
O Brasil ainda está longe de aproveitar todo o seu potencial turístico, na avaliação de Jerome Cadier, CEO da Latam no Brasil. Durante o Forbes Power Lunch Melhores CEOs 2026, realizado na segunda-feira (19), o executivo defendeu avanços na infraestrutura aérea e maior segurança regulatória para ampliar a conectividade e atrair investimentos estrangeiros para o país.
“O Brasil é magnífico no agro, mas também poderia ser no turismo. Infelizmente, não é. Precisamos de infraestrutura para conectar cidades menores e de segurança regulatória para atrair empresas estrangeiras”, afirmou Cadier durante o encontro, promovido em homenagem aos líderes empresariais reconhecidos pela publicação.
Há 13 anos na Latam, sendo quase uma década à frente da operação brasileira, o executivo acompanhou mudanças importantes na companhia e no setor aéreo. Apesar dos avanços da empresa após o processo de recuperação judicial, concluído em 2022, Cadier avalia que o ambiente econômico e regulatório brasileiro ainda impõe obstáculos ao desenvolvimento da aviação e, consequentemente, do turismo.
No painel mediado por Katarina Camarotti, diretora executiva da Forbes Brasil, o CEO também destacou a posição atual da companhia no mercado. “A Latam está forte, competitiva e conseguindo crescer de maneira sustentável. Mas não vem pela frente, porque muita coisa ainda vai mudar no país”, declarou.
Combustível caro e judicialização pressionam a aviação
Entre os principais desafios para as companhias aéreas brasileiras, Cadier destacou o preço do combustível, que, segundo ele, está entre os mais altos do mundo. Os custos de refino e a carga tributária contribuem para pressionar as despesas operacionais, com diferenças entre as operações domésticas e internacionais.
“O combustível que utilizo para voos internacionais é mais barato do que para voos domésticos”, afirmou o executivo, ao abordar os fatores que afetam a competitividade das empresas aéreas no Brasil.
Outro ponto levantado foi o volume de processos judiciais movidos por passageiros contra companhias aéreas. Mesmo com a Latam figurando entre as empresas mais pontuais do mundo em rankings internacionais, a judicialização representa uma despesa significativa para a operação. “Vamos gastar este ano mais de R$ 500 milhões em processos de passageiros”, disse Cadier.
O executivo também citou um levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), segundo o qual o Brasil concentra 98,5% das ações cíveis globais contra companhias aéreas. Na avaliação de Cadier, esse cenário prejudica a concorrência e reduz o espaço para investimentos. “Esse ambiente não incita concorrência, preços mais baixos ou mais investimentos”, afirmou o CEO da Latam.
Brasileiro voa pouco, e impacto chega a todo o turismo
As barreiras enfrentadas pela aviação também se refletem no acesso da população às viagens aéreas. Segundo dados da Airbus mencionados no encontro, o brasileiro realiza, em média, 0,5 viagem aérea por ano, menos da metade do registrado em países vizinhos como Colômbia e Chile.
Para Cadier, ampliar o acesso ao transporte aéreo é fundamental não apenas para o desempenho das companhias, mas também para outros segmentos da cadeia turística, como hotelaria, comércio e serviços. “Não estamos indo na direção de fazer o brasileiro voar mais, infelizmente. E isso vai prejudicar não só o setor aéreo, mas também a hotelaria, o comércio e todo o turismo”, afirmou.
O executivo também relacionou a dificuldade de planejamento de longo prazo à instabilidade na condução das políticas públicas para o setor. Como exemplo, mencionou que o Brasil teve 23 ministros do Turismo nos últimos 22 anos, cenário que, em sua avaliação, dificulta a continuidade de estratégias para desenvolver a atividade.
Latam passou por transformação após recuperação judicial
A trajetória recente da companhia também esteve entre os temas do painel. Durante a pandemia de Covid-19, a Latam viu sua operação sofrer uma queda abrupta, passando de cerca de 700 voos diários para praticamente nenhuma operação em um intervalo de um mês, conforme recordou o CEO da Latam.
A entrada em recuperação judicial foi apresentada pelo executivo como uma decisão estratégica para reestruturar a empresa e criar condições para uma retomada sustentável. O processo foi concluído em 2022. “Tomamos a decisão de não apressar o processo, mas de fazê-lo de forma profunda para sair mais fortes. Aceleramos muito mais rápido depois, justamente porque passamos por uma transformação estrutural”, afirmou.
Desde então, a companhia retomou o crescimento, ampliou sua rede de destinos e voltou a registrar resultados positivos. A empresa também vem investindo na renovação da frota, incluindo aeronaves menores, que podem contribuir para ampliar as possibilidades de conexão e atender mercados com diferentes níveis de demanda.
Cadier atribuiu parte da evolução operacional a uma mudança de cultura interna, baseada no conceito de “Meta-Mãe”, que coloca a experiência do passageiro como objetivo central de todas as áreas da companhia. “O cliente quer que o voo saia na hora. Ele não está nem aí se a carga cumpriu a meta. Essa mudança de mentalidade é o que nos colocou entre as cinco companhias mais pontuais do mundo”, declarou.
Transformação digital será decisiva para a liderança
Ao abordar os desafios futuros da gestão empresarial, Cadier destacou a transformação digital e a inteligência artificial como fatores determinantes para a competitividade das empresas. Para o CEO da Latam, a tecnologia deve ser incorporada à estratégia dos negócios não apenas para melhorar processos existentes, mas também para ampliar significativamente os ganhos de eficiência.
“A pergunta não é ‘como melhorar minha eficiência em 10%?’, e sim ‘como melhorar em 10 vezes?’. Se não estiver avançando na transformação digital, eu não estarei mais liderando nenhuma empresa em cinco anos”, afirmou.
As declarações reforçam a avaliação do executivo de que o crescimento sustentável da aviação brasileira depende tanto da capacidade de transformação das empresas quanto de condições estruturais que favoreçam a expansão do mercado. Para o turismo, o desafio passa por ampliar a conectividade, reduzir barreiras ao transporte aéreo e criar um ambiente que permita transformar o potencial dos destinos brasileiros em mais viagens, investimentos e negócios.
Com informações de Forbes







