Foto 1 - 1º Dia - 4º Encontro de Gestores de Operações e Qualidade da Resorts Brasil (Divulgação)
Gestores de resorts debatem custos e estratégia em encontro do setor (Divulgação)

O turismo de resorts entrou em uma fase menos intuitiva e mais analítica. A sensação de crescimento ainda existe, mas já não caminha sozinha. Ela vem acompanhada de custo mais alto, consumidor mais exigente e um ambiente global que muda rápido demais para decisões lentas. Foi nesse contexto que gestores se reuniram no 4º Encontro de Gestores de Operações & Qualidade da Resorts Brasil, colocando na mesa um ponto central: antes de qualquer estratégia, vem a leitura do cenário.

“Este encontro traduz exatamente o momento do setor: um ambiente mais complexo, que exige troca, visão ampliada e capacidade de decisão cada vez mais estruturada. É na conexão entre lideranças que a gente constrói respostas mais consistentes para o futuro”, disse Juliana Salles, diretora executiva da Resorts Brasil, na abertura do evento.

Felipe Castro, do Grupo Tauá, resumiu o crescimento do próprio encontro e o que ele representa hoje. “É muito significativo ver como esse evento cresceu e ganhou relevância ao longo dos anos.” Hoje, são mais de 60 gestores e mais de 30 resorts reunidos. Mais do que número, isso mostra um setor que entendeu que não dá mais para decidir sozinho.

Economia, comportamento e investimento: três forças que puxam o jogo

A primeira camada dessa leitura veio da economia. O cenário não é de crise global, mas de incerteza, e isso muda tudo no dia a dia da operação.

O economista Silvio Campos trouxe um diagnóstico direto: o mundo segue tensionado por questões geopolíticas que impactam petróleo, câmbio e custos operacionais. No Brasil, o freio também veio pelos juros altos. “O aumento expressivo das taxas de juros foi o mecanismo para reequilibrar os excessos”, explicou, refletindo em crédito mais caro, consumo mais cauteloso e maior pressão sobre a operação.

Ainda assim, há uma sustentação importante. “A demanda ligada às classes mais altas tende a ser menos afetada”, completou, indicando um crescimento mais moderado, mas ainda presente.

Na sequência, a análise saiu do macro e entrou no comportamento. Mariana Aldrigui, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), trouxe um ponto que muda o olhar sobre ocupação. “Esses sinais não são análise, são consequências que chegam até a sua taxa de ocupação”, afirmou.

O recado é direto: o que acontece no mundo bate no resultado. Conflitos internacionais, por exemplo, podem redesenhar o fluxo turístico. “Uma parte dos brasileiros que iria para a Europa pode redesenhar essas férias no Brasil”, disse. O movimento pode parecer positivo, mas ela fez um alerta. “Essa reorganização pode parecer muito positiva agora, mas não é necessariamente sustentável.”

Outro ponto chama atenção. O dinheiro mudou de lugar. “Muito do dinheiro hoje está sendo direcionado para experiência, não mais para bens como carro ou imóvel”, explicou. Com passagens mais caras, o turista ajusta o orçamento. “Quem economiza no aéreo se dá o direito de gastar mais no resort.”

Foto 2 - 1º Dia - 4º Encontro de Gestores de Operações e Qualidade Resorts Brasil
Resorts discutem custos, eficiência e estratégia em encontro nacional (Divulgação)

O dinheiro está vindo, mas quer mais do que hospedagem

Quando a conversa entra no investimento, o discurso fica ainda mais pragmático. Não basta crescer, precisa performar melhor que antes. Thais Perfeito, sócia da HotelInvest, trouxe essa lente com clareza. “O investidor olha exatamente o quanto aquele mercado cresceu em relação ao período anterior.” Ou seja, não adianta só estar cheio. É preciso evoluir.

E aí surge um recorte importante. Enquanto o mercado urbano enfrenta mais pressão, o lazer e o luxo seguem em expansão. “Os turistas internacionais estão vindo e estão vindo para viver experiências.”

Isso muda o nível de exigência, já que o assunto deixa de ser sobre sobre acomodação, e mais sobre memória. “Esse público paga mais, mas ele exige mais, ele quer memória, não só hospedagem. Um ponto a mais na avaliação pode gerar até 11% mais receita.”

Ao mesmo tempo, o investidor também mudou. O foco está em ativos já operacionais, onde eficiência e risco são mais previsíveis.

