IA
Estudos mostram que hotéis e empresas de viagens ampliam o uso da inteligência artificial e avaliam seus resultados (IA/M&E)

A queda das ações de empresas de inteligência artificial na China coloca em discussão o ritmo dos investimentos na tecnologia e abre espaço para um debate no setor de turismo: até que ponto a adoção de ferramentas de IA está gerando resultados financeiros para as empresas que apostam nessa transformação?

Segundo reportagem da Reuters publicada nesta terça-feira (27), o índice STAR50, que reúne empresas chinesas de tecnologia, inteligência artificial e semicondutores, caiu 40% em menos de quatro meses, eliminando cerca de US$ 480 bilhões em valor de mercado. O movimento interrompeu uma sequência de valorização de companhias que haviam atraído investidores diante das perspectivas de crescimento da inteligência artificial.

Entre as empresas afetadas estão a fabricante de robôs Unitree e companhias de semicondutores, que registraram perdas expressivas após fortes altas anteriores. A correção ocorre em meio a preocupações com avaliações elevadas, perspectivas de demanda e possíveis restrições comerciais envolvendo tecnologias chinesas.

Embora o movimento esteja concentrado no mercado acionário chinês, a notícia traz uma questão relevante para outros setores que ampliam seus investimentos em inteligência artificial, incluindo o turismo. Companhias aéreas, hotéis, agências de viagens, operadoras e plataformas de reservas vêm incorporando ferramentas automatizadas em diferentes etapas da operação.

Pesquisas internacionais mostram que o desafio não está apenas em adotar a tecnologia, mas em transformar os investimentos em resultados mensuráveis.

Hotelaria investe em IA, mas retorno ainda é limitado

Um estudo da consultoria h2c, divulgado em outubro de 2026, mostra que 91% das redes hoteleiras participantes já utilizam inteligência artificial, enquanto outros 8% planejam adotar a tecnologia nos próximos 12 a 24 meses. Apesar da ampla utilização, apenas 13% afirmam ter retorno sobre o investimento mensurável.

O levantamento reuniu 122 respostas de 113 redes hoteleiras, que representam mais de 8,2 mil propriedades. A pesquisa também identificou que apenas 28% das empresas participantes possuem uma estratégia de inteligência artificial para toda a organização, liderada pela alta administração.

A eficiência operacional aparece como um dos principais benefícios relatados: quase sete em cada dez participantes identificaram melhorias nessa área, enquanto 59% afirmaram que a tecnologia permite às equipes dedicar mais tempo a atividades de maior valor.

Os resultados indicam que a presença da IA nas operações não significa, necessariamente, que as empresas consigam quantificar seus ganhos financeiros. A falta de conhecimento especializado e de treinamento também aparece entre as barreiras à adoção.

Na hotelaria, a inteligência artificial pode apoiar a definição de tarifas, a previsão de ocupação, o atendimento aos hóspedes e a análise de avaliações. O desafio é identificar quais aplicações geram economia, aumentam as reservas ou melhoram os resultados operacionais.

Viagens corporativas também enfrentam dificuldade para medir resultados

O cenário é semelhante no segmento de viagens corporativas. Uma pesquisa da publicação especializada Business Travel News, divulgada em abril de 2026, mostra que aproximadamente 75% das organizações participantes utilizam inteligência artificial em alguma atividade relacionada à gestão de viagens.

Apesar disso, apenas 21% afirmaram medir formalmente o retorno sobre o investimento ou a eficácia das aplicações adotadas. Ao mesmo tempo, 38% dos participantes disseram que suas organizações ainda estavam explorando ou testando aplicações, sem ampliar o uso da tecnologia para diferentes processos.

O levantamento recebeu 293 respostas qualificadas, coletadas entre 27 de janeiro e 3 de março de 2026. Os participantes estavam ligados principalmente a organizações dos Estados Unidos, da Europa e da região Ásia-Pacífico. Portanto, os resultados não representam necessariamente todo o mercado mundial de viagens corporativas.

