
O transporte aéreo de cargas ganhou força na América Latina. A demanda por frete aéreo na região cresceu 4,1% em julho de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, enquanto a capacidade disponível aumentou 7%, segundo dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA). O movimento acontece em um mercado que deve exigir cada vez mais aeronaves dedicadas ao transporte de mercadorias nas próximas décadas.
A projeção da indústria é de que a frota mundial de cargueiros cresça cerca de 70% nos próximos 20 anos, passando de aproximadamente 1.770 para 3.010 aeronaves. O cenário coloca pressão sobre fabricantes e operadores para encontrar aviões capazes de transportar mais carga, consumir menos combustível e operar com maior eficiência.
É nesse mercado que aparece o Airbus A350F, novo cargueiro desenvolvido a partir da família A350. O primeiro protótipo, identificado como MSN700, acaba de deixar a oficina de pintura da Airbus e começa uma nova etapa de desenvolvimento.
O detalhe curioso é que até a pintura da aeronave precisou ser tratada como um problema de engenharia.
América Latina aumenta demanda e capacidade de carga
Os números mais recentes da IATA mostram que o crescimento não acontece apenas na frota. A demanda por transporte aéreo de cargas na América Latina e no Caribe avançou 4,1% em julho, enquanto a capacidade cresceu 7% no mesmo período.
O aumento da capacidade foi superior ao crescimento da demanda, mas os números ajudam a dimensionar o espaço que o transporte aéreo de mercadorias ocupa no mercado regional.
No cenário global, a perspectiva é ainda maior. A indústria estima que serão necessárias cerca de 1.240 novas aeronaves cargueiras nas próximas duas décadas, entre aviões novos e conversões de aeronaves de passageiros.
Parte desse crescimento será atendida por modelos de maior capacidade e mais eficientes, especialmente em rotas de longa distância.
A350F chega para disputar esse mercado
O A350F foi desenvolvido justamente para esse segmento. A aeronave terá capacidade para transportar até 111 toneladas de carga útil e incorpora a arquitetura de materiais compósitos que já caracteriza a família A350.
O projeto também busca reduzir o consumo de combustível e as emissões de CO₂ em comparação com aeronaves cargueiras de geração anterior, de acordo com a Airbus.
Mais de 90% da superfície do A350F é formada por materiais híbridos, característica que ajuda a reduzir peso estrutural, mas também criou desafios para uma tarefa aparentemente simples: pintar o avião.
“Para otimizar o desempenho de materiais híbridos, desenvolvemos um novo primer externo mais flexível, projetado especificamente para absorver o estresse térmico”, explicou Monica Asuad Ferrer, chefe de tintas e revestimentos externos da Airbus.
O motivo está no comportamento diferente dos materiais. Metais e compósitos se expandem e contraem de maneiras distintas quando submetidos a variações de temperatura. A tinta precisa acompanhar esses movimentos sem comprometer a proteção da estrutura.
“Ele garante a adesão, permite a remoção e repintura da tinta quando a aeronave está em serviço e, claro, assegura um sistema de pintura durável, como nossos clientes esperam”, afirmou Asuad Ferrer.
Pintura pode acrescentar até 500 quilos ao avião

Em um avião cargueiro, peso é uma variável especialmente importante. Cada quilo acrescentado à aeronave pode representar menos espaço para carga útil.
A pintura completa de um A350 pode acrescentar entre 400 e 500 quilos ao avião depois de seca. Por isso, a Airbus precisou encontrar uma maneira de reproduzir o desenho escolhido para o primeiro A350F sem transformar a decoração em um peso adicional desnecessário.
A solução foi combinar tinta e películas adesivas. “Tanto a tinta quanto as películas adesivas são tecnologias dominadas pela nossa divisão de pintura, e ambas oferecem os mesmos altos níveis de desempenho e durabilidade”, afirmou Maxime Chincholle, chefe de design de pintura externa das famílias A330 e A350.
