
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre um novo ciclo de expectativas para o turismo brasileiro. Com a posse prevista para janeiro de 2027, o presidente terá pela frente o desafio de dar continuidade às políticas públicas do setor e responder às demandas de uma cadeia que reúne agências de viagens, hotelaria, eventos, destinos e empresas de serviços.
O plano de governo para 2027–2030 apresenta o turismo como instrumento de desenvolvimento regional e prevê medidas para ampliar sua participação na economia. Para as entidades representativas do mercado, porém, o próximo passo é transformar essa diretriz em ações concretas, com investimentos, previsibilidade regulatória, infraestrutura, promoção e qualificação profissional.
O Mercado & Eventos reuniu as expectativas de seis entidades para o novo mandato. Embora tenham prioridades específicas, as manifestações convergem em pontos como continuidade da promoção turística, melhoria da conectividade, ampliação do acesso ao crédito, segurança jurídica e maior articulação entre poder público e iniciativa privada. Também aparecem questões relacionadas à Reforma Tributária, às mudanças nas jornadas de trabalho e à integração do turismo com as políticas ambientais e sociais.
A cobrança ocorre após um período de resultados positivos para a atividade. Em 2025, o Brasil recebeu cerca de 9,3 milhões de turistas internacionais e registrou US$ 7,9 bilhões em receitas provenientes de visitantes estrangeiros, segundo os dados citados pelas entidades. Nos primeiros nove meses de 2026, o país ultrapassou 7 milhões de turistas internacionais, enquanto os voos domésticos somaram 76,8 milhões de passageiros no período.
O setor quer que esse desempenho alcance mais destinos, gere empregos e renda nas diferentes regiões e se mantenha nos próximos anos. O histórico das promessas anteriores, entretanto, mostra que a continuidade das políticas públicas permanece no centro da discussão.
Em balanço das 13 ações estratégicas apresentadas por Lula ao turismo antes da eleição de 2022, o M&E identificou cinco iniciativas cumpridas ou substancialmente implementadas, seis em execução e duas sem evidências suficientes para serem classificadas como cumpridas até agosto de 2026. Pela metodologia adotada, o índice de execução chega a aproximadamente 61,5%. O percentual é uma avaliação editorial das promessas específicas direcionadas ao setor, e não um indicador oficial de cumprimento do mandato.
O Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024–2027 incorporou praticamente toda a estrutura de ações anunciadas, incluindo regionalização, qualificação, sustentabilidade, inovação, crédito, infraestrutura, inteligência turística, eventos e marketing. Para o novo ciclo, a expectativa das entidades é avançar sobre as iniciativas em andamento e transformar as diretrizes em resultados concretos para empresas, trabalhadores e destinos.
Alagev: conectividade, crédito e previsibilidade regulatória
A Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev) defende a manutenção do diálogo entre o governo federal e a iniciativa privada para fortalecer o turismo de negócios. Para Luana Nogueira, diretora-executiva da entidade, a cooperação entre os setores público e privado é fundamental para ampliar a competitividade, estimular a geração de empregos e atrair congressos, feiras e convenções para o Brasil.
“A Alagev defende uma agenda conjunta entre governo e iniciativa privada, com foco na modernização dos aeroportos, ampliação da conectividade aérea, integração dos modais de transporte e acesso a linhas de crédito para desenvolver destinos regionais”, afirma.
A entidade também acompanha os possíveis efeitos da Reforma Tributária sobre os custos das viagens e dos eventos corporativos. Entre as preocupações estão as alíquotas aplicáveis aos serviços, o aproveitamento de créditos e as mudanças nos processos de contratação. Para a Alagev, essas questões exigem diálogo e previsibilidade para que as empresas possam planejar suas operações.
Outro tema é a discussão sobre mudanças na jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. A associação avalia que eventuais alterações podem afetar a organização das equipes e a produtividade nos setores de turismo, hotelaria e eventos. Por isso, defende que as mudanças sejam discutidas com representantes das empresas e dos trabalhadores, considerando os impactos operacionais.
