LGBTQIAPN+
Relatos reais revelam como criadores de conteúdo LGBT transformam viagens em experiências de acolhimento e confiança (Freepik)

Há alguns anos, escolher um destino significava pesquisar passagens, hotéis e atrações. Para muitos viajantes LGBTQIAPN+, porém, ainda existe uma pergunta que vem antes de todas as outras: “Será que esse lugar vai me acolher?”. É justamente nessa lacuna que influenciadores e criadores de conteúdo ganharam força. Mais do que mostrar paisagens e roteiros, eles passaram a compartilhar vivências reais, indicar destinos onde é possível viajar com tranquilidade e transformar experiências pessoais em informação para milhares de pessoas.

A influência desses criadores já ultrapassa as redes sociais. Ao compartilhar experiências reais, eles ajudam milhares de pessoas a escolher destinos com mais segurança, descobrir empresas que valorizam a diversidade e encontrar informações que muitas vezes não aparecem nos guias de viagem.

Depois de uma curadoria especial, o Mercado & Eventos reuniu quatro nomes que vêm ajudando a mudar a forma como o turismo conversa com a diversidade. Entre histórias de vida, relatos de viagens e experiências pessoais, eles mostram que, para a comunidade LGBTQIAPN+, viajar continua sendo muito mais do que conhecer um destino. É também poder viver a experiência sendo quem se é.

Aline Fortuna (@mundosemmuros): uma mochila nas costas e um mundo sem muros

Viajar também é se sentir seguro: conheça os influenciadores que ajudam milhares de turistas LGBTQIA+
Aline Fortuna criou o Mundo Sem Muros após um mochilão (Acervo pessoal)

Fotógrafa, filmmaker e criadora do projeto Mundo Sem Muros, Aline Fortuna transformou uma viagem de mochila nas costas, sem data para voltar, em um estilo de vida. O mochilão de baixo custo, vivido há quase dez anos, deu origem a um projeto que incentiva pessoas a explorar novos destinos, conhecer outras culturas e se reconectar com a natureza. “Acredito que viver um Mundo sem Muros transforma perspectivas, falsas crenças, amplia horizontes e nos ajuda a entender melhor o mundo e a nós mesmos”, resume.

As experiências acumuladas pelo mundo também fizeram Aline perceber que uma mesma viagem pode ser vivida de formas muito diferentes por quem faz parte da comunidade LGBTQIAPN+. Na avaliação dela, o turismo amadureceu e existe um olhar diferente da indústria em acolher todos os perfis de viajantes.

“Hoje parece existir uma preocupação maior por parte de destinos, hotéis, operadoras e marcas em criar ambientes mais acolhedores e respeitosos para diferentes perfis de viajantes”, afirma. Para a fotógrafa, porém, a verdadeira inclusão não nasce das campanhas publicitárias. “Mais do que as publicidades ou discursos, a inclusão é percebida nas atitudes”, diz.

Aline explica que a melhor experiência é aquela em que a orientação sexual ou a identidade de gênero deixam de ser uma preocupação durante a viagem. “A sensação de poder viver a experiência da viagem sem precisar esconder quem você é.”

É justamente por isso que Aline acredita no papel dos criadores de conteúdo. “Os criadores compartilham experiências reais e ajudam outras pessoas a tomarem decisões com mais segurança.” Mesmo reconhecendo os avanços, Aline lembra que muitos turistas LGBTQIAPN+ ainda precisam pesquisar o nível de aceitação local, possíveis restrições culturais e a segurança para demonstrações de afeto antes de embarcar.

Entre os destinos brasileiros que considera referência estão Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis. Ao mesmo tempo, acredita que o turismo de natureza também pode se tornar um espaço cada vez mais inclusivo. “Existe um enorme potencial para regiões de ecoturismo, montanhismo e aventura serem também cada vez mais espaços tranquilos para todos os viajantes.”

No fim, o próprio nome do projeto resume sua maneira de enxergar o mundo. Para Aline, viajar nunca significou apenas conhecer um novo lugar, mas voltar para casa carregando novas perspectivas.

