
A influenciadora brasileira Mariana Alves Gadelha Pereira, 22, conhecida como Malévola Alves, e a amiga Bruna Mercatelli foram detidas em Alexandria, Egito, na terça-feira (20). O caso ocorreu após autoridades egípcias investigarem vídeos publicados nas redes sociais com comportamentos que, segundo o Ministério do Interior do país, teriam conotação sexual e configurariam assédio a pessoas em espaços públicos.
As duas foram liberadas nesta quarta-feira (21), após pagamento de fiança, e a defesa informou que ainda trata dos procedimentos necessários para o retorno ao Brasil. Porém, a situação chama atenção para um aspecto que deve fazer parte do planejamento de qualquer viagem internacional: conhecer as leis e os costumes do destino antes do embarque, especialmente em países de maioria muçulmana, onde determinadas atitudes aceitas ou comuns em outros países podem ser interpretadas de maneira diferente.
Isso não significa que exista um conjunto único de normas para todos os países islâmicos, cada destino possui legislação própria e diferentes níveis de restrição, além de costumes que também variam de uma região para outra. No caso do Egito, por exemplo, orientações oficiais de viagem recomendam que estrangeiros respeitem tradições, religiões e costumes locais.
O Mercado & Eventos montou uma lista com dicas de como se preparar para conhecer países muçulmanos:
1. Tenha seguro viagem e suporte de uma agência
O turista deve considerar a contratação de um seguro viagem e, especialmente em destinos com regras diferentes das brasileiras, avaliar o suporte de uma agência ou operadora de turismo. Em situações como detenção, problemas com documentação, atendimento médico ou necessidade de assistência jurídica, contar com canais de apoio pode facilitar o contato com autoridades, consulados e prestadores de serviço.
O seguro viagem, porém, não substitui a assistência consular nem garante cobertura para qualquer situação relacionada ao descumprimento das leis locais. Por isso, antes da contratação, é importante verificar as condições da apólice, incluindo coberturas médicas, assistência 24 horas, orientação em caso de perda de documentos e eventuais exclusões relacionadas a atos considerados ilegais.
A agência pode auxiliar o viajante na preparação do roteiro e na identificação de regras específicas do destino, além de oferecer suporte durante a viagem. Em países onde diferenças culturais e legais podem interferir diretamente na experiência do turista, esse acompanhamento pode ser útil principalmente para quem viaja pela primeira vez.
2. Pesquise as leis antes do embarque
O primeiro cuidado é verificar quais comportamentos são permitidos no país de destino e se a legislação local se aplica também a turistas ou pode estabelecer regras diferentes das existentes no Brasil. No Egito, autoridades podem abordar, questionar e deter pessoas em determinadas circunstâncias.
É recomendável que estrangeiros tenham consigo documento de identificação e cópia do passaporte e do visto, quando aplicável. O Ministério do Turismo brasileiro também orienta que as atividades turísticas sejam realizadas em respeito às leis e aos costumes das regiões e países visitados.
3. Atenção à roupa, principalmente em locais religiosos
As regras de vestimenta variam, em áreas turísticas, por exemplo, determinadas roupas podem ser mais toleradas, enquanto locais religiosos ou comunidades mais conservadoras podem exigir maior cobertura do corpo. No Egito, a orientação britânica recomenda roupas discretas, especialmente durante visitas a áreas rurais, mesquitas e souqs, os mercados tradicionais.
Durante o Ramadã, também é indicado redobrar a atenção aos costumes locais. Antes de entrar em uma mesquita ou outro espaço religioso, o turista deve verificar se existem regras específicas sobre roupas, calçados, fotografia e circulação.
4. Evite demonstrações de afeto em público
Demonstrações públicas de afeto também podem ser interpretadas de maneira diferente dependendo do país. Antes de viajar, é importante pesquisar como o destino trata beijos, abraços, contato físico e manifestações de cunho sexual em espaços públicos.