Entre as aplicações mais utilizadas estão o atendimento automatizado aos viajantes e os chatbots, mencionados por 52% dos participantes, além da elaboração de relatórios, citada por 44%. Já ferramentas de auditoria de despesas e detecção de fraudes, utilizadas por menos de 30% dos entrevistados, receberam as melhores avaliações de eficácia entre as aplicações analisadas.

Para gestores de viagens, a discussão envolve mais do que automatizar tarefas. As ferramentas precisam contribuir para controlar despesas, facilitar a gestão de deslocamentos e melhorar o atendimento aos funcionários, sem comprometer a segurança das informações ou as políticas corporativas.

Hotéis preparam novos aportes em tecnologia

A expectativa de expansão dos investimentos também aparece no relatório Travel Dreams 2026, da Amadeus. Dos 500 profissionais de hotelaria consultados, 499 disseram planejar investimentos em inteligência artificial ao longo do ano. O gasto médio previsto foi de US$ 319 mil por propriedade.

O levantamento identificou diferentes aplicações já utilizadas pelos hotéis. A inteligência de mercado e o monitoramento das tarifas da concorrência foram citados por 40% dos entrevistados. A precificação dinâmica e a gestão de receitas apareceram com 39%, enquanto a previsão de ocupação e o planejamento de equipes foram mencionados por 38%.

Chatbots e inteligência artificial conversacional para atendimento aos hóspedes foram citados por 36%, mesmo percentual registrado para ferramentas de análise de avaliações e sentimentos dos clientes.

Os valores representam intenções de investimento declaradas pelos entrevistados, e não despesas já realizadas por toda a hotelaria. A pesquisa ouviu profissionais em nove países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França, México, Índia e Tailândia, entre outros mercados. Os dados mostram que a IA já ocupa espaço nas decisões de investimento do setor, sobretudo em atividades relacionadas à receita, à eficiência operacional e ao relacionamento com os hóspedes.

O que a queda chinesa tem a ver com o turismo?

A desvalorização das empresas chinesas não significa que a inteligência artificial perdeu sua utilidade nem comprova a existência de uma bolha no turismo. O episódio, porém, evidencia a diferença entre as expectativas criadas em torno de uma tecnologia e a capacidade de transformar essas promessas em resultados sustentáveis.

A discussão interessa às empresas de turismo que contratam plataformas tecnológicas ou desenvolvem soluções próprias. Os investimentos podem exigir gastos com licenças, infraestrutura, integração de sistemas, treinamento e segurança de dados. Sem uma avaliação adequada, os custos podem superar os benefícios esperados.

Para hotéis, um sistema de IA pode agilizar o atendimento, mas seu desempenho precisa ser acompanhado por indicadores como tempo de resposta, conversão de reservas e satisfação dos hóspedes. Nas agências, a automação de cotações pode reduzir tarefas repetitivas, desde que contribua para melhorar o atendimento e ampliar as vendas.

Nas companhias aéreas, as aplicações incluem atendimento ao passageiro, previsão de demanda, manutenção e planejamento operacional. Em cada caso, os resultados dependem das necessidades da empresa e da capacidade de integrar a tecnologia aos processos existentes.

A próxima etapa é comprovar o retorno

Na China, a queda das ações interrompeu uma sequência de valorização impulsionada pelas expectativas em torno da inteligência artificial. No turismo, os levantamentos mostram um cenário diferente, mas relacionado: empresas ampliam a adoção e planejam novos investimentos enquanto ainda enfrentam dificuldades para medir os resultados de parte das iniciativas.

Os dados não demonstram que o setor esteja diante de uma bolha semelhante à observada no mercado acionário chinês. Eles indicam, porém, que a expansão da tecnologia não elimina a necessidade de avaliar custos, produtividade e retorno financeiro.

Para hotéis, companhias aéreas, agências e operadoras, o desafio será identificar quais ferramentas contribuem para melhorar a operação, ampliar receitas e atender às necessidades dos viajantes. A evolução da inteligência artificial dependerá não apenas de novas aplicações, mas também da capacidade de demonstrar seu valor para os negócios.