Latam
Jerome Cadier, CEO da Latam (Yuri Ricci/M&E)

SÃO PAULO – O CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, fez um duro diagnóstico sobre o turismo nacional durante o Seminário LIDE Turismo, realizado nesta quarta-feira (10), em São Paulo. Em uma das falas mais incisivas do evento, o executivo afirmou que o Brasil não consegue transformar suas vantagens competitivas em resultados concretos e classificou o desempenho do setor como “medíocre”.

“O trabalho do turismo brasileiro é medíocre. Coletivamente, nós fazemos um trabalho medíocre e precisamos reconhecer isso”, afirmou.

Segundo Cadier, o país continua perdendo espaço para destinos com menos atrativos naturais, menor diversidade de produtos turísticos e infraestrutura mais limitada.

“O Chile tem o dobro de passageiros por habitante que o Brasil. Temos metade dos turistas que o Chile e metade dos turistas que a Colômbia consegue atrair. Tentem vender o turismo do Chile e depois tentem vender o turismo do Brasil. É muito mais fácil vender o Brasil”, disse.

Para o executivo, a questão não está na falta de potencial, mas na ausência de coordenação e planejamento de longo prazo.

“Por que as pessoas viajam para o Caribe? As nossas praias são melhores. Temos uma oferta extraordinária. O problema é que não conseguimos transformar isso em crescimento”, reforçou.

Reforma tributária encarecerá quase 3 vezes os impostos pagos pela Latam

Além das críticas ao desempenho do setor, Cadier fez um alerta sobre os impactos da reforma tributária para a aviação comercial. Embora tenha defendido a necessidade da reforma e reconhecido seus objetivos de simplificação, afirmou que o modelo atual pode gerar consequências severas para as companhias aéreas.

“A intenção da reforma tributária é impecável. Ela é necessária. Mas, quando aplicada a alguns setores, vira uma bomba atômica”, disse.

Segundo ele, a Latam desembolsa atualmente cerca de R$ 2 bilhões por ano em tributos. Com as novas regras, esse valor poderá alcançar aproximadamente R$ 6 bilhões anuais.

“A nossa conta tributária sai de R$ 2 bilhões para R$ 6 bilhões. E quem paga isso não é a companhia aérea. Quem paga é o passageiro”, revelou.

Cadier destacou que a aviação opera em um modelo de repasse de custos e que o aumento da carga tributária inevitavelmente será refletido no preço das passagens, reduzindo a demanda e impactando toda a cadeia do turismo.

“Isso não afeta apenas as companhias aéreas. Afeta hotéis, restaurantes, eventos, locadoras, destinos turísticos e milhares de empregos que dependem da movimentação de passageiros”.

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O CEO também criticou a falta de visão estratégica para o desenvolvimento do setor e afirmou que o Brasil continua discutindo temas pontuais enquanto perde competitividade internacional.

“Estamos discutindo ainda se devemos cobrar bagagem separadamente. Isso é ridículo. Isso é pensar pequeno”, disse.

Segundo Cadier, investimentos em aviação exigem previsibilidade regulatória e econômica. Uma única aeronave representa um investimento próximo de US$ 40 milhões e sua rentabilidade é calculada em horizontes de sete a oito anos.

“Quando só tratamos do problema da semana, ninguém investe. Não trazemos mais aeronaves, não ampliamos conectividade e não geramos os empregos que poderíamos gerar”.

Apesar dos recordes recentes de movimentação aérea, o executivo afirmou que a aviação brasileira permanece praticamente estagnada desde o fim do ciclo de expansão vivido entre 2000 e 2008.

“O Brasil comemora recordes, mas está parado há 15 anos. O grande movimento da aviação aconteceu entre 2000 e 2008. Depois disso, crescemos muito menos do que deveríamos”, complementou.

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Para Cadier, o país reúne todas as condições para se tornar uma potência global do turismo, mas continuará desperdiçando oportunidades enquanto não houver uma agenda coordenada para ampliar competitividade, reduzir custos e estimular investimentos de longo prazo.

“Países com muito menos potencial avançaram mais do que nós. O Brasil não precisa de mais potencial. Precisa executar melhor”, finalizou.