Flávio Fusco (@flaviofusco): do sonho de viajar à missão de inspirar 

Viajar também é se sentir seguro: conheça os influenciadores que ajudam milhares de turistas LGBTQIA+
Flávio Fusco já visitou mais de 40 países (Acervo pessoal)

Muito antes de conhecer mais de 40 países, viajar de avião parecia um sonho distante para Flávio Fusco. Mineiro, ator, apresentador e criador do Fui com Fusco, ele transformou essa realidade em combustível para criar um canal que nasceu, em 2017, com uma proposta simples: mostrar que viajar pode ser mais possível do que muita gente imagina. “A verdade é que eu cresci acreditando que viajar de avião era algo muito distante da minha realidade”, conta.

Ao olhar para trás, Fusco percebe que sua própria trajetória acompanhou a evolução do turismo LGBTQIA+. Segundo ele, marcas famosas da indústria passaram a enxergar a comunidade de forma diferente. “Percebo uma mudança muito significativa como hotéis, companhias aéreas, destinos turísticos e marcas passaram a enxergar e acolher a nossa comunidade.”

Embora reconheça os avanços, ele acredita que o acolhimento precisa fazer parte da experiência do viajante durante todo o ano, e não apenas em campanhas sazonais. “Quando um destino promove diversidade apenas durante o mês do orgulho, isso fica evidente. Quando esse acolhimento acontece durante todo o ano, a comunidade percebe.”

Na visão de Fusco, a inclusão não se mede por campanhas, mas pela forma como as pessoas são recebidas. “É possível perceber quando um casal LGBTQIAPN+ é tratado da mesma forma que qualquer outro casal.”

Essa vivência também moldou sua forma de produzir conteúdo. Em vez de apenas indicar lugares bonitos, Fusco passou a enxergar a responsabilidade que existe por trás de cada recomendação. “Não se trata apenas de mostrar lugares bonitos, mas de compartilhar informações úteis, honestas e seguras para quem está planejando viajar”, afirma.

Segundo ele, muitos seguidores estão vivendo experiências marcantes, como a primeira viagem internacional ou até o primeiro voo de avião, e isso torna a confiança construída com o público ainda mais importante.

Mesmo celebrando a evolução do setor, Fusco observa que alguns comportamentos mostram que ainda há espaço para avançar. “Algumas demonstrações de afeto que seriam vistas como normais para casais heterossexuais ainda chamam atenção quando envolvem pessoas LGBTQIAPN+.”

Entre os destinos brasileiros que considera referência em acolhimento e diversidade estão Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Foz do Iguaçu, Pipa, Fernando de Noronha, Bonito e Minas Gerais.

Hoje, depois de mais de 40 países visitados, Flávio acredita que sua maior conquista não foi a quantidade de destinos conhecidos, mas a possibilidade de inspirar outras pessoas a realizarem sonhos que, um dia, também pareciam impossíveis. “Viajei o mundo para descobrir destinos, mas encontrei no caminho a missão de inspirar pessoas.”

Fábio Pastorello e Cleber Alcantara (@viagenscine): a representatividade que encoraja novas viagens 

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O casal compartilha viagens e fortalece a representatividade (Acervo pessoal) (1)

Quando criou o Viagens Cine, em 2011, Fábio Pastorello queria apenas registrar as viagens do casal em formato cinematográfico. O projeto cresceu, Cleber Alcantara perdeu a timidez diante das câmeras e, aos poucos, os dois perceberam que o conteúdo publicado despertava uma dúvida recorrente entre os seguidores. “Os lugares são receptivos para pessoas LGBTQIAPN+?”

Foi justamente essa pergunta que fez o casal entender que seus vídeos iam muito além das dicas de viagem. Mostrar um casal gay vivendo experiências com naturalidade também ajudava outras pessoas a enxergarem aqueles destinos como possibilidades reais. “A representatividade é essencial. Quando uma pessoa assiste nossos vídeos e vê um casal gay viajando naquele destino, ela também se sente encorajada e segura para viajar para lá.”

Na avaliação dos dois, o turismo evoluiu nos últimos anos graças ao trabalho contínuo de conscientização sobre respeito e diversidade. “Hoje entendemos que todo o trabalho de comunicação e conscientização sobre o respeito aos viajantes LGBTQIAPN+ resultou num acolhimento melhor nos destinos.”

Ao mesmo tempo, alertam que esse processo não pode ser interrompido. “Vemos ameaças e discursos conservadores frequentes contra a comunidade LGBTQIAPN+, então o trabalho de conscientização sobre o respeito aos viajantes nos destinos, hotéis e serviços precisa ser frequente.”

