*Por Marjori Schroeder, CEO da Imaginadora

Vamos falar sobre segurança em viagens? Durante muito tempo, a escolha de um destino esteve diretamente associada ao desejo. Viajar era, antes de tudo, uma decisão aspiracional guiada por paisagens, experiências e narrativas capazes de despertar interesse.
A segurança, nesse contexto, era percebida como um pressuposto silencioso: importante, mas raramente protagonista. Esse equilíbrio começa a se transformar. Em um ambiente global marcado por instabilidade geopolítica, conflitos e episódios recentes de violência em destinos turísticos, a segurança deixa de ser um elemento implícito e passa a ocupar um papel central na decisão de viagem.
PERCEPÇÃO DE SEGURANÇA
Não se trata apenas de evitar riscos, mas de compreender como a percepção de segurança influencia diretamente a construção do desejo. A atenção do viajante, hoje, está cada vez mais condicionada a essa variável. E isso acontece em um momento de sobrecarga constante de estímulos — em que a disputa não é apenas por interesse, mas por confiança.
Nesse cenário, o que se destaca não é apenas o que chama atenção, mas o que transmite segurança suficiente para sustentar uma decisão. Um exemplo recente ajuda a ilustrar como essa dinâmica se materializa na prática. Em abril de 2026, um tiroteio ocorrido nas pirâmides de Teotihuacán, no México — um dos pontos turísticos mais visitados do país — ganhou repercussão internacional.
Mais do que a gravidade do episódio, chamou atenção o fato de ter ocorrido em um local amplamente reconhecido como seguro e consolidado no roteiro global de viagens. A reação foi imediata. Em poucas horas, o caso ultrapassou fronteiras e passou a circular em diferentes mercados emissores, influenciando percepções muito além do contexto local.
Isso evidencia um ponto central: não é apenas o evento em si que impacta o turismo, mas a velocidade com que ele se transforma em percepção coletiva. Essa mudança altera a lógica de competição entre destinos. Se antes a escolha era predominantemente aspiracional, hoje incorpora uma camada racional mais evidente. O viajante não abandona o desejo — mas o filtra. E, nesse processo, a segurança atua como um critério de validação.
Destinos nem tão atraentes em cultura, belezas naturais e história ganham espaço com o apelo de serem seguros. Então, estar seguro também é um dos prazerem invisíveis de viajar. Agora, não tão mais invisivel. Isso não significa que destinos mais complexos deixem de existir no radar. O que se observa é um aumento no nível de exigência e uma mudança na forma como esses lugares precisam se posicionar.
A narrativa já não pode se sustentar apenas no encantamento; ela precisa incluir transparência, previsibilidade e capacidade de resposta. Isso exige dos destinos uma abordagem mais estratégica. Não basta garantir segurança operacional; é necessário comunicar estabilidade de forma consistente, sem recorrer ao alarmismo.
O excesso de ênfase no risco pode, paradoxalmente, gerar o efeito oposto, ampliando a sensação de insegurança. Consolida-se, assim, uma nova dinâmica de escolha. Destinos passam a competir não apenas por visibilidade, mas por credibilidade — e credibilidade se constrói na interseção entre experiência real, comunicação coerente e percepção pública.
Nesse cenário, a segurança deixa de ser um elemento de bastidor e passa a integrar a própria proposta de valor do destino — não como discurso explícito, mas como uma camada essencial da experiência.
No fim, viajar continua sendo sobre descoberta. Mas, cada vez mais, é também sobre contexto. E, em um mundo onde o risco se tornou mais visível, a tranquilidade deixou de ser implícita — e passou a ser parte da escolha.