No Egito, por exemplo, demonstrações físicas de afeto entre casais em espaços públicos são malvistas. Segurar as mãos é geralmente aceito, mas outras manifestações podem provocar atenção ou reprovação, especialmente fora de áreas turísticas.
5. Cuidado com conteúdos publicados nas redes sociais
O caso de Malévola também chama atenção para outro ponto: o que é publicado na internet pode ter consequências fora das redes sociais. Segundo o Ministério do Interior egípcio, os vídeos que levaram à investigação mostravam as duas brasileiras fazendo gestos e interagindo com pessoas em espaços públicos. De acordo com as autoridades, elas teriam admitido durante o interrogatório que produziram e divulgaram o conteúdo com o objetivo de aumentar as visualizações.
A orientação britânica para o Egito recomenda cautela com conteúdos e discussões de natureza sexual nas redes sociais. O país já utilizou leis relacionadas à moralidade pública para investigar e processar pessoas por conteúdos publicados ou comportamentos considerados inadequados pelas autoridades. Além disso, o Departamento de Estado dos Estados Unidos alerta que turistas podem ser detidos por publicações nas redes sociais consideradas críticas ao Egito ou desrespeitosas em relação a locais culturais.
Antes de gravar uma trend, pegadinha, dança ou conteúdo de interação com desconhecidos, verifique se aquele comportamento é permitido no destino. Na dúvida, não grave e nem poste.
6. Respeite pessoas que aparecem nas gravações
Fotografar ou filmar moradores locais também exige atenção, por exemplo, uma pessoa que aceita aparecer em uma gravação para uma rede social não necessariamente autoriza a publicação daquele conteúdo em qualquer contexto. Além disso, brincadeiras, interações físicas ou abordagens de desconhecidos podem ser interpretadas de maneira diferente dependendo da legislação e dos costumes locais.
No caso que envolve Malévola, as autoridades egípcias afirmam que os vídeos mostravam interações com pessoas em espaços públicos e classificaram determinados comportamentos como obscenos e de cunho sexual.
7. Tenha atenção especial durante o Ramadã
O Ramadã é um período religioso importante para os muçulmanos e as datas mudam a cada ano, durante o mês, algumas práticas que fazem parte da rotina turística podem exigir adaptações. No Egito, orientações de viagem indicam que comer, beber ou fumar em público durante o dia pode ser considerado culturalmente inadequado durante o Ramadã.
Também é recomendado evitar música alta, danças e palavrões em espaços públicos e observar os códigos de vestimenta locais. Isso não significa que turistas não possam se alimentar durante o período. Hotéis e restaurantes voltados para visitantes podem oferecer refeições, mas podem adotar espaços separados para pessoas que não estão jejuando.
8. Verifique regras específicas para turistas LGBTQIA+
Outro ponto que merece atenção é a legislação e a aceitação social relacionada à população LGBTQIA+. Mais uma vez, não existe uma regra única para todos os países de maioria muçulmana, por isso a pesquisa deve ser feita especificamente para o destino. No Egito, relações entre pessoas do mesmo sexo não são explicitamente criminalizadas, mas autoridades já utilizaram leis relacionadas à “depravação” e à moralidade pública para investigar pessoas da comunidade.
O governo britânico também alerta que existe pouca aceitação pública de relações entre pessoas do mesmo sexo e que manifestações de afeto podem gerar atenção negativa. Viajantes podem ter problemas na entrada do país caso a expressão de gênero ou a aparência física não correspondam ao marcador de sexo ou à fotografia do passaporte.
No caso de Malévola, a própria influenciadora relatou antes da confirmação da detenção que policiais haviam questionado sua identidade de gênero e a de sua amiga. A defesa informou que entrou em contato com a Embaixada do Brasil no Cairo e com as autoridades competentes para acompanhar a situação.
9. Mulheres devem redobrar a atenção
Mulheres que viajam para países de maioria muçulmana devem pesquisar previamente as normas de vestimenta e os costumes específicos do destino. Em alguns locais, principalmente em áreas religiosas e comunidades mais conservadoras, pode ser recomendado cobrir ombros, pernas e colo. As regras podem ser diferentes em hotéis, resorts, praias, centros urbanos e locais de culto.
