
Madri virou palco de um debate que não dá mais para adiar. A ONU Turismo, a Iberostar Hotels & Resorts e a Circle Economy apresentaram o relatório “Towards Circular Hospitality: Transforming the Tourism System”, um chamado direto para que a hotéis mudem a forma como compra, opera e se relaciona com os destinos. A ideia é simples de entender e complexa de executar: sair do modelo de extrair, usar e descartar para um sistema que reaproveita, regenera e reduz desperdícios.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Meios de hospedagem emitem cerca de 260 milhões de toneladas de CO₂ por ano no mundo. Para comparar, é quase o que um país inteiro como a França libera anualmente. E o dado mais relevante vem na sequência: aproximadamente 70% dessas emissões estão ligadas à produção, transporte e descarte dos produtos e serviços consumidos pelos hotéis e seus hóspedes. Ou seja, o impacto não está só na energia do prédio, mas principalmente no que entra e sai dele.
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O gargalo invisível da hotelaria
O estudo lista dez obstáculos que travam a virada de chave. Falta infraestrutura de reciclagem em muitos destinos turísticos. Há resistência cultural, tanto de equipes quanto de viajantes. E talvez o maior entrave seja a ausência de uma visão comum sobre o que significa circularidade na prática. Sem alinhamento, cada hotel faz um pouco e o sistema como um todo continua igual.
A leitura deixa claro que não adianta separar lixo se a cidade não tem para onde enviar. Não resolve trocar canudos se a cadeia de suprimentos continua baseada em produtos descartáveis. Circularidade, aqui, aparece como estratégia de negócio e não como ação isolada de marketing.
O que a Iberostar fez na prática
Com mais de 100 hotéis em 14 países, a Iberostar entrou como estudo de caso. A rede estruturou equipes dedicadas aos 3Rs, com mais de 250 profissionais focados em medir e analisar resíduos. Em mais de 60 unidades, sistemas de inteligência artificial ajudam a monitorar o desperdício de alimentos nas cozinhas. A lógica é usar dados para entender onde se perde e como corrigir.
O resultado é expressivo. Desde 2021, a companhia reduziu em mais de 80% o volume de resíduos enviados a aterros. A mudança envolveu decisões de compra, desenho dos hotéis, treinamento de colaboradores e ajustes na experiência oferecida ao hóspede.
Gloria Fluxà, vice-presidente e diretora de sustentabilidade do grupo, resume a filosofia: “Não foi um projeto paralelo, mas uma mudança na forma de gerir o negócio”. Segundo ela, a transformação acontece quando metas comerciais e ambientais caminham juntas.

5 frentes para virar o jogo
O relatório organiza a transição em cinco eixos estratégicos.
1. Compras circulares
Priorizar fornecedores que ofereçam produtos duráveis, reutilizáveis ou biodegradáveis. A decisão de compra passa a ser ferramenta de transformação da cadeia.
2. Operações circulares
Uso responsável de água, energia e alimentos. Cardápios mais inteligentes e redução de desperdício entram no centro da gestão.
3. Ambiente construído
Projetos com eficiência energética, materiais de origem biológica e estruturas pensadas para durar e serem desmontadas no futuro.
4. Cultura e experiência
Treinar lideranças e equipes. Engajar hóspedes para que participem das escolhas sustentáveis durante a estadia.
5. Destinos circulares
Parceria com municípios, investimento em restauração ambiental e apoio a iniciativas locais que fortaleçam a economia do entorno.
Competitividade e futuro no mesmo pacote
Shaikha Alnuwais, secretária-geral da ONU Turismo, reforça que a hotelaria influencia diretamente como destinos administram recursos e enfrentam pressões climáticas. Para ela, adotar práticas circulares é também uma estratégia de resiliência econômica.
Claudia Alessio, especialista da Circle Economy, vai na mesma linha. “A economia circular fortalece os negócios porque reconhece que dependemos de capital natural e social saudável”. Em outras palavras, sem ambiente equilibrado e comunidade forte, não há turismo que se sustente.
O recado final do relatório é direto. A mudança sistêmica não nasce de uma grande decisão isolada, mas de milhares de escolhas alinhadas. A hotelaria, que sempre vendeu experiência, agora precisa revisar os bastidores dessa promessa. Circularidade deixou de ser tendência. Virou condição para continuar relevante.








