
A volta do Aeroporto de Guarulhos ao posto do terminal mais movimentado da América Latina, com mais de 47 milhões de passageiros no ano passado, e as indicações recentes de filmes brasileiros ao Oscar, como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”, confirmam uma mudança de patamar do país no cenário externo. Em 2025, o Brasil atingiu a marca de 9,3 milhões de visitantes estrangeiros. Esse fluxo reflete um interesse que vai além do turismo de lazer convencional.
Para a pesquisadora neurocomportamental Marina Travassos, da consultoria Okean, esse “frisson” global tem raízes na forma como o cérebro humano processa a informação. “O Brasil é visto como um laboratório cultural que utiliza a antropofagia para absorver influências externas e devolvê-las de forma original. Esse processo de devorar o estrangeiro para criar o autêntico é o que sustenta a relevância da produção simbólica nacional atualmente”, explica a especialista ao blog.
Marina aponta que o Brasil possui uma capacidade de acolhimento cultural que permite a absorção de referências globais sem a perda da voz própria. Nessa fusão entre o local e o externo, surge uma estética que é, simultaneamente, brasileira e global. Esse equilíbrio atende a uma demanda de mercados internacionais que buscam novas linguagens para romper com padrões estéticos já saturados.
O cenário de destaque não se limita às artes, mas se estende à moda, aos alimentos e ao comportamento. O país deixou de ocupar uma posição periférica para se tornar um centro de influência, onde a mistura é o principal ativo. Esse movimento é sustentado por uma infraestrutura de entretenimento que projeta a narrativa de uma cultura que não teme a integração de diferentes repertórios.
A lógica da neurociência na brasilidade

Sob a ótica da neurociência cognitiva, o sucesso do Brasil no exterior é explicado pelo conceito de “novidade familiar”. O cérebro humano é atraído por estímulos que quebram padrões estabelecidos, mas que ainda preservam uma base reconhecível. Quando algo conhecido é apresentado com uma variação imprevista, as regiões cerebrais ligadas à detecção de novidade e ao sistema de recompensa tornam-se mais ativas.
Culturas híbridas, como a brasileira, produzem combinações inesperadas de referências já conhecidas pelo público global. O resultado é uma percepção de algo que parece novo, sem soar completamente estranho ou alienígena. Essa sensação de surpresa controlada gera um engajamento biológico que facilita a aceitação de produtos culturais brasileiros em diferentes partes do mundo.
Essa mecânica cerebral explica por que o audiovisual e a música brasileira conseguem penetrar em mercados distantes, como a Europa e a Ásia. O público encontra na produção nacional elementos de identificação universal, mas embalados em uma estética que foge do óbvio. Essa característica transforma o produto cultural em um objeto de desejo e curiosidade constante para o espectador estrangeiro.
O fenômeno é potencializado pelo modo como a cultura brasileira se manifesta digitalmente. A alta taxa de engajamento da população em redes sociais cria uma exposição contínua do estilo de vida do país. Essa presença digital funciona como uma preparação do terreno, tornando os códigos culturais brasileiros familiares antes mesmo do contato físico do turista ou do consumidor com o país.
Soft power e a nova geopolítica cultural

A ascensão da “brasilidade” ocorre em paralelo a mudanças na geografia cultural do planeta. Com o surgimento de polos multipolares de influência, como o K-pop sul-coreano, o Brasil se posiciona como uma alternativa aos centros tradicionais de produção, localizados majoritariamente nos Estados Unidos e na Europa ocidental. O país utiliza sua diversidade como uma ferramenta de diplomacia cultural.
A força da indústria do entretenimento atua como um instrumento de soft power, termo utilizado para descrever a influência de uma nação por meio de sua cultura e valores, em vez da força econômica ou militar. A narrativa de uma nação que celebra a mistura e a diversidade ressoa com debates contemporâneos globais, atraindo a atenção de investidores e curadores internacionais.
Essa projeção impacta diretamente a economia do turismo. O viajante que chega ao Brasil busca vivenciar o laboratório cultural descrito por especialistas. O interesse recai sobre a gastronomia, o design e as festas populares, que são consumidos como experiências de imersão na identidade nacional. O país deixa de vender apenas paisagens para vender seu modo de vida.
O mercado global de consumo passou a valorizar a capacidade de adaptação e a fluidez, características intrínsecas à formação brasileira. Ao transformar a mistura em um ativo estratégico, o país consolida sua posição como tendência. O desafio atual do setor é manter a autenticidade enquanto escala sua produção para atender a uma demanda internacional que segue em curva de crescimento.







