
Funcionários da Voepass admitiram, em áudio gravado sem consentimento em setembro de 2024, que omitiram uma falha no sistema de degelo do avião que operou o voo 2283, que caiu em 9 de agosto de 2024 em Vinhedo (SP), matando 62 pessoas. A informação foi revelada em reportagem exibida pelo programa Fantástico quase um ano após o acidente.
A aeronave, modelo ATR 72-500, havia saído de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP). Segundo relato de um mecânico, o sistema de degelo apresentava defeitos e havia sido alvo de reclamação informal após um pouso anterior em Ribeirão Preto. No entanto, a falha não foi registrada oficialmente no diário de bordo, o que permitiu a liberação do voo.
Na gravação feita em setembro, um dos mecânicos da Voepass desabafa que sente um “remorso desgraçado” por não ter registrado por escrito a falha no sistema de degelo. O colega responde: “Printa, manda pro teu celular, guarda isso daí”, sugerindo que ele reunisse provas. Em seguida, classifica a situação como uma “sujeira”. Ambos atuavam no turno da madrugada, no dia do acidente, e confirmam que a falha havia sido detectada, mas não reportada oficialmente.
O ex-comandante Luiz Cláudio de Almeida, que já operou o mesmo modelo de aeronave, declarou que as condições meteorológicas naquele dia exigiam atenção especial devido ao acúmulo de gelo em todas as altitudes. Segundo ele, o avião deveria ter descido para minimizar os efeitos, conforme indicam os manuais técnicos.
De acordo com dados da investigação, o sistema de degelo foi ativado três vezes durante o voo. Ao realizar uma curva de aproximação para o pouso, a aeronave perdeu sustentação. O acúmulo de gelo teria comprometido a estabilidade e contribuído diretamente para a queda.
Conhecida na empresa como “Papa Bravo”, a aeronave envolvida no acidente já apresentava problemas recorrentes, segundo Almeida. Ele afirmou nunca ter visto o sistema inflável de expulsão de gelo funcionar corretamente nesse avião. “Esse avião não estava adequado para voar nas condições de gelo”, disse.
Casos anteriores reforçam os problemas estruturais da empresa. Em 2016, quando ainda operava como Passaredo, um ATR pousou acidentalmente em uma pastagem em Rondonópolis (MT). A aeronave foi depois “canibalizada”, com peças reaproveitadas de forma frequente e com pouco controle, segundo relatos de funcionários.
O voo 2283 levava 58 passageiros e quatro tripulantes. Entre as vítimas estavam os pais da estudante Eduarda Hubner, que viajaram para assistir a um show em São Paulo, e o casal Hiáles e Daniela, que seguiria para Atlanta (EUA), onde a fisiculturista participaria de competições.
Muitos passageiros não sabiam que voariam com a Voepass. As passagens eram comercializadas pela Latam, e o nome da operadora aparecia apenas como “2Z” nos bilhetes. A marca “Voepass” era discretamente impressa no cartão de embarque, o que gerou críticas de familiares após o acidente.
Em nota, a Latam declarou que informava corretamente o nome da companhia aérea e do modelo da aeronave no momento da compra. Afirmou ainda que o acordo de codeshare com a Voepass foi encerrado por iniciativa própria. Já a Voepass declarou que suas aeronaves operavam dentro dos padrões de segurança e que confia no trabalho do Cenipa.
A Voepass teve sua operação suspensa definitivamente em 24 de junho de 2025, quase onze meses após o acidente. Enquanto aguardam conclusões oficiais, os familiares afirmam que a queda do voo 2283 foi resultado de negligências sucessivas que poderiam ter sido evitadas.