Os adesivos são impressos com as cores e elementos gráficos do projeto e aplicados sobre a base pintada. Dessa forma, a Airbus reduz o número de camadas de tinta e também diminui o tempo necessário para concluir a pintura.
O desenho escolhido não veio de uma agência ou de um estúdio contratado pela fabricante. Ele nasceu de um concurso aberto ao público.
Mais de 4 mil pessoas participaram do desenho
A Airbus abriu a competição em outubro de 2022 e recebeu mais de 4 mil propostas. Dois desenhos foram escolhidos e posteriormente combinados pela equipe de design da fabricante.
O conceito final faz referência ao universo da carga aérea, utilizando elementos que lembram caixas de papelão, fitas adesivas, etiquetas e carimbos.
“Os conceitos eram semelhantes, mas focados em elementos ligeiramente diferentes, complementando-se perfeitamente”, explicou Cassian Koshorst, gerente de design corporativo da Airbus.
A proposta aproveitou uma característica particular de um avião cargueiro: a ausência das grandes áreas ocupadas pelas janelas dos modelos de passageiros.
A fuselagem se transformou em uma tela de aproximadamente 1.000 metros quadrados.
“Conseguimos posicionar os elementos gráficos de ambos os designs, incluindo fita adesiva, adesivos e carimbos, exatamente onde queríamos na aeronave”, disse Koshorst.
Airbus precisou adaptar a própria oficina
O primeiro A350F também obrigou a Airbus a fazer mudanças na infraestrutura utilizada para pintura.
O comprimento da fuselagem fica entre os tamanhos dos A350-900 e A350-1000. Com isso, os engenheiros tiveram que criar uma configuração específica para o cargueiro.
Foi necessário desenvolver um módulo adicional para permitir o acesso à parte inferior dianteira da aeronave. A equipe também criou uma solução para mascarar a maior porta de carga do convés principal sem precisar abri-la durante o processo.
A operação passou ainda a contar com um sistema anticolisão baseado em mapeamento a laser 3D.
A plataforma automática usada pelos pintores recebe informações precisas sobre a posição da fuselagem e diminui a velocidade conforme se aproxima do avião. Quando chega a cinco centímetros da superfície, para completamente.
“Para um programa novo como o A350F, evitar interrupções é vital”, afirmou Sebastien Casellas, engenheiro de sistemas industriais da oficina de pintura da Airbus.
“Danos à aeronave significam reparos custosos, atrasos no cronograma e gargalos nas áreas de pintura”, completou.
Segundo o engenheiro, desde a implantação do sistema não houve nenhum impacto registrado durante o processo.
O primeiro A350F ainda é um protótipo
A saída do MSN700 da oficina de pintura marca uma etapa importante, mas o avião ainda está dentro do processo de desenvolvimento do A350F.
A aeronave que agora aparece com a pintura inspirada em caixas de papelão será utilizada nas próximas fases de testes e preparação do programa.
Para os vencedores do concurso, o momento representa o encontro entre um desenho criado no papel e uma aeronave que deverá entrar em um mercado em expansão.
“Ao olhar para o primeiro esboço que fiz e ver a realidade final, brilhante, parece inacreditável”, afirmou John Feehan.
Quinnten Iversen, que participou do projeto vencedor ao lado do irmão, também resumiu a experiência pela relação pessoal com a aviação.
“Sinto um orgulho imenso em ver o projeto ganhar vida. É um momento de fechamento de ciclo para a paixão pela aviação que compartilho há muito tempo com meu irmão mais novo”, disse.
Enquanto o mercado latino-americano registra crescimento de 4,1% na demanda e a indústria projeta uma frota mundial de cargueiros 70% maior nas próximas duas décadas, o A350F ainda está sendo preparado para entrar em cena.
Antes disso, porém, o novo cargueiro já mostra que, nesse segmento, até a quantidade de tinta usada na fuselagem pode fazer parte da conta.







