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Nicolas Guallan, gerente Operacional do Space Adventure – Santa Catarina abriga 300 peças da Nasa, de trajes a rochas trazidas da Lua (Beatriz Waehneldt/M&E – Aprimorado com IA/Gemni)

Balneário Camboriú (SC) – O Space Adventure BC reúne o maior acervo de itens originais da Nasa fora dos Estados Unidos, com mais de 300 peças dos programas Mercury, Gemini e Apollo expostas na avenida das Flores desde março de 2024. A unidade, comandada pelo Grupo Oceanic em parceria com a DC Set Group e a Blast Entertainment, guarda desde o traje reserva de Buzz Aldrin até uma rocha trazida da Lua por Charles Duke. Nesta segunda-feira (20), a data ganha um significado a mais: completam-se 57 anos da chegada do homem à Lua, na missão Apollo 11, de 1969.

A unidade catarinense concentra o maior número de peças ligadas às missões Apollo, com destaque para a Apollo 11. O acervo tem vínculo com o Cosmosphere, museu e centro de educação espacial de Hutchinson, no Kansas, um dos maiores repositórios de artefatos da corrida espacial do mundo, mas não é uma unidade oficial da Nasa.

Para reconstruir a história espacial, o gerente operacional Nicolas Guallan conduz o Mercado & Eventos em uma visita guiada pelo acervo. O primeiro foguete foi o V2, um míssil de 14m de altura, intercontinental construído pela Alemanha nazista para atingir o território inglês a partir da Europa continental. Ele foi o primeiro foguete de grande porte movido a combustível líquido, uma raridade tecnológica para a década de 1940, criada pelo cientista Wernher von Braun.

O motor desenvolvido para o V2 evoluiu, décadas depois, para os motores do Saturno V, o foguete das missões Apollo. Ao fim da Segunda Guerra, disputado por Estados Unidos e União Soviética, von Braun foi levado ao território americano pela Operação Paperclip, programa que recrutou cientistas alemães para as áreas nuclear e espacial em plena Guerra Fria, se tornando posteriormente um dos fundadores da Nasa.

Linha do tempo apresenta os principais marcos da exploração espacial

57 anos da Lua: bota com poeira lunar está em Balneário Camboriú
Uma linha do tempo na parede resume a corrida espacial que se seguiu (Beatriz Waehneldt/M&E)

Em 1957, a União Soviética lançou o Sputnik 1, reproduzido no salão principal do museu, e semanas depois o Sputnik 2, com a cadela Laika a bordo. Os Estados Unidos responderam em 1958 com o Explorer 1, primeiro satélite americano, exposto em sua peça original. Guallan detalha a diferença entre os dois: enquanto o Sputnik soviético era apenas um transmissor de rádio, o Explorer 1 media radiação e ajudou a identificar o cinturão de Van Allen.

No centro do salão, uma réplica de 40 metros do Saturno V recebe o público. Guallan lembra que o foguete original tinha 110 metros de altura, o equivalente a um prédio, o que torna impossível reproduzi-lo em tamanho real dentro do parque. Ao todo, o Saturno V somava 11 motores distribuídos em três estágios movidos a querosene, hidrogênio e oxigênio líquido, e pesava cerca de 3 milhões de quilos.

Após atingir a órbita da Terra, de acordo com Guallan, a espaçonave seguia para a Lua a cerca de 41 mil km/h, numa viagem de três dias ao longo de aproximadamente 380 mil quilômetros. Em órbita, o módulo lunar se separava do módulo de serviço e comando com dois tripulantes a bordo, enquanto o terceiro astronauta seguia sozinho ao redor da Lua. Ao fim da missão, apenas a cápsula do módulo de comando retornava à Terra, enquanto o módulo de serviço e o módulo lunar ficavam para trás, no espaço.

Turismo espacial ganha força em Balneário Camboriú

O acervo que hoje ocupa quatro mil metros quadrados na avenida das Flores nasceu de uma coincidência. Cerca de uma década antes, o curador Rafael Reisman, organizou uma exposição sobre Elvis Presley em São Paulo. Na ocasião, Priscilla Presley, ex-mulher do cantor, perguntou a Reisman quais eram seus próximos planos. “Ele respondeu que era apaixonado por material da Nasa. Ela disse: ‘Eu conheço gente da Nasa'”, revela Guallan.

Seguiu-se uma negociação de cerca de dez anos até a agência espacial americana ceder as primeiras peças, o que resultou numa mostra itinerante em São Paulo. O sucesso do formato levou o Grupo Oceanic, a DC Set Group e a Blast Entertainment a abrir a primeira unidade fixa em Canela (RS), em maio de 2023. Seguiu-se então a abertura da unidade de Balneário Camboriú, em 14 de março de 2024.

Com investimento de R$ 30 milhões e cerca de 120 empregos diretos, a atração se tornou a quinta do Grupo Oceanic na cidade. Juntas, as duas unidades somam hoje cerca de 580 peças originais, das quais mais de 300 estão em Balneário Camboriú, com foco nas missões Apollo, Gemini e Mercury.

O acervo catarinense guarda também as histórias por trás dos objetos

Uma réplica em tamanho real da Freedom 7, cápsula usada por Alan Shepard na primeira missão espacial tripulada dos Estados Unidos, mostra painéis totalmente analógicos, sem qualquer componente digital. Da missão Apollo 13, que quase terminou em tragédia após a explosão de um tanque de oxigênio, o Space Adventure expõe um filtro de dióxido de carbono como o usado pela equipe de Houston para socorrer a tripulação a distância.

O museu também conta com um fragmento de fuselagem pertenceu à Liberty Bell 7, cápsula pilotada por Gus Grissom que afundou no Oceano Atlântico em 1961 depois que a escotilha se abriu antes da hora. A cápsula só foi recuperada do fundo do mar em 1999.

Completam a sala o relógio original da contagem regressiva da Apollo 11 e um trecho da mesa de controle de Houston, também usada na Apollo 16. Peças menores reforçam o acervo: um ladrilho cerâmico do escudo térmico do ônibus espacial Endeavour e outro, mais raro, do soviético Buran, que voou uma única vez, em 1988.

Entre as fotografias em exposição, negativos mostram como os astronautas realmente veem as cores no espaço. Guallan esclarece que, sem a proteção da atmosfera terrestre, a radiação solar faz os registros saírem em tons de cinza, corrigidos manualmente depois, já na Terra.

A evolução dos trajes espaciais também ocupa boa parte do percurso

Guallan descreve a peça das missões Mercury como uma adaptação de traje de altitude da Marinha dos Estados Unidos, usada apenas em testes em solo, no Texas. Já da Gemini, um traje que pertenceu a Pete Conrad, depois comandante da Apollo 12, mostra luvas rígidas reforçadas com hastes metálicas para permitir algum movimento das mãos.

Da Apollo 11, o parque guarda o traje reserva de Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua: a peça ficou dentro do módulo lunar como plano B e nunca tocou a superfície. Partes como o anel superior do capacete foram cedidas a outros museus ao longo dos anos.

O traje completo pertenceu a Charles Duke, da Apollo 16, padrinho do parque e homenageado com um personagem em 3D batizado de Dukinho. Aos 36 anos, Duke se tornou o mais jovem já a caminhar na Lua, recorde que segue de pé até hoje. “Ele se empolgou tanto que começou a pular de alegria. Pulou demais, caiu de costas e rasgou o traje. Quase morreu”, afirma Guallan sobre o episódio, em que a mochila de suporte de vida absorveu o impacto da queda e evitou uma despressurização fatal.

O acervo conta com uma bota usada na superfície lunar durante a Apollo 15 que preserva poeira lunar, o chamado regolito. Existem apenas duas peças assim no mundo, e a outra fica no Kennedy Space Center. Luvas usadas na primeira missão do ônibus espacial Columbia, antes de a nave se desintegrar na reentrada de 2003, e o molde de borracha da mão de Neil Armstrong, usado para desenvolver suas luvas sob medida, completam a coleção de acessórios.

A rotina dos astronautas dentro das cápsulas também vira atração. Uma fralda usada, preservada sem lavagem, ilustra o sistema sanitário das missões Apollo. A urina era filtrada e reaproveitada como água potável, enquanto as fezes eram embaladas com um germicida. “A única coisa que não é reutilizada são as fezes”, pontua Guallan.

Ao todo, os astronautas do programa Apollo deixaram 96 sacos com dejetos na superfície lunar, parte da estratégia para aliviar o peso das cápsulas na volta à Terra, carregadas de rochas lunares. A alimentação seguia lógica parecida: pratos como sopa de galinha e salada de atum eram liofilizados, ou seja, desidratados a vácuo, e reidratados com água quente ou fria dentro da nave.

Programas para crianças renovam o público

O projeto Nave, criado com um engenheiro aeroespacial de Joinville, permite que qualquer visitante monte e pinte seu próprio foguete de papel, com motor e propelente reais. “A criança escolhe um foguete, monta a estrutura e o motor, faz o lançamento duas vezes e ganha um certificado de engenheiro aeroespacial”, ilustra Guallan.

O interesse do público mais jovem cresceu na esteira do programa Artemis, de acordo com Guallan, que devolveu astronautas às proximidades da Lua em abril, quando a missão Artemis II completou o primeiro sobrevoo tripulado ao satélite em mais de cinco décadas. “Depois que a missão Artemis começou, a gente está tendo mais movimento de criança. Parece que a criança se interessou mais de novo no tema”, sublinha. Passados 57 anos da chegada do homem à Lua, o desafio, para Guallan, é manter vivo entre as novas gerações o interesse por uma corrida espacial que ganhou fôlego outra vez com o programa Artemis.

O parque também recebe, desde 2025, o Nasa International Space Apps Challenge, hackathon global que reúne estudantes e desenvolvedores em torno de dados abertos da agência espacial. Antes visto como um passeio mais adulto, o parque hoje recebe famílias inteiras, reflexo também do projeto Nave e de um programa educativo voltado a escolas da região, criado em parceria com o Instituto Soto e a Univali.

Imagens por: Beatriz Waehneldt