Cuba
Rua em Havana, capital de Cuba: dados apontaram queda de 64,4% no número de turistas na ilha, em meio à pressão dos EUA sobre o setor (Reprodução – Ernesto Mastrascusa/EFE/EPA)

O turismo cubano atravessa uma das fases mais críticas de sua história recente. Cuba recebeu 450.353 turistas internacionais entre janeiro e agosto de 2026, queda de 64,4% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pela Oficina Nacional de Estadística e Información (ONEI). Somente em agosto, foram registrados 30.490 visitantes.

O resultado aprofunda uma crise que já vinha sendo sentida desde a pandemia de Covid-19 e que se agravou com a redução dos voos e o aumento das sanções dos Estados Unidos a partir deste ano. O turismo é uma das principais fontes de divisas da economia cubana.

Distância dos anos de recorde

A dimensão da retração fica ainda mais evidente quando comparada aos números registrados antes da pandemia e durante o chamado “degelo” nas relações entre Estados Unidos e Cuba.

Em 2018, a ilha recebeu 4,6 milhões de turistas internacionais. No ano seguinte, foram 4,2 milhões. Em 2024, o país recebeu 2,2 milhões de visitantes e, em 2025, pouco mais de 1,8 milhão.

Os 450 mil visitantes registrados nos primeiros oito meses de 2026, portanto, representam uma redução expressiva em relação aos períodos de maior movimentação turística.

Entre janeiro e agosto, o Canadá permaneceu como principal mercado emissor, com 128.400 visitantes, seguido pelos cubanos residentes no exterior, com 103.481, e pelos Estados Unidos, com 41.971. As quedas nesses mercados foram de 75,6%, 35,6% e 50%, respectivamente.

Saída de grandes redes hoteleiras

A retração da demanda ocorre paralelamente à saída de importantes empresas internacionais do mercado cubano. Segundo dados divulgados pelo próprio governo cubano em julho, sete redes hoteleiras internacionais deixaram o país, empresas que administravam cerca de 46% das unidades habitacionais hoteleiras de Cuba — mais de 80 mil quartos, segundo os dados oficiais. Entre as empresas citadas estão Meliá, Iberostar, Barceló, Blue Diamond, Archipiélago International e ATG.

O impacto vai além da hotelaria. A redução de voos e a crise energética também dificultam a operação turística. Cuba enfrenta uma grave crise de geração de energia, com sucessivos apagões ao longo de 2026.

Governo tenta abrir espaço para o setor privado

Diante do agravamento da situação, o governo cubano aprovou em junho medidas para tentar dinamizar o turismo. Entre elas estão novas modalidades de participação do setor privado na atividade, incluindo gestão de hotéis, aluguel de automóveis, transporte de passageiros, atuação como agentes turísticos e serviços de guias.

A estratégia representa uma mudança importante na forma de participação privada em uma atividade historicamente dominada pelo Estado e por empresas vinculadas ao governo.

Pressão americana aumenta

A crise do turismo ocorre em meio ao aumento das tensões entre Washington e Havana. O governo dos Estados Unidos ampliou sanções contra agentes ligados ao regime cubano e contra setores considerados estratégicos da economia da ilha.

Em discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira (22), o presidente americano, Donald Trump, afirmou que seu governo “busca uma mudança fundamental na situação em Cuba”.

“O regime comunista está sob grande pressão — a maior pressão que já enfrentou. É um Estado absolutamente fracassado. Está fracassando como nunca antes e vai cair.”

A situação coloca o turismo no centro da crise econômica cubana. Com menos visitantes, menor oferta de voos e a saída de grandes grupos hoteleiros, um dos principais setores geradores de divisas da ilha enfrenta uma combinação de fatores que vem reduzindo de forma acentuada sua capacidade de recuperação.