Atrasos na entrega de aviões fazem aéreas gastarem cerca de R$ 15,5 bilhões a mais em combustível
Modelo reúne soluções do A350 em um avião de corredor único Até 1.662 substituições de aeronaves foram adiadas até 2025, segundo levantamento da IATA (Divulgação/Airbus)

Os atrasos na entrega de novas aeronaves estão prolongando a permanência de aviões mais antigos nas frotas das companhias aéreas, com reflexos diretos sobre o consumo de combustível e as emissões. Segundo estimativa da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), as entregas postergadas acrescentam cerca de US$ 3 bilhões por ano aos custos de combustível do setor. Considerando a cotação de venda do dólar PTAX de 21 de agosto, de R$ 5,1625, o valor equivale a aproximadamente R$ 15,5 bilhões.

A estimativa integra o estudo “Emissions Penalties Due to Aircraft Delivery Delays”, publicado pela IATA em 14 de agosto de 2026. Segundo a entidade, os problemas nas cadeias de suprimentos e na produção de aeronaves vêm atrasando a renovação das frotas e fazendo com que as empresas mantenham em operação modelos de gerações anteriores, menos eficientes em termos de consumo.

Até sete anos de espera

A espera por uma aeronave nova pode se estender muito além de alguns meses. De acordo com a IATA, dependendo do tipo de avião, uma companhia pode levar até sete anos para receber uma unidade já encomendada.

A associação estima que até 1.662 substituições de aeronaves tenham sido adiadas até 2025. Com isso, equipamentos que já deveriam ter deixado as frotas continuam voando enquanto as empresas aguardam a chegada dos novos modelos.

O efeito se acumula ao longo do tempo. Quanto mais uma aeronave antiga permanece em serviço, maior tende a ser o consumo de combustível associado à operação e, consequentemente, as emissões. Para a IATA, a renovação das frotas está entre os principais caminhos para aumentar a eficiência e reduzir a pegada ambiental da aviação.

Nova geração reduz emissões por ASK

O estudo compara as emissões de CO₂ por ASK, sigla em inglês para available seat kilometer, ou assento-quilômetro oferecido. O indicador mede a capacidade de transporte disponibilizada por uma aeronave e resulta da multiplicação do número de assentos disponíveis pela distância percorrida.

Assim, uma aeronave com 100 assentos que percorra 1 mil quilômetros oferece 100 mil ASKs. Quando a métrica é relacionada às emissões, permite calcular a quantidade de CO₂ gerada para disponibilizar um assento em cada quilômetro de voo.

De acordo com a IATA, as aeronaves de nova geração apresentam reduções significativas nas emissões por ASK em relação aos modelos mais antigos. A queda chega a 20% nos aviões de fuselagem larga, 24% nos de fuselagem estreita e 40% nos jatos regionais.

Os dados ajudam a dimensionar a diferença entre as gerações. Nas aeronaves de fuselagem estreita, a análise aponta emissões médias de aproximadamente 68 gramas de CO₂ por ASK nos modelos mais antigos, ante cerca de 52 gramas nos mais novos. Entre os jatos regionais, os índices ficam próximos de 117 gramas e 70 gramas, respectivamente.

A IATA ressalta que os números correspondem a médias por categoria de mercado e não devem ser usados para comparações individuais entre modelos, fabricantes ou companhias aéreas. O levantamento reúne dados da própria associação, do EUROCONTROL Small Emitters Tool (SET), do Flightradar24 e da OAG.

12 milhões de toneladas de CO₂ a mais

Os atrasos também têm reflexos sobre as emissões totais da indústria. A IATA estima que a postergação das entregas resulte em aproximadamente 12 milhões de toneladas adicionais de CO₂ por ano.

Segundo a associação, o volume representa cerca de 1,2% das emissões totais da aviação e equivale às emissões de aproximadamente 2,6 milhões de carros.

Para dimensionar essa diferença, a IATA compara o resultado com os benefícios esperados do combustível sustentável de aviação (SAF). A entidade estima que a produção global de SAF prevista para 2026, de 2,4 milhões de toneladas, evite aproximadamente 6 milhões de toneladas de CO₂, considerando um fator médio de redução de emissões de 80%.

Nesse cenário, as emissões adicionais associadas aos atrasos nas entregas seriam aproximadamente o dobro da quantidade de CO₂ que a produção total de SAF prevista para 2026 deverá evitar.

Ganhos ambientais também são adiados

A permanência de aeronaves mais antigas nas frotas não afeta apenas as emissões de CO₂. A IATA destaca que as tecnologias incorporadas aos motores mais recentes, incluindo sistemas de combustão lean-burn, também contribuem para reduzir as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) e de material particulado não volátil (nvPM).

Quando a entrada de uma aeronave nova é adiada, portanto, não é apenas a redução do consumo de combustível que fica para depois. Os benefícios ambientais associados às tecnologias mais recentes também demoram mais a chegar à operação.

O cenário reforça o peso dos atrasos na cadeia de produção de aeronaves para as companhias aéreas. Enquanto aguardam os equipamentos encomendados, as empresas precisam prolongar o uso de modelos menos eficientes, absorvendo custos adicionais de combustível e retardando a redução das emissões que seria proporcionada pela renovação das frotas.