No Egito, por exemplo, o governo britânico recomenda que mulheres adotem roupas mais conservadoras fora das áreas turísticas. O mesmo órgão alerta para casos de assédio sexual e recomenda atenção especial em locais movimentados, transportes públicos e durante deslocamentos. Também é importante verificar as regras relacionadas a fotografia, interação com homens desconhecidos e circulação desacompanhada. Em determinadas regiões, comportamentos considerados comuns no Brasil podem receber outra interpretação.
A recomendação não significa que mulheres devam evitar esses destinos, mas que o planejamento considere as normas locais. Pesquisar previamente os bairros que serão visitados, optar por transportes confiáveis, manter documentos e contatos de emergência acessíveis e informar alguém sobre o roteiro são medidas que podem reduzir riscos durante a viagem.
10. Atenção às regras para outras religiões e manifestações religiosas
Turistas de outras religiões também devem pesquisar como a sua prática religiosa é tratada no país que pretendem visitar. As regras não são iguais entre destinos de maioria muçulmana e podem mudar inclusive dentro de um mesmo país.
No Egito, por exemplo, cristãos de diferentes denominações fazem parte da população e existem igrejas e locais de culto cristãos. Ao mesmo tempo, turistas devem respeitar as regras de acesso e comportamento em mesquitas e outros espaços religiosos, evitando fotografar pessoas durante orações ou realizar gravações sem autorização.
Em países como a Arábia Saudita, as restrições são diferentes e podem ser mais específicas. Durante o período da peregrinação do Hajj, por exemplo, existem regras próprias para entrada em Meca e Medina. Turistas não muçulmanos não podem entrar em Meca, enquanto determinadas áreas de Medina também possuem restrições de acesso. Por isso, o viajante deve verificar as regras do destino antes de montar o roteiro.
Para judeus, também é importante pesquisar as condições específicas de entrada e circulação antes da viagem. A relação diplomática entre o país de origem do viajante e o destino pode influenciar requisitos de visto e entrada, enquanto conflitos políticos regionais podem provocar alterações nas regras de fronteira. O mesmo cuidado vale para católicos, evangélicos, hindus, budistas e seguidores de outras religiões. O turista deve verificar se pode portar símbolos religiosos, realizar cultos, distribuir materiais religiosos ou fotografar cerimônias.
Em alguns destinos, atividades de proselitismo ou conversão podem ser proibidas ou sofrer restrições. A regra principal é não presumir que a liberdade religiosa e as práticas permitidas no Brasil serão tratadas da mesma maneira no exterior. Antes do embarque, vale consultar as orientações oficiais do país, da representação diplomática brasileira e, quando necessário, da própria agência de viagem.
Caso Malévola: influenciadora é liberada após pagamento de fiança
A detenção ocorreu na terça-feira (20), em Alexandria. Segundo o Ministério do Interior egípcio, a investigação começou após a circulação de vídeos nas redes sociais. As autoridades afirmaram que as gravações apresentavam comportamentos considerados obscenos, gestos de conotação sexual e interações com pessoas em espaços públicos.
Na manhã desta quarta-feira (21), a defesa confirmou a liberação da influenciadora e da amiga. Segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, a fiança ficou entre 20 mil e 40 mil libras egípcias, enquanto outros veículos, como o Metrópoles, informaram que a quantia paga foi de 110 mil libras egípcias. Como os valores divulgados pelas fontes divergem, o montante exato deve ser tratado com cautela até uma confirmação oficial.
A defesa de Malévola informou que estava em contato com a Embaixada do Brasil no Cairo e com os órgãos competentes para garantir a integridade física e os direitos das brasileiras. O advogado Jonatha Carvalho Matos também confirmou a liberação e informou que a equipe jurídica ainda avaliava os procedimentos necessários para o retorno das brasileiras ao país.
*Com informações de GZH, CNN, Terra e O Globo.
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