O turismo de bem-estar que já flui pelos rios de Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul, o bem-estar ganha novos caminhos entre rios, natureza e experiências únicas (Fundtur-MS/Divulgação)

O que acontece quando o tempo de uma viagem deixa de seguir o relógio e passa a acompanhar o curso de um rio? Durante nossa conversa, Bruno Wendling, diretor-presidente da Fundtur-MS, trouxe uma palavra importante para explicar como o bem-estar aparece no turismo de Mato Grosso do Sul. Transversalidade.

Na sua visão, os benefícios associados ao conceito atravessam diferentes segmentos do setor, entre eles o turismo de natureza, de aventura, a pesca, a gastronomia e as experiências ao ar livre.

“É aquela coisa de desopilar e voltar às origens”, descreve Bruno.

Tenho buscado, nesta coluna, ampliar o olhar para as diferentes formas pelas quais uma viagem pode favorecer o bem-estar. Experiências em spas, massagens, práticas de yoga e alimentação saudável costumam ser associadas mais facilmente ao segmento. A transversalidade amplia essa compreensão ao mostrar que uma caminhada na natureza, um banho de cachoeira, uma flutuação ou o silêncio de uma pescaria também podem despertar presença, descanso mental, movimento, conexão e sentido.

É a partir dessa perspectiva que Bruno define Mato Grosso do Sul como “um destino naturalmente de bem-estar”.

Águas que convidam à presença

Pantanal, Bonito e Serra da Bodoquena estão entre os destinos que melhor representam esse potencial. Para Bruno, essa relação começa pela água.

“As águas sempre estão relacionadas com o bem-estar”, afirma.

Um dos exemplos apresentados por ele são as flutuações nos rios de águas cristalinas da região. A atividade acontece em propriedades privadas, com estrutura e acompanhamento de guias. Com roupa de neoprene, máscara e snorkel, o visitante flutua pela correnteza enquanto observa os peixes em um verdadeiro aquário natural.

“Você deixa o rio te levar. É pura atividade de bem-estar.” explica.

Ainda não tive a oportunidade de viver essa experiência. Ao ouvir Bruno descrevê-la, reconheci ali um convite direto à presença. Deixar a correnteza conduzir o corpo parece também um exercício de confiança, entrega e contemplação.

A pesca trouxe outra imagem para a nossa conversa. Enquanto aguarda o peixe, muitas vezes durante horas, o viajante entra em contato com um ritmo diferente daquele que conduz seu dia a dia.

“O tempo já não é mais seu. O tempo é outro tempo. É um estado de presença muito grande”, conta Bruno.

Ao ouvi-lo, lembrei das vezes em que pescava com meu pai quando era mais nova. Existe algo especial naquela espera. O silêncio abre espaço para observar a paisagem, perceber a respiração, acompanhar os próprios pensamentos ou simplesmente compartilhar o momento com alguém.

Piraputanga também entrou na conversa. Localizada em uma região de transição entre o Cerrado e o Pantanal, a área reúne serras, rios, cachoeiras, trilhas, cicloturismo, gastronomia e contato com as comunidades. É mais um território onde natureza, movimento e contemplação podem se encontrar.

Uma vocação que começa a ganhar nome

O turismo de bem-estar ainda não aparece como um segmento específico nas estratégias de promoção da Fundtur-MS. “Atualmente não se coloca na prateleira”, explica o diretor-presidente.

Os hábitos dos viajantes, no entanto, começam a ampliar esse olhar. Bruno observa que, no período pós-pandemia, vem crescendo a procura por roteiros ao ar livre e locais com menos aglomerações. A alimentação acompanha essa mudança, com hotéis e restaurantes incorporando opções mais naturais e orgânicas.

Algumas iniciativas já tornam esse movimento mais visível. Em Bonito, Bruno cita a Bonito Ecological, agência que apresenta roteiros de wellness com flutuações, cachoeiras, yoga, massagens, alimentação natural, intervalos maiores entre as atividades e mais tempo para aproveitar cada experiência. 

Outro exemplo é o Balneário Estrela do Formoso, localizado às margens do Rio Formoso. O espaço não permite o uso de aparelhos sonoros, preservando o silêncio da natureza, trilhas contemplativas, contato com a água e oferece pergolados privativos para quem busca tranquilidade e exclusividade.

Esses exemplos indicam que a iniciativa privada já começa a responder à procura por bem-estar, organizando experiências consolidadas sob essa perspectiva e incorporando práticas mais diretamente associadas ao segmento.

Bonito é a “Disney do ecoturismo”

Bruno convida os agentes de viagens a ampliarem a forma de apresentar Mato Grosso do Sul. Ainda existe a percepção de que o ecoturismo exige espírito aventureiro, preparo físico ou uma viagem mais rústica.

“Muita gente fala que Bonito é a Disney do ecoturismo, tamanha é a organização”, explica.