Depois de anos viajando pelo Brasil e pelo exterior, Fábio e Cleber chegaram a uma conclusão simples: um destino realmente inclusivo é aquele onde a preocupação desaparece. “A sensação de se sentir seguro em um destino é realmente quando esquecemos que precisamos nos preocupar sobre isso.”

Mesmo assim, eles admitem que ainda evitam alguns lugares por causa de legislações homofóbicas ou relatos de violência contra pessoas LGBTQIAPN+. “Então ainda não nos sentimos livres para viajar para qualquer destino do Brasil ou do mundo.”

No Brasil, o casal destaca Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Alagoas entre os estados que mais os acolheram. São Paulo e Rio de Janeiro também aparecem como referências, embora eles defendam que ainda existam poucas ações de comunicação voltadas especificamente para esse público.

Depois de mais de uma década produzindo conteúdo, Fábio e Cleber descobriram que seus vídeos fazem mais do que apresentar destinos. Eles também ajudam outros viajantes LGBTQIAPN+ a planejar viagens com mais confiança e representatividade.

Didicas (@didicasdorio): quando um lugar bonito também precisa ser um lugar seguro

O criador do Didicasdorio compartilha destinos e vivências pelo Brasil e pelo mundo (Acervo pessoal) (1)
O criador do Didicasdorio compartilha destinos e vivências pelo Brasil e pelo mundo (Acervo pessoal)

Diego Soares Cardoso nunca imaginou que a criação de conteúdo faria parte da sua rotina. O perfil Didicas nasceu de forma espontânea, impulsionado pelas fotos e vídeos que publicava no Rio de Janeiro. A reação dos seguidores era quase sempre a mesma e acabou definindo o rumo do projeto. “Nunca foi um propósito de vida ser criador de conteúdo. Aconteceu naturalmente com as minhas postagens do Rio de Janeiro e as pessoas perguntando: ‘Que lugar é esse?'”, conta.

O que começou como um hobby ganhou audiência e, junto com ela, veio uma percepção que mudou sua forma de produzir conteúdo. “Com o tempo fui entendendo o tamanho e a dimensão que é criar conteúdo e influenciar pessoas e passei a encarar não só como um hobby, mas como um trabalho, com responsabilidades e informações.”

Foi justamente essa responsabilidade que o levou a enxergar a criação de conteúdo sob outra perspectiva. Para Diego, uma simples indicação de destino pode ajudar outras pessoas a viajarem com mais tranquilidade, especialmente quando elas buscam informações sobre acolhimento e diversidade. “Acredito que houve uma evolução importante nos últimos anos. Em muitas viagens que fiz, encontrei ambientes mais preparados para receber pessoas LGBTQIAPN+, com mais respeito, representatividade e naturalidade.”

Para Diego, um destino inclusivo não é aquele que faz grandes campanhas, mas aquele onde a diversidade faz parte da rotina. “A sensação de poder ser quem você é, sem receio, é o que realmente transmite segurança e inclusão.”

Ao acompanhar a própria comunidade, ele percebeu que criadores LGBTQIAPN+ também passaram a ocupar um papel importante ao mostrar experiências reais e dar visibilidade a destinos e empresas comprometidos com a diversidade. “Ao mostrar momentos de afeto, conquistas, desafios e experiências positivas, eles ajudam outras pessoas a se sentirem mais seguras para viajar e conhecer novos lugares.”

Apesar dos avanços, Diego lembra que muitos viajantes ainda precisam considerar fatores que passam despercebidos por boa parte das pessoas. “Dependendo do destino, ainda precisamos avaliar a demonstração de afeto em público ou agir com naturalidade sem receio de sofrer preconceito.”

Na sua avaliação, São Paulo e Rio de Janeiro permanecem como referências quando o assunto é diversidade, enquanto Salvador e Recife aparecem entre os destinos que vêm ganhando destaque por valorizarem diferentes perfis de viajantes.

Hoje, Diego continua produzindo conteúdo movido pela mesma curiosidade que deu origem ao perfil. A diferença é que a pergunta dos seguidores deixou de ser apenas “que lugar é esse?”. Cada vez mais, ela também carrega outra dúvida: “Será que eu vou me sentir bem ali?”.

No fim, é essa pergunta que conecta as histórias dos criadores entrevistados. Mais do que indicar roteiros, eles ajudam milhares de pessoas a viajar com mais informação, confiança e pertencimento. Porque o melhor destino nem sempre é o mais famoso. É aquele onde ninguém precisa deixar uma parte de si dentro da bagagem.

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