O consumidor mudou e a decisão também

Se a economia pressiona e o investimento exige, o comportamento do consumidor bagunça qualquer lógica antiga. Foi o que pontuou Trícia Neves, fundadora da Mapie e especialista em comportamento do consumidor no turismo: “Isso está para 2026 como a internet esteve para os anos 2000. A jornada não é linear, e hoje isso ficou incontornável.”

Um dos pontos mais interessantes veio na leitura do brasileiro médio. “O brasileiro não viaja por luxo, ele viaja para atravessar o dia com mais leveza. As pessoas não estão escolhendo para onde ir, estão escolhendo por que ir. O consumidor não pertence a quem tem mais dados, pertence a quem sabe usá-los para entender pessoas.” E um alerta direto. “Inovação sem humanidade é só barulho caro.”

Decidir bem virou o básico

No painel que reuniu diferentes visões ao longo do encontro, a conversa chegou no ponto mais sensível do setor hoje: decisão, não como conceito distante, mas como prática diária, pressionada por um cenário que muda rápido demais para respostas antigas.

A provocação veio de Roland Bonadona, que mediou o debate e trouxe um alerta direto, daqueles que ficam na cabeça: “O maior risco hoje não é errar, é decidir com base em um contexto que já mudou. Quando você ancora sua decisão em um cenário passado, você já começa atrasado.”

Essa leitura ajuda a entender por que tantos planejamentos já nascem desalinhados, ainda ancorados em números e premissas que perderam validade, enquanto o ambiente econômico, o comportamento do consumidor e até os fluxos turísticos mudam em tempo real.

Nesse cenário, decidir deixou de ser exercício de previsão e passou a ser leitura de presente, com mais interpretação e menos tentativa de adivinhar o que vem pela frente. Como o próprio Bonadona reforçou: “Decidir deixou de ser prever o futuro. Hoje, a gente precisa interpretar o presente com profundidade e agir com consistência, porque o cenário não espera.”

Tudo isso acontece sob pressão, com custo mais alto, cliente mais exigente, competição ampliada e uma necessidade constante de investir para não perder relevância, o que reduz margem de erro e aumenta o peso de cada escolha.

Outro ponto que ganhou força foi o papel dos dados, não mais como diferencial, mas como base mínima para qualquer decisão. “Sem informação estruturada, não existe análise. E sem análise, não existe decisão consistente”, completou Bonadona.

O que se desenha é um setor mais técnico, mais criterioso e menos tolerante ao improviso. Decidir bem deixa de ser vantagem e passa a ser o básico.

Liderança sai do discurso e entra na execução

Se o cenário ficou mais exigente, o papel da liderança acompanhou esse movimento, saindo do campo da ideia e entrando de vez na execução.

Servio Tulio Prado Jr. trouxe essa discussão para o chão da operação, deixando claro que estratégia por si só não sustenta resultado. “Nosso maior desafio não é desenhar boas estratégias. Isso a gente já sabe fazer. O grande desafio é fazer com que elas aconteçam no dia a dia, com consistência, com clareza e com gente engajada.”

Ao longo da fala, ele conectou planejamento e comunicação como partes do mesmo processo, sem separação prática, porque uma depende diretamente da outra para funcionar. “Planejar e comunicar não são etapas separadas. São movimentos que se retroalimentam. Se a estratégia não é compreendida, ela não é executada.”

A conversa naturalmente chegou nas pessoas, não como discurso motivacional, mas como fator real de execução. “Antes de qualquer meta, existe uma relação. É essa relação que abre espaço para a estratégia acontecer. Se as pessoas não se sentem parte, a execução não vem no nível que precisa.”

Essa dimensão apareceu de forma recorrente ao longo do encontro, mostrando que, em meio a tantas variáveis externas, a consistência interna ainda depende diretamente de gente preparada, alinhada e envolvida.

No painel final, a leitura voltou para o impacto direto na operação, com Frederico Gondim trazendo uma visão objetiva do momento. “Estamos diante de um contexto extremamente complexo, que deve se refletir em redução de margens para os resorts. O desafio agora é trabalhar com o quadro correto, nem menos, nem mais, porque não há mais espaço para ineficiência.”

A fala resume bem o que ficou do encontro. Um setor mais pressionado, mais atento e cada vez mais dependente de decisões rápidas e bem executadas, onde não basta saber, é preciso transformar leitura em ação com consistência.