
Singapura se tornará o primeiro país do mundo a cobrar dos passageiros uma taxa específica para financiar o uso de combustível sustentável de aviação (SAF). A medida, que começa a valer para bilhetes vendidos a partir de 1º de abril de 2026 e para voos que partem da cidade-Estado a partir de 1º de outubro do mesmo ano, inaugura um modelo de compartilhamento de custos que pode influenciar políticas globais no setor aéreo.
O anúncio foi feito em meio às discussões da COP30, realizada no Brasil, onde quase 200 países negociam novas ações de mitigação climática. O movimento de Singapura, um dos maiores hubs de aviação do planeta, envia um sinal direto a investidores, companhias aéreas e fornecedores: o uso de combustíveis sustentáveis está deixando de ser opcional.
Valores mais baixos que o previsto
O impacto financeiro para os passageiros será relativamente modesto — e menor que o inicialmente estimado pelo próprio governo. O valor adicional varia conforme cabine e destino. Passageiros de economia e premium economy pagarão S$1 (cerca de US$0,77) em voos dentro do Sudeste Asiático e S$10,40 em rotas para as Américas. Para quem viaja em business ou primeira classe, a cobrança será de S$4 e S$41,60, respectivamente.
Transitando por Singapura não haverá cobrança, assim como cargas, que terão uma taxa específica calculada por peso transportado.
A redução no custo estimado da tarifa, antes projetada entre S$3 e S$16, reflete a queda recente no preço do SAF. Ainda assim, a criação de uma taxa dedicada é vista como um passo decisivo para estimular previsibilidade e destravar investimentos no setor.
Objetivos claros para acelerar a descarbonização
Os recursos arrecadados serão destinados à compra centralizada de SAF, produzido principalmente a partir de óleos residuais ou biomassa. A meta é garantir uma mistura mínima de 1% a partir de 2026, com avanço progressivo até atingir entre 3% e 5% em 2030, dependendo da disponibilidade e dos preços de mercado.
Mesmo representando apenas 1,2% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a Comissão Europeia, a aviação enfrenta desafios significativos para descarbonizar: demanda crescente, oferta limitada de SAF e custos mais elevados que o combustível fóssil tradicional. Em 2023, a produção mundial de SAF dobrou, mas ainda respondeu por somente 0,3% do volume total de combustível de aviação, de acordo com a Iata.
Para analistas do setor, o diferencial da iniciativa singapurense não está apenas no valor da taxa, mas na previsibilidade que ela cria. Com uma política definida e permanente, investidores e fabricantes podem projetar expansão de capacidade com mais segurança, enquanto as companhias aéreas passam a repassar parte do custo de forma transparente ao consumidor.
Changi deve bater recorde em 2025
A implementação ocorre em um momento de forte recuperação da aviação na região. O Aeroporto Changi, um dos mais movimentados do mundo, deve superar em 2025 seu recorde histórico de 68,3 milhões de passageiros registrado em 2019, reforçando a relevância do país como laboratório para políticas climáticas voltadas ao transporte aéreo.







