
Em entrevista ao Mercado & Eventos, o analista do IBGE responsável pelo módulo de Turismo da PNAD Contínua, William Kratochwill, revela que o levantamento mais recente, de 2024, registrou 20,5 milhões de viagens realizadas por moradores de 15 milhões de domicílios. Embora o número de domicílios tenha permanecido estável frente a 2023, a proporção caiu de 19,8% para 19,3%, devido ao aumento da base de domicílios considerada na pesquisa
O resultado, para Wiliam, representa um cenário acima dos níveis observados nos anos de pandemia. “Os principais indicadores extraídos da pesquisa incluem a quantidade e os fluxos inter e intrarregionais de viagens, o destino (nacional ou internacional), a duração por pernoites, os gastos médios, a finalidade, e o tipo de transporte e hospedagem.”
Em 2021, 12,7% dos domicílios (8,9 milhões), registraram pelo menos uma viagem e, em 2020, 13,9%, (9,7 milhões). Entre os domicílios que realizaram viagens em 2024, 74% fizeram apenas uma, enquanto 15,1% fizeram duas. As viagens pessoais responderam por 85,5% do total em 2024, enquanto as profissionais representaram 14,5%.
Dentro das viagens pessoais, o Lazer (39,8%) passou a ocupar a primeira posição, ultrapassando as ‘Visita ou evento de familiares e amigos’ (32,2%). Wiliam explica que essa mudança representa uma alteração em relação ao cenário observado no início da série recente, invertendo o cenário de 2020, quando as visitas correspondiam a 38,6% e o lazer a 32,8%. Também é revelado que “a busca por sol e praia caiu de 55,5% em 2020 para 44,6% em 2024, ao passo que o turismo de cultura e gastronomia avançou de 15,5% para 24,4%.”
Turismo doméstico continua concentrando as viagens
As viagens nacionais ainda representam a maior parte dos deslocamentos realizados pelos brasileiros. Em 2024, foram 19,8 milhões (96,7%) de viagens nacionais e 688 mil (3,3%.) internacionais. Apesar da predominância do mercado doméstico, a participação internacional aumentou em relação aos anos anteriores. “Observa-se um aumento proporcional do turismo internacional em comparação aos 2,0% (270 mil) registrados em 2020 e 0,7% (88 mil) em 2021”, acrescenta.
O Sudeste aparece como a principal região de origem e destino das viagens, com 43,9% das viagens como origem e 41,2% como destino. O Nordeste vem na sequência, com 23,8% das viagens como origem e 27,4% como destino. Na origem dos deslocamentos, o Sul representa 17,4%, o Centro-Oeste 8,2% e o Norte 6,7%.
Os motivos também variam de acordo com a região. No Sudeste, o lazer corresponde a 48,6% das viagens, enquanto no Sul representa 42,3%. Já os tratamentos de saúde ou consultas médicas têm participação mais elevada no Norte, com 32,6%, e no Nordeste, com 33,5%. O Centro-Oeste apresenta a maior proporção de viagens para visita a familiares e amigos, com 38,8%.
Renda influencia quanto o brasileiro gasta para viajar
Para William, “há uma relação direta entre rendimento domiciliar e os gastos com turismo.” Nas viagens nacionais com pernoite, por exemplo o gasto médio chegou a R$ 1.843 em 2024, contra R$ 1.663 em 2020. Famílias com rendimento domiciliar per capita inferior a meio salário mínimo gastaram, em média, R$ 806 e nos domicílios com rendimento de quatro ou mais salários mínimos, o gasto médio chegou a R$ 3.032.
No conjunto das viagens nacionais com pernoite, os gastos totais alcançaram R$ 22,8 bilhões, alta de 11,7% e a casa de amigos ou parentes continua sendo o meio mais utilizado (40,7%), porém hotéis e resorts concentram maior participação entre as faixas de renda mais elevadas. “O perfil do turismo permanece focado em viagens curtas, com 54,8% apresentando menos de quatro pernoites.”
A hospedagem também permanece como o principal gasto médio entre os viajantes, seguida pela alimentação. “Foi possível perceber um avanço nos gastos com atrativos em passeios, que deixou de ser o menor gasto em 2023, para ser o segundo menor em 2024.”
Em 2024, 75,5% das movimentações, cerca de 15,5 milhões de viagens, foram classificadas como viagens curtas. “Consolidando um padrão onde 62,0% de todas as viagens possuem duração de apenas 0 a 3 pernoites”, comenta o analista. O levantamento também mostra uma mudança no transporte utilizado pelos viajantes. Em 2023 e 2024, o transporte aéreo passou a superar o ônibus de linha. “Apesar do volume nacional de deslocamentos, a maior parte dos viajantes ainda utiliza casas de parentes ou amigos como local de hospedagem principal.”
A pesquisa também dimensiona a parcela da população que não realizou viagens: em 2024, 62,8 milhões de domicílios não registraram nenhum morador viajando durante o período de referência e o levantamento indica diversos motivadores para esse resultado. Em 19 milhões de domicílios, houve desinteresse, falta de necessidade ou outro motivo e nos demais (43,7 milhões), a demanda foi reprimida por questões como falta de dinheiro, falta de tempo, problemas de saúde ou ausência de prioridade.
A falta de dinheiro foi apontada por 39,2% (24,6 milhões) dos domicílios daqueles em que nenhum morador viajou. A falta de tempo apareceu em 12 milhões (19,1%), enquanto 11,6 milhões (18,4%), afirmaram não ter visto necessidade de viajar. Kratochwill destaca a relação entre os dados econômicos e a possibilidade de acesso ao turismo. “O módulo permite dimensionar a demanda turística ao cruzar informações como gastos e características com variáveis macroeconômicas da pesquisa domiciliar.”
PNAD Contínua Turismo ajuda a dimensionar demanda do setor
O levantamento, porém, possui limitações metodológicas, uma vez que a pesquisa detalha, no máximo, as três viagens que tiveram os maiores gastos por domicílio, embora cubra quase a totalidade das viagens. Além disso, não há dados de 2022 porque o convênio para a realização da pesquisa não foi renovado. “Dados de 2019 não podem ser comparados diretamente com a série histórica recente devido a diferenças de cobertura temporal, impedindo uma avaliação de uma série temporal maior e, também, o real efeito da pandemia de COVID-19 nos anos de 2020 e 2021.”
O analista também ressalta que os indicadores mais recentes incorporam uma reponderação da pesquisa realizada em 2025, ajustada pelo Censo 2022. Os dados são coletados durante todo o ano. A entrevista ocorre na segunda visita ao domicílio e considera os três meses anteriores à entrevista.
De acordo com o IBGE, a metodologia segue padrões internacionais de pesquisas domiciliares sobre turismo, o que permite comparações com resultados de outros países e a divulgação dos dados ocorre anualmente. “A coleta desse módulo por meio de determinada visita, cumpre realçar, permite captar todas as especificidades sazonais do turismo durante todo o ano.”
Os resultados referentes a 2025 estão previstos para o último bimestre de 2026. “Esses resultados devem consolidar a estrutura perceptível do turismo da população brasileira, possibilitando aos interessados no tema, melhores previsões e, consequentemente, um aperfeiçoamento do planejamento e orçamento para o setor, bem como a possibilidade de melhor percepção de futuras políticas públicas de incentivo ao turismo nacional”, conclui Wiliam.