O mercado brasileiro de viagens corporativas deve movimentar R$ 205,6 bilhões em 2026, crescimento de 5% em relação ao ano anterior, segundo projeção do Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), realizado pela FecomercioSP em parceria com a Alagev. Para a associação, a continuidade dessa expansão depende de previsibilidade econômica, segurança regulatória e condições favoráveis aos investimentos.
Unedestinos: promoção doméstica e infraestrutura regional
A continuidade das políticas públicas, a ampliação dos recursos para promoção dos destinos e os investimentos em infraestrutura estão entre as prioridades da Unedestinos. Para Toni Sando, presidente da entidade e CEO, o crescimento do fluxo de visitantes precisa ser acompanhado por ações capazes de alcançar diferentes regiões do país.
“A expectativa é que neste novo mandato o governo amplie os investimentos e fortaleça as políticas públicas para que esse avanço alcance mais destinos e se traduza em empregos, renda e oportunidades para as comunidades locais”, disse.
Entre as medidas defendidas estão melhorias em aeroportos regionais, rodovias e sistemas de mobilidade, além da ampliação da conectividade aérea e terrestre. A entidade também destaca a importância da qualificação profissional e da articulação entre governo federal, estados, municípios e iniciativa privada.
Na promoção turística, Sando defende a continuidade do trabalho da Embratur no mercado internacional e a criação de uma estratégia permanente para estimular as viagens dentro do Brasil. “Meu desejo é que a Embratur, com toda sua expertise, assumisse a promoção do turismo doméstico”, revela.
A Unedestinos também destaca a atuação dos Visitors e Convention Bureaus na captação de eventos e na divulgação dos destinos. Para a entidade, essas organizações podem contribuir para desenvolver produtos turísticos, atrair investimentos e ampliar a realização de eventos em diferentes regiões.
Grupo Vivejar: turismo responsável e bioeconomia
Para Marianne Costa, fundadora do Grupo Vivejar e ativista do Turismo Responsável, o novo governo deve manter os resultados positivos da promoção internacional e ampliar o diálogo com o setor. A dirigente defende uma gestão orientada por indicadores de efetividade, além de maior articulação entre o Ministério do Turismo, os estados e outras áreas do governo.
“Esperamos que o Ministério do Turismo exerça sua liderança e engaje os Estados nas pautas prioritárias para o Brasil”, afirma.
Costa também propõe integrar as políticas de turismo às agendas ambiental e social, considerando a biodiversidade brasileira e a participação das comunidades tradicionais. Para ela, o setor pode ter papel estratégico na bioeconomia, conciliando conservação ambiental, geração de renda e fortalecimento comunitário.
“Não há turismo responsável sem meio ambiente e as comunidades tradicionais. É fundamental um trabalho conjunto e interministerial nesse sentido, liderado pelo Ministério do Turismo”, reforça.
A ampliação da participação da sociedade civil no Conselho Nacional de Turismo também está entre as prioridades apontadas pela fundadora do Grupo Vivejar, que defende que os impactos ambientais e sociais sejam considerados nas decisões públicas, para além dos resultados econômicos.
Abav Nacional: compromissos de campanha e diálogo permanente
A Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional) defende que o governo reeleito avance no cumprimento dos compromissos de campanha e mantenha uma interlocução independente com o setor. Em posicionamento enviado ao M&E, a entidade destaca que o turismo tem potencial para ampliar a geração de renda, fortalecer os destinos e integrar diferentes atividades econômicas.
“ A Associação Brasileira de Agências de Viagens sempre manteve interlocução independente e construtiva com o governo e deseja que a gestão reeleita siga cumprindo com as promessas de campanha, lidando com comprometimento em relação aos pleitos do setor e com um olhar atento a este mercado que tanto gera empregos e movimenta a economia do país dentro de toda a sua cadeia”, diz a entidade.