A comparação destaca a estrutura dos passeios e a capacidade de receber diferentes perfis de visitantes. Bonito também atende famílias e pessoas que desejam experiências leves, organizadas e próximas da natureza.

“Você pode trocar a praia por Bonito para relaxar também”, afirma.

Para Bruno, o agente precisa conhecer o que o cliente procura para além da atividade contratada. Uma mesma flutuação pode representar aventura para uma pessoa, contemplação para outra e conexão em família para uma terceira. Quando reconhece essas diferentes motivações, o agente amplia as possibilidades de apresentar e comercializar o destino. 

Talvez seja nesse olhar mais atento para os benefícios de cada experiência que o bem-estar possa acrescentar uma nova camada à oferta de Mato Grosso do Sul.

Um movimento que ganha força em um momento de maior visibilidade e conectividade para o estado. Segundo balanço divulgado pela Fundtur-MS, Mato Grosso do Sul participou de seis eventos internacionais e 14 nacionais no primeiro semestre de 2026. A partir de outubro, a LATAM passará a oferecer três voos semanais entre Bonito e Guarulhos. Mais promoção e acesso ajudam essa diversidade a chegar a novos perfis de viajantes.

O luxo que nasce da exclusividade natural

O turismo de luxo também ganha espaço nessa conversa. Para Bruno, a exclusividade proporcionada pela natureza é o grande diferencial do Pantanal.

Hospedar-se em uma fazenda pantaneira com poucos visitantes, realizar um safári privativo e experimentar a gastronomia regional criam uma relação mais próxima com o território. Caiman, Baía das Pedras, Barra Mansa e Refúgio da Ilha estão entre os exemplos da rede hoteleira de luxo mencionada por ele.

Bruno também adiantou que um novo empreendimento de hospedagem de alto padrão está em construção às margens do Rio Formoso, em Bonito. Com sete acomodações, o projeto será voltado a um público que busca exclusividade e alto valor agregado.

Em Piraputanga, ele cita outra iniciativa em desenvolvimento que deverá integrar turismo de alto padrão, yoga, alimentação saudável e imersão na natureza.

Essas iniciativas mostram como hospedagem, natureza, gastronomia e cuidado podem compor experiências mais completas. Também merecem ser conhecidas com tempo, presença e os sentidos atentos. Fica aqui uma pauta para uma próxima viagem e um segundo artigo.

Quem cuida de quem faz o turismo?

Na Fundtur-MS, Bruno procura construir um ambiente pautado pela leveza, pela autonomia e pelo propósito. Segundo ele, não há rigidez de horários, e a cobrança por resultados existe, mas de forma leve.

“A liderança leva essa leveza”, afirma.

A instituição também promove cafés da manhã, encontros e comemorações de aniversário. Entre as iniciativas, Bruno destaca o sorteio de profissionais de áreas que normalmente não viajam para acompanhar a equipe em uma feira de turismo.

A experiência permite que esses colaboradores vejam mais de perto os resultados do trabalho realizado nos bastidores. Em um dos casos, a participação despertou tanto interesse que a profissional decidiu migrar para a área de mercado.

Para Bruno, reconhecer o propósito do próprio trabalho influencia o bem-estar da equipe. As pessoas acompanham o crescimento da Fundação, percebem a repercussão de suas entregas e compreendem melhor a contribuição de cada função.

Na vida pessoal, a transformação começou com a chegada dos filhos. A paternidade despertou nele o desejo de rever hábitos e cuidar mais da própria saúde.

O turismo de bem-estar que já flui pelos rios de Mato Grosso do Sul
Bruno Wendling treinando Muay Thai (Arquivo pessoal)

Depois veio o Muay Thai, prática que mantém há quase cinco anos. Com o tempo, Bruno também reorganizou sua relação com a bebida, hoje reservada a ocasiões bem pontuais. A combinação entre atividade física, escolhas mais conscientes e convivência com a família trouxe mais energia para enfrentar uma agenda intensa de viagens, decisões e exposição pública.

“Meu trabalho interno de melhoria física e mental tem me ajudado a liderar com mais tranquilidade”, compartilha.

Essa fala reforça algo essencial para mim. O cuidado pessoal sustenta a presença, a clareza e a qualidade das nossas entregas. Ele ajuda a atravessar períodos intensos sem perder completamente o contato com aquilo que importa.

Saí da conversa percebendo que parte da construção do turismo de bem-estar começa pelo olhar. Quando reconhecemos os efeitos das experiências que já existem, conseguimos compreender melhor o que elas podem despertar em quem viaja.

Em Mato Grosso do Sul, o bem-estar já flui pelos rios, atravessa trilhas, amadurece no tempo da espera e se revela no encontro com a natureza. Em uma rotina marcada por agendas cheias e esgotamento, talvez uma flutuação possa nos ensinar algo simples. Há momentos em que deixar o rio conduzir é também uma forma de reencontrar o próprio ritmo.

Até a nossa próxima pausa.

Instagram @natumae.br

Vanessa Leal | Natumae