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Tem crescido, de forma consistente, o número de mulheres que decidem viajar sozinhas

No mês em que o mundo volta seu olhar para as conquistas e os desafios das mulheres, essa pergunta abre também uma reflexão importante para o turismo, um setor que vive de encontros, experiências e liberdade de ir e vir.

Ela nos convida a olhar para uma realidade cada vez mais presente: mulheres que escolhem viajar na própria companhia.

Tem crescido, de forma consistente, o número de mulheres que decidem viajar sozinhas. Mulheres que não esperam mais o momento ideal, a agenda compatível ou a companhia disponível para realizar seus planos. Elas simplesmente vão. Ou melhor: vamos.

Viajamos para celebrar conquistas, atravessar mudanças de vida, descansar ou aprender algo novo. Viajamos para conhecer lugares que desejamos, viver experiências que sempre quisemos ou simplesmente pelo prazer de viajar. Nem sempre há um motivo extraordinário por trás da decisão. Muitas vezes há apenas vontade.

Viajamos porque podemos, porque queremos e porque entendemos a viagem como um espaço legítimo de autonomia.

A diferença é que, cada vez mais, elas — ou melhor, nós — escolhem fazer isso na própria companhia, decidindo o destino, o ritmo e as experiências que queremos viver.

Os números ajudam a mostrar essa realidade. Dados reunidos em estudos internacionais sobre comportamento do viajante e tendências do turismo indicam que hoje as mulheres representam cerca de 64% dos viajantes globais e influenciam a maioria das decisões relacionadas a viagens no mundo. Entre os viajantes solo, também são ampla maioria, chegando a representar mais de 70% das pessoas que optam por viagens individuais organizadas.

Quase metade das mulheres já realizou ao menos uma viagem sozinha, e uma parcela significativa afirma ter intenção de repetir a experiência nos próximos anos. Esse movimento também cresce entre mulheres acima dos 45 e 50 anos, mostrando que viajar sozinha não está associado apenas à juventude ou ao espírito aventureiro, mas tem se consolidado como uma escolha em diferentes momentos da vida.

E aqui vai um spoiler: um dos dados do Olhar Braztoa 2026, que será lançado em breve sobre tendências e comportamentos de viagem, já aponta mulheres viajando sozinhas como um dos perfis de público com maior potencial de crescimento neste ano.

Ao mesmo tempo em que esses dados representam uma conquista, esse avanço traz também uma reflexão importante para o turismo: se as mulheres estão viajando mais sozinhas; destinos, empresas e profissionais precisam evoluir na mesma velocidade para recebê-las bem e, sobretudo, com respeito.

Para a mulher que viaja sozinha, segurança não é apenas um atributo técnico. É também percepção.

Está na iluminação das ruas, na confiabilidade do transporte, na clareza das informações, na postura do atendimento e na forma como ela é recebida em hotéis, restaurantes, passeios e espaços públicos.

Comentários inadequados, abordagens invasivas ou atitudes naturalizadas culturalmente podem transformar uma experiência esperada como libertadora em um momento de desconforto ou vulnerabilidade.

Receber bem mulheres viajando sozinhas é sobre construir ambientes mais conscientes, preparados e responsáveis. Significa entender que hospitalidade também passa por respeito. E detalhes e pequenos gestos fazem diferença.

Quando uma mulher decide viajar sozinha, ela está exercendo autonomia sobre seu tempo, seus desejos e suas escolhas. O turismo tem um papel único nesse processo. Ao mesmo tempo em que acompanha transformações sociais, ele também ajuda a moldá-las.

Talvez a pergunta inicial ainda precise existir por algum tempo. Não porque viajar sozinha deva ser um ato de coragem, mas porque ainda há caminhos a percorrer para que isso seja simplesmente algo natural.

Garantir viagens seguras para mulheres deve fazer parte da agenda permanente de um turismo verdadeiramente inclusivo e sustentável.

E talvez essa reflexão seja ainda mais pessoal para mim, pois falo não apenas como alguém que observa o setor de perto, mas como quem vive o turismo — e também como uma mulher que, muitas vezes, viaja na própria companhia.

Porque, no fim, a pergunta que fica para o setor é simples e necessária: estamos, de fato, preparados para receber bem as mulheres que decidem viajar sozinhas? E mais do que isso: que tipo de experiências, ambientes e acolhimento estamos construindo para acompanhar esse movimento?

Se cada vez mais mulheres fazem essa escolha, cabe ao turismo garantir que ela seja sempre acompanhada de respeito, segurança e liberdade.