A Abav considera que o crescimento do turismo internacional e o estímulo aos deslocamentos domésticos são sinais positivos, mas ressalta que ainda há espaço para ampliar os benefícios da atividade em todas as regiões. A associação afirma que continuará acompanhando a atuação do governo e contribuindo para uma agenda que fortaleça as agências de viagens e valorize a cadeia turística.
FBHA: crédito, Reforma Tributária e regras trabalhistas
A Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) espera que o governo transforme as sinalizações feitas durante a campanha em medidas concretas de apoio a hotéis, bares, restaurantes e empresas de eventos. Para Alexandre Sampaio, presidente da entidade, as prioridades incluem alternativas de crédito, segurança jurídica e previsibilidade diante das mudanças tributárias e trabalhistas previstas para 2027.
A FBHA acompanha as discussões sobre medidas de apoio às empresas de eventos, bares e restaurantes, incluindo a proposta anunciada durante a campanha de Lula para o perdão de dívidas com a União de empresas enquadradas no Simples Nacional. A entidade ressalta que a iniciativa é distinta da retomada do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) e depende de formalização e tramitação legislativa.
“É importante entender que o setor está sendo visto pela sua importância econômica e principalmente, pela geração de empregos”, afirma Sampaio.
A Reforma Tributária é outra preocupação, sobretudo pela necessidade de clareza sobre as alíquotas e o aproveitamento de créditos em despesas corporativas com hospedagem e alimentação. Segundo a Federação, a ausência de créditos em determinadas contratações entre empresas pode encarecer viagens corporativas e reduzir a demanda por serviços presenciais.
A entidade também acompanha as mudanças nas regras de jornada de trabalho, a garantia de dois dias de descanso semanal e a discussão sobre contratação de prestadores de serviços como pessoa jurídica. Para a FBHA, as particularidades de atividades que funcionam continuamente ou concentram movimento nos fins de semana precisam ser consideradas, com diálogo entre empresas e trabalhadores e respeito aos direitos previstos em lei.
ABIH Nacional: competitividade e continuidade da promoção
A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional) defende que o turismo seja tratado como política de Estado, independentemente de partidos ou governos. Para Sérgio Pereira Gaspar, presidente da entidade, o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Turismo e pela Embratur deve ter continuidade e ser fortalecido para ampliar a chegada de visitantes estrangeiros.
“Queremos um Brasil forte e competitivo, com um ambiente de negócios amigável e parâmetros alinhados às práticas internacionais. Precisamos de políticas públicas específicas para o setor e de isonomia tributária, com condições que permitam aos nossos empreendimentos competir com os de outros destinos”, defende.
A hotelaria também pede diálogo permanente com as empresas e condições adequadas para investimentos. Na avaliação da ABIH Nacional, o reconhecimento do turismo como atividade estratégica precisa se refletir nas decisões governamentais, no ambiente de negócios e na destinação de recursos.
“Assim como vemos em outros países, o turismo precisa ocupar um lugar permanente entre as prioridades do governo. É preciso encará-lo realmente como mola propulsora da economia nacional e fazer desse reconhecimento a base das decisões e dos investimentos para o setor”, conclui Gaspar.
Continuidade e resultados no centro da cobrança
As manifestações das entidades mostram que, apesar das diferenças entre os segmentos, o turismo chega ao novo mandato com uma agenda relativamente convergente. Promoção internacional e doméstica, conectividade, infraestrutura, crédito, qualificação e segurança jurídica aparecem como condições para sustentar o crescimento e ampliar seus efeitos sobre a economia.
O balanço das promessas do mandato anterior acrescenta uma dimensão a essa cobrança. Com aproximadamente 61,5% de execução das 13 ações estratégicas avaliadas pelo M&E, o setor identifica avanços, mas também iniciativas em andamento e pontos sem comprovação suficiente de cumprimento. Para o Lula 4, a expectativa é que as diretrizes existentes se traduzam em políticas contínuas, recursos e metas capazes de alcançar mais empresas e destinos brasileiros.







