
A implantação do novo Sistema de Entrada e Saída (EES, na sigla em inglês) da União Europeia enfrenta questionamentos na Itália às vésperas do período de maior movimento turístico do continente. Gestores aeroportuários de Roma defendem a suspensão parcial do sistema biométrico para passageiros de fora do bloco europeu como forma de evitar congestionamentos nos aeroportos durante o verão.
Marco Troncone, diretor-presidente da Aeroporti di Roma, empresa responsável pelos aeroportos de Fiumicino e Ciampino, afirma que permitir que alguns passageiros deixem de utilizar temporariamente o novo sistema representa a única alternativa para evitar problemas operacionais nos meses de maior demanda. Segundo o executivo, o processo de registro biométrico não consegue acompanhar o volume de passageiros esperado para o verão europeu. A preocupação ocorre em um momento em que milhões de turistas se deslocam pelo continente durante as férias.
O EES substitui gradualmente os carimbos físicos dos passaportes por um sistema digital de controle migratório. Passageiros provenientes de países que não pertencem à União Europeia, incluindo brasileiros e britânicos, precisam registrar impressões digitais e imagens faciais na primeira entrada no bloco. O objetivo do sistema é reforçar o controle das fronteiras externas da União Europeia, monitorar períodos de permanência e combater fraudes migratórias.
O sistema começa a ser introduzido em outubro de 2025 e passa a operar em toda a União Europeia em meados de abril de 2026, após adiamentos relacionados à infraestrutura tecnológica e à preparação dos países-membros. Desde a implementação integral, aeroportos europeus registram dificuldades operacionais e aumento no tempo de espera dos passageiros. As filas ocorrem antes mesmo do início do período de maior movimento do verão.
“Estamos muito preocupados com o verão”, declara Troncone ao Financial Times. Ao ser questionado sobre o grau de preocupação em uma escala de um a dez, o executivo responde que sua avaliação está em “oito ou nove”. “O processo se mostra incompatível com os volumes de pico que vamos enfrentar. Portanto, a única solução é abrir a válvula. Não há como realizar 100% dos registros”, acrescenta.
Sistema de Entrada e Saída da União Europeia amplia pressão sobre aeroportos
Os aeroportos de Roma funcionam como uma das principais portas de entrada da Europa para viajantes internacionais. O Aeroporto Leonardo da Vinci, em Fiumicino, recebe voos de longo curso provenientes das Américas, da Ásia, do Oriente Médio e da África, enquanto Ciampino atende parte das operações regionais e de companhias aéreas de baixo custo.
A preocupação de Troncone não é isolada. Diversos representantes do setor aeroportuário europeu manifestam dúvidas sobre a capacidade do sistema de funcionar durante os meses de maior demanda. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) já alerta anteriormente para a possibilidade de filas de até seis horas em alguns aeroportos durante o pico do verão europeu. Em determinados locais, tempos de espera de até três horas e meia já são registrados.
O jornal The Guardian informa que problemas tecnológicos atrasam a implementação do sistema e contribuem para o aumento das filas. Em alguns casos, passageiros chegam a perder voos devido ao tempo necessário para concluir os procedimentos de registro. Além disso, passageiros que já passaram pelo processo biométrico anteriormente e deveriam utilizar canais mais rápidos acabam sendo obrigados a repetir os procedimentos em determinadas ocasiões.
O impacto do EES também afeta outros países europeus. Viajantes britânicos relatam atrasos em diferentes pontos de entrada no continente. No porto de Dover, no Reino Unido, autoridades francesas suspendem temporariamente verificações adicionais em maio para reduzir o tempo de espera. Na Grécia, autoridades abandonam uma promessa anterior que dispensaria cidadãos do Reino Unido dos controles biométricos até setembro.
Stefan Schulte, presidente da ACI Europe, entidade que representa aeroportos europeus, afirma em entrevista à BBC que a decisão de suspender ou flexibilizar o sistema cabe aos governos nacionais e não aos aeroportos. “Os políticos devem parar de fingir que o EES está funcionando perfeitamente. Não está”, afirma Schulte.
A ACI Europe representa operadores aeroportuários do continente e acompanha a implementação do sistema desde as etapas iniciais. O grupo defende ajustes operacionais para evitar impactos no fluxo de passageiros. No início de maio, a Comissão Europeia menciona a existência de uma “flexibilidade incorporada” ao sistema, permitindo que algumas funções sejam temporariamente suspensas em situações específicas.
Essa possibilidade abre espaço para que governos nacionais adotem medidas de contingência caso os aeroportos enfrentem dificuldades operacionais durante períodos de alta demanda. O EES faz parte de um conjunto mais amplo de iniciativas da União Europeia voltadas à digitalização das fronteiras. O sistema deverá operar futuramente em conjunto com o ETIAS, autorização eletrônica de viagem que será exigida de cidadãos de diversos países isentos de visto.
Para viajantes brasileiros, o novo sistema representa uma mudança importante na entrada em países europeus. O primeiro ingresso no bloco exige a coleta de dados biométricos, procedimento que pode ampliar o tempo de permanência nos postos de imigração.
Especialistas do setor aéreo observam que a implementação de sistemas migratórios em larga escala normalmente exige períodos de adaptação, treinamento de equipes e ajustes tecnológicos. Entretanto, o início da temporada de verão aumenta a pressão sobre autoridades europeias e operadores aeroportuários. Itália, Espanha, Grécia, França e Portugal recebem milhões de visitantes internacionais entre junho e setembro.
Em Roma, a preocupação concentra-se na capacidade dos aeroportos de processar grandes volumes de passageiros sem provocar filas extensas, atrasos em conexões e impactos operacionais nas companhias aéreas. A possibilidade de suspensão temporária do sistema ainda depende de decisões governamentais e de eventuais orientações da União Europeia. Até o momento, não há anúncio oficial sobre mudanças nas regras de funcionamento do EES.
Nas próximas semanas, o desempenho do sistema durante o pico do verão europeu poderá influenciar novas decisões regulatórias e operacionais. A experiência dos aeroportos italianos poderá servir como referência para outros destinos do continente que também enfrentam aumento expressivo da demanda turística durante a alta temporada.
*Com informações de Julia Kollewe, The Guardian.







