais são transmitidas e acompanhadas pelas companhias aéreas, ampliando o monitoramento para além do momento em que o passageiro passa pelo controle de segurança.

“É um sistema integrado”, explica Faro.

O aeroporto ficou mais seguro, mas também mais complexo

A mudança na segurança teve um efeito direto sobre quem viaja. O passageiro passou a conviver com mais etapas antes de chegar ao portão de embarque, além de restrições a objetos, líquidos e outros itens que podem ser levados na cabine.

O aumento dos controles também modificou a percepção sobre o próprio aeroporto. Antes visto principalmente como o local de passagem entre a cidade e o avião, o terminal passou a concentrar uma série de barreiras destinadas a identificar riscos antes que eles cheguem à aeronave.

Para Faro, essa transformação trouxe um efeito inevitável sobre a experiência de viagem.

“É necessário? Sim, mas a experiência dentro do aeroporto para o passageiro ficou muito mais cansativa”, avalia.

As filas, os procedimentos de inspeção e a necessidade de preparar a bagagem de mão antes do controle passaram a fazer parte do planejamento de quem viaja. Chegar ao aeroporto com antecedência deixou de ser apenas uma recomendação relacionada ao check-in e passou a considerar também o tempo necessário para atravessar as etapas de segurança.

25 anos depois, legado continua presente

Em 2026, um passageiro pode nunca ter vivido a experiência de viajar de avião antes dos atentados de 11 de setembro. Para uma parcela crescente dos viajantes, portanto, a segurança atual sempre foi parte da viagem.

Ainda assim, muitos dos procedimentos considerados banais hoje nasceram ou foram reforçados a partir das mudanças provocadas pelos ataques de 2001 e por acontecimentos posteriores.

A porta fechada da cabine, o controle de acesso, a inspeção das bagagens, as restrições para líquidos e o monitoramento das áreas aeroportuárias fazem parte de um sistema que continua sendo aperfeiçoado.

O principal legado, segundo Faro, é justamente a necessidade de tratar a segurança como um processo permanente. A tecnologia utilizada para proteger aviões e aeroportos avança, mas as ameaças também podem mudar.

Vinte e cinco anos depois, o 11 de Setembro continua presente na aviação não apenas como um episódio histórico, mas como uma referência para entender por que o passageiro de hoje precisa passar por tantos controles antes de entrar em um avião.

A viagem começa muito antes da decolagem. E boa parte dela acontece em procedimentos que o passageiro vê, enquanto outra parte permanece invisível, nos bastidores de uma operação que passou a tratar cada etapa como uma barreira adicional de segurança.