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Criada entre aviões, a copilota de voos internacionais mostra que coragem e sonho podem levar cada vez mais mulheres à cabine de comando (Reprodução/Instagram)

RIO DE JANEIRO – Para algumas pessoas, o céu é apenas um horizonte distante. Para Cris Macahiba, ele sempre foi parte da vida. Filha de piloto, ela cresceu cercada por aviões, histórias de voos e a rotina de quem vive entre decolagens e pousos. Foi nesse ambiente que, ainda muito pequena, começou a construir uma relação quase natural com a aviação.

O M&E entrevistou nos últimos meses, diversas mulheres inspiradoras em celebração ao Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, e soltará, ao longo dos próximos dias, uma série de entrevistas com essas personagens tão importantes para o nosso setor, que podem ser conferidas aqui. O Turismo é feito de mulheres, por mulheres e para mulheres, e é isso que vamos poder observar ao longo da entrevista a seguir.

O primeiro voo de Cris Macahiba, ao lado do pai, aconteceu quando tinha apenas três anos. Desde então, a presença constante da profissão dentro de casa foi despertando, aos poucos, um desejo que não surgiu de forma repentina, mas que se consolidou com o tempo. “A aviação sempre fez parte da minha rotina familiar. Aquilo foi despertando em mim a vontade de seguir o mesmo caminho”, conta.

Mais do que o fascínio pelos aviões, o que realmente chamou sua atenção foi o estilo de vida. Cris nunca foi fã de rotinas previsíveis. A ideia de conhecer novos lugares, viver experiências diferentes e estar em constante movimento parecia traduzir exatamente o que ela buscava para o próprio futuro.

Durante a infância e adolescência, ela chegou a morar em uma pequena cidade do interior, experiência que apenas reforçou seu desejo de explorar o mundo. “Eu sempre senti que tinha nascido para viver em cidade grande, viajar e conhecer o máximo possível. A aviação representava isso para mim”, lembra.

Quando ver uma mulher pilotando muda tudo

Apesar da influência do pai, o início da jornada não foi livre de inseguranças. Cris começou o curso de piloto aos 18 anos e, naquele momento, nunca havia conhecido uma mulher que ocupasse aquele lugar.

A ausência de referências femininas fazia o sonho parecer distante. Até que um encontro mudou sua perspectiva. Seu pai a levou para conhecer uma comandante que trabalhava na mesma companhia aérea que ele.

“Aquela foi a primeira vez que vi uma mulher piloto. Naquele momento eu entendi que era possível”, recorda.

Com o tempo, outras pilotas começaram a cruzar seu caminho e reforçar essa certeza. Entre as inspirações históricas que também marcaram sua trajetória está a lendária aviadora Amelia Earhart, primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico sozinha, em 1932. A coragem da pioneira sempre serviu como combustível para seguir em frente.

O sonho que exige disciplina

Para quem observa de fora, a profissão de piloto costuma parecer cercada apenas de glamour: viagens, destinos internacionais e um estilo de vida dinâmico. Mas, nos bastidores, a realidade exige dedicação intensa.

Horas de estudo, treinamentos constantes, atualizações técnicas e grande responsabilidade fazem parte da rotina de quem está na cabine de comando. Ao longo do caminho até se tornar copiloto de voos internacionais, Cris enfrentou exatamente esse processo de preparação contínua.

Há também renúncias inevitáveis. Datas especiais, momentos em família e encontros com amigos muitas vezes ficam em segundo plano por causa de escalas e treinamentos. “Existe um trabalho muito grande por trás de cada voo. Não é apenas sentar na cabine e decolar”, explica.

O dia em que conseguiu entrar para uma companhia aérea foi, para ela, um dos momentos mais marcantes da carreira. “Ali veio um sentimento muito forte de missão cumprida. Era a concretização de tudo o que eu tinha construído até então”.

Mulheres ainda são minoria, mas estão chegando

Nos últimos anos, Cris tem percebido uma mudança gradual dentro da aviação. Quando iniciou sua carreira, ver mulheres na cabine era algo raro. Hoje, embora ainda sejam minoria (cerca de 3% dos pilotos), a presença feminina cresce pouco a pouco.

Para ela, a diferença está na visibilidade. Quando meninas veem outras mulheres ocupando aquele espaço, o que antes parecia distante passa a se tornar uma possibilidade real.

Ainda assim, existem momentos em que é preciso provar mais. “A responsabilidade dentro da cabine é a mesma para todos. Mas, às vezes, nós mulheres sentimos que precisamos demonstrar um pouco mais do que somos capazes”.

Inspirando novos voos

Nos últimos anos, Cris também passou a compartilhar sua rotina nas redes sociais, algo que, no início, não imaginava que teria tanto impacto.

Hoje, recebe mensagens quase diariamente de meninas que sonham em seguir a mesma carreira. Muitas contam que ganharam coragem para começar os estudos depois de acompanhar seu trabalho.

Esse retorno é algo que a emociona profundamente.

“Talvez a referência que eu senti falta lá atrás, eu consiga ser para essas meninas hoje”, diz.

Um céu cada vez mais aberto

Mesmo com uma rotina intensa de voos internacionais, Cris acredita que é possível equilibrar carreira e vida pessoal, ainda que de forma diferente da maioria das profissões.

A organização e a flexibilidade se tornam essenciais para conciliar escalas, viagens e momentos importantes fora do trabalho. Mas, ao contrário de muitos mitos sobre a profissão, ela garante: pilotos também conseguem construir uma vida plena fora da cabine.

No Dia Internacional da Mulher, sua mensagem para quem sonha em voar é simples, mas poderosa:

“Acreditem no próprio sonho. Somos muito mais corajosas e poderosas do que imaginamos. Podemos ocupar qualquer espaço que quisermos, inclusive a cabine de comando”.

E, enquanto novos aviões cruzam o céu todos os dias, histórias como a de Cris Macahiba mostram que cada vez mais mulheres estão prontas para assumir os controles e escrever novos capítulos na